Empresário João Gago da Câmara

“Confesso que me rebelo contra o uso excessivo da internet pelas crianças e adolescentes, cada um para o seu lado”

 Correio dos Açores - Como se cuidam as gerações nascidas nas décadas de 50, 60 e 70 e quais as diferenças que sentem nas nascidas no novo milénio?
João Gago da Câmara (empresário) - Nasci em 56 e tive o cuidado de educar as minhas duas filhas com rigor, severidade, quando necessário era, mas com controlo e um misto de amor e de compreensão, pois sempre tive uma convicção genuína de que a minha principal tarefa de pai era a de prepará-las para o presente que eu conhecia e para o futuro que eu desconhecia. Nas demais das vezes, sentia remorsos após as suas manifestações de mágoa e de revolta, mas tive sempre a certeza absoluta que lhes estava a dar ferramentas para, com muito mais facilidade, enfrentarem as contrariedades e desafios do decurso das suas vidas de mulheres, esposas e mães. Tarefa árdua essa de educar os nossos, porque, como filhos que são, não nos saem do pensamento durante todas as horas do dia. São uma preocupação constante até à sua emancipação e mesmo depois da sua autonomia continuam, eles e os filhos deles, nossos netos, a fazerem parte do nosso desassossego. Bem que diz o provérbio que “quem tem filhos tem cadilhos”.
Embora sendo da década de 50, acompanhei, com extrema atenção e devoção, a inserção das minhas filhas nas décadas mais recentes e, porque tenho um espírito jovial, através delas e até às vezes com o seu apoio, fui-me adaptando aos novos tempos, não perdendo nunca os princípios que me foram passados pelos meus pais e que religiosamente cultivo e preservo.
Palmilhei os matos do Nordeste de São Miguel, da Achada das Furnas, do Monte Escuro, da Vista do Rei, dos mil e quatrocentos metros da montanha do Pico, das montanhas altaneiras da ilha das Flores, das Fajãs de São Jorge, dos matos dos Altares na Terceira e tenho hoje a certeza de que o mato fala connosco e, nesse silêncio silvestre, afiança-nos que aquele deve ser o caminho. A escolha do percurso é, deve ser, acima de tudo, a natureza, os seus cheiros intensos, os seus gradientes de múltiplos verdes, os azuis do céu e do mar próximos. O mato sugere, o mato aconselha, o mato dialoga, o mato pacifica, o mato resolve. E quando chegava a casa, cansado mas realizado, nunca poderia imaginar que um dia mais tarde existiriam crianças que prefeririam ao mato o sofá das suas casas e o ipad ou o telemóvel para, enganadamente, percorrerem matos virtuais.
Penso que seria nossa obrigação fazê-las (obriga-las), às crianças, a parar para pensar. São drogados dos pequenos ecrãs e não há escolas de recuperação em casa. Acredito, a pés juntos, que já não fará qualquer diferença a essas crianças ouvir o chilrear de um pássaro nos trilhos das ilhas ou o berrar de uma vaca na montanha rodeada de conteiras e de hortênsias quando o seu pensamento está configurado apenas ao software e ao hardware de um computador.
O meu pai, quando novo, palmilhou a metro todas as montanhas envolventes das Furnas. Trabalhava então no Serviço Cadastral. Vivemos os seis filhos e eles, os pais, nas Furnas, quando lhe foi atribuído esse trabalho. Brincávamos, mergulhávamos nas águas tépidas da piscina de água férrea, subíamos araucárias até ao topo, cozíamos ovos nas terras quentes do vulcão, andávamos de galochas, cavalgávamos nas bestas mansas do leite, participávamos activamente na apanha do milho doce e assim matávamos o tempo a aguardar a chegada do nosso querido pai cansado. O jantar em família era a conversarmos com cada um a contar o seu dia como se cada hora fosse uma epopeia. Eram tempos de conversar. Acabávamos a janta e passávamos à sala de estar para conversarmos. Não havia televisão, não havia rádio que perturbasse a solenidade daquele momento que era sublime por ser tão nosso, por isso imprescindível.
Como é possível olhar hoje um adolescente, até uma criança, de olhos postos no telemóvel ou no ipad, isolado dos pais, irmãos e do mundo, misturando-se com os riscos pretos e brancos virtuais? Não pode haver outro sentimento senão o da repulsa e da insurreição.

E no trabalho?
A vida de quem vem de outras eras é – deve ser – de uma constante adaptação às novas gentes que, embora mais novas, fazem parte do nosso quotidiano. Isolarmo-nos nunca. Somos cidadãos mais velhos e mais experientes e os anos não podem trazer isolamentos e prateleiras. A nossa cidadania continua – deve continuar – incólume. Há, para isso, que sabermos descer até eles e eles saberem subir até nós.

Nas viagens?
Chegamos a uma determinada idade em que muito raramente viajamos com eles. Viajamos com os/as cônjuges e eles com os cônjuges e os filhos.
Tenho tido algumas experiências de viajar com o meu neto mais velho e, tal como fiz com a sua mãe, mantenho alguma firmeza nas autorizações para ir aqui ou ali, para comprar isto ou aquilo, para que ele esteja em segurança, mas, sobretudo, que sinta que a vida não é feita de facilitismos, mas quando mergulhamos, jogamos futebol ou matraquilhos sou um menino da idade dele. Desço até ele e ele sobe até mim. E com esta metodologia tudo corre sobre rodas. Amor, mas muita firmeza.

Na família?
Quando nos reunