Mário Alves, investigador da Universidade dos Açores

Há indústrias de lacticínios dos Açores que candidataram projectos ao PRR para alimentar as suas unidades fabris a partir do hidrogénio

  Correio dos Açores - Há indústrias de lacticínios dos Açores que candidataram projectos ao PRR- Plano de Recuperação e Resiliência para alimentar as suas unidades fabris de combustível verde, a partir de derivados do hidrogénio...
Investigador Mário Alves (Professor da Universidade dos Açores) – Sim, a partir de água e de biomassa. É um processo termoquímico em que a biomassa é utilizada como promotora da dissociação da molécula da água, em vez de se usar electricidade, como acontece na electrólise da água. Atingem-se rendimentos bastante elevados a custos bastante mais baixos do que os que são obtidos quando se produz com electricidade. É com base nestes processos  que nós propusemos a produção de gás renovável que será utilizado, depois, nas caldeiras das fábricas.

Estas caldeiras têm grandes consumos de fuelóleo…
Exactamente. Estas indústrias de lacticínios da Região, tipicamente consomem na ordem dos milhares de toneladas de fuelóleo por ano. Posso dar-lhe o exemplo  duma das maiores indústrias de lacticínios dos Açores que consome mais de cinco mil toneladas de fuelóleo por ano. Se juntarmos todas as indústrias de lacticínios da Região, sobretudo as de maiores dimensões, que estão a consumir fuelóleo ou combustíveis fósseis equivalentes para a produção de calor, rapidamente atingimos as 20 mil toneladas por ano de fuelóleo que podem ser integralmente substituídas por combustíveis renováveis. E isso, obviamente, terá um impacto brutal ao nível das emissões de CO2. Por cada tonelada de fuelóleo que é queimada, produzem-se cerca de 3,2 toneladas de CO2. Portanto, se multiplicamos 20 mil por 3,2, produzem-se 64 mil toneladas por ano de CO2, que poderá ser evitado se as indústrias de lacticínios se converterem de combustíveis fósseis para combustíveis renováveis.

Se estes projectos forem aprovados entramos numa fase em que o hidrogénio já é uma área de negócio…
Sim, sem dúvida.

Em que outras áreas o hidrogénio poderá ser uma área de negócio nos Açores?
Poderá ser na produção de combustíveis sintéticos. Por exemplo, para a aviação, o jet fuel renovável. Poderá ser utilizado também na produção de fertilizantes, nomeadamente, de amónia, utilizando hidrogénio renovável e azoto extraído directamente da atmosfera. Esta é, sem dúvida uma outra área possível: a produção de fertilizantes renováveis, em vez dos actuais que são basicamente todos eles de origem fóssil.
O hidrogénio, actualmente, utilizado na produção da amónia, é extraído de gás natural, que é um combustível fóssil. Este hidrogénio, sendo extraído do gás natural, faz com que, depois, a própria amónia, seja de origem fóssil. Ora, se nós substituirmos este hidrogénio de origem fóssil por um outro que é de origem renovável, obtido, por exemplo, da água e da biomassa, então, nessa altura, teremos uma amónia que é renovável e os fertilizantes que daí derivarem, são eles todos também renováveis.

O hidrogénio ou um dos seus derivados pode substituir o fuelóleo na estabilização de centrais de fornecimento de electricidade em algumas ilhas dos Açores?
A estabilização das redes eléctricas é feita com os grupos térmicos das centrais termoeléctricas que, nos Açores, são na sua esmagadora maioria centrais a fuelóleo. Nalguns casos, nas ilhas mais pequenas, como o Corvo, é usado o gasóleo que tem um preço que é basicamente o dobro do fuelóleo. Mas, de um modo geral, as centrais termoeléctricas usam o fuelóleo para produzir mais de metade da energia que é consumida em cada ilha, permitindo a estabilização da rede para a penetração da energia renovável, nomeadamente da proveniente do vento ou da geotermia. O fuelóleo pode ser substituído por combustíveis renováveis sintéticos, derivados do hidrogénio, isso significa que as centrais termoeléctricas que hoje funcionam a fuelóleo, poderão ser substituídas por outras que funcionam com base em combustíveis renováveis sintéticos que são produzidos a partir de hidrogénio. E, nessa altura, estas centrais termoeléctricas passam a ser 100% renováveis porque usam, exclusivamente, um combustível renovável. Portanto, pode-se passar de um registo fóssil (a fuelóleo) para um registo renovável. A partir daí, os grupos geradores funcionam com estes combustíveis renováveis e a electricidade que assim for produzida é ela própria também renovável à qual se adiciona a electricidade proveniente, por exemplo, da energia eólica, da geotermia e da energia hídrica. E, então, podemos ter sistemas electroprodutores 100% renováveis.
Claro que em ilhas mais pequenas em termos populacionais esta transformação já poderia ter ocorrido. Por exemplo, São Jorge ou Santa Maria, são ilhas em que já há uns anos a esta parte, se poderia ter feito uma aposta de as converter em ilhas 100% renováveis do ponto de vista da geração eléctrica. Podíamos já ter substituído estes combustíveis fósseis que são utilizados lá por combustíveis renováveis que poderiam ser gerados nas duas ilhas. Poderíamos ter os seus sistemas electroprodutores 100% renováveis.

Tecnicamente isto já é possível?
Tecnicamente, isto é perfeitamente possível e é economicamente viável.

É mais rentável que o fuelóleo?
Do ponto de vista técnico o rendimento dos grupos geradores alimentados com combustíveis renováveis é idêntico ao dos grupos geradores fósseis. Ou seja, os grupos têm rendimentos, do ponto de vista da conversão do combustível para a electricidade que são semelhantes. A este nível não há diferenciações.
Ao nível de preços, neste momento presente, os combustíveis renováveis são francamente mais baratos do que os combustíveis fósseis, tendo em conta por exemplo o preço a que está actualmente o fuelóleo. Temos combustíveis renováveis que podem ser produzidos a custos cerca de 40% mais baratos do que o preço actual do fuelóleo. E, portanto, poderíamos ter produções mais económicas.

Acredita que, um dia, os Açores, terão energia 100% renovável, tendo como base derivados do hidrogénio a estabilizar os grupos termoeléctricos?
É inevitável. É uma questão de tempo. Não me coloco a questão se acredito que um dia todo o sistema electroprodutor será renovável. Vai ser um dia, seguramente. Pode ser mais cedo ou pode ser mais tarde. Depende da vontade da própria EDA, da versatilidade dos seus planos de investimento e da vontade política e do Governo (uma vez que a EDA é uma empresa maioritariamente pública) e depende também do que a iniciativa privada possa fazer, produzindo e vendendo energia à rede a partir de combustíveis renováveis. Isto é inevitável. Se houver vontade, ao dia de hoje, já é possível fazer isso. Hoje mesmo pode-se começar um processo destes para, dentro de dois anos, termos, por exemplo, uma ilha 100% renovável. Se estes processos não se iniciarem agora e só começarem daqui a 10 anos, pois só então é que será.

A Região deveria estar a aproveitar a decisão da Comissão Europeia em criar ‘um novo banco europeu’ para fomentar investimentos em projectos de hidrogénio na União Europeia orçado em três mil milhões de euros?
Sim, mas isto tem que ser bem estruturado e bem equacionado. Há soluções de hidrogénio que não são economicamente viáveis. E eu tenho assistido a alguns projectos e a algumas iniciativas de grande dimensão que só são viáveis porque estão a ser subsidiadas. E eu não defendo, de todo, estas soluções.
As soluções que eu defendo são soluções que são hoje economicamente viáveis. Se houver o apoio por parte da União Europeia no sentido de estimular os investidores a avançarem nesta direcção, tanto melhor. Este apoio não deve ser mais do que um estímulo e, certamente que os investidores o apreciarão. Mas, o negócio em si e a produção do combustível renovável não pode ser dependente de subsídio. Ela tem de ser economicamente viável. E, portanto, poderemos ter na Região, como no país, e em outras zonas do planeta, iniciativas para a produção de combustíveis sintéticos renováveis, mas a bitola tem que ser a viabilidade económica e a sustentabilidade dessa produção.
Para fazer uma utilização de largo espectro, em todos os sectores económicos onde a energia é necessária, os combustíveis renováveis têm de ser uma aposta economicamente viável. Aqui na Região isso é possível. Mas eu diria que é preciso equacionar bem as opções e as apostas que se vão fazer porque algumas delas podem não ser economicamente viáveis.

Vai chegar ao dia em que o fuelóleo desaparecerá dos Açores?
Isso vai acontecer, certamente, um dia. E que seja mais cedo do que tarde.

Compreende que estão em causa interesses económicos empresariais privados de grande relevância…
Sim, mas estes mesmos interesses económicos que hoje vivem ou têm grandes rendimentos derivados dos combustíveis fósseis, eles próprios podem-se envolver na produção de combustíveis renováveis e, no futuro, estarem presentes com a mesma pujança que estão hoje mas saindo do registo fóssil, enveredando pelo registo renovável. Isto é perfeitamente possível. Não se tira o lugar a ninguém. Espera-se até é que haja mais actores no futuro. As iniciativas estão todas em aberto. Quem quiser tomar a iniciativa de avançar, pode certamente fazê-lo. Portanto, não há restrições para ninguém.
Se há negócios que, neste momento, estão a correr muito bem porque são beneficiados pelos elevados preços a que se vendem os combustíveis fósseis, o que eu direi é que estas empresas que estão a tirar este benefício, estão num momento óptimo para aproveitarem estes rendimentos extra para fazerem investimento em produção renovável. Assim, quando saírem deste período que é claramente um período anómalo em que o preço dos combustíveis fósseis está elevado, poderão estar com pujança na produção dos combustíveis renováveis.
Portanto, progressivamente, abandonar a dependência da economia actual em relação aos fósseis para a tornar consumidora natural dos combustíveis renováveis. Esta a altura ideal para os beneficiários dos grandes lucros poderem tomar estas iniciativas.
Algumas destas iniciativas já estão a ser tomadas e, inclusivamente, algumas petrolíferas estão a fazê-lo. Naturalmente, há muita coisa em jogo e o que não é fácil entender é porque é que algumas iniciativas são tomadas quando se vê que elas não são economicamente viáveis. Algumas destas iniciativas, apesar de não serem economicamente viáveis, estão a catalisar grandes apoios da União Europeia e vão conseguir ir para o terreno. Mas, aquilo que eu digo é que esta é uma boa altura para que haja iniciativas de investimento naquelas soluções que, garantidamente, são economicamente viáveis.
E, no futuro, aquelas que forem economicamente viáveis, certamente irão perdurar e aquelas que não forem irão morrer. É como em todos os outros investimentos que não são economicamente viáveis.
O que não tenho dúvidas é que este momento é um bom momento para se fazer esta aposta. Eu diria que nenhum dos actuais actores das energias fósseis está condenado a perder. Se fizer a aposta na mudança, certamente que poderá estar, pelo menos, bem posicionado no futuro em relação àquilo que forem as novas soluções de combustível.

Além de estar envolvido nos projectos das empresas de lacticínios dos Açores, também está envolvido em outros projectos nacionais e internacionais…
Sim, todos eles ligados à produção de combustíveis renováveis, nas mais diversas formas, desde combustíveis sólidos, a combustíveis líquidos e a combustíveis gasosos. Tudo o que são combustíveis renováveis, tem sido, de facto, a minha área de actuação, cada vez mais próximo da indústria e não tanto da investigação pura. Estamos em fase de poder avançar com muitas iniciativas para o terreno pois elas já são economicamente viáveis e, mais ainda, são sustentáveis. E é nisto que é preciso apostar. Os projectos de investigação são importantes, mas agora estamos a falar de grandes investimentos, muito mais elevados do que é o investimento típico de projectos de investigação. Isto tem que ser feito com quem tem esta capacidade de investimento e entenda o processo, ou seja, com a indústria.
                                         
 

 

 

 

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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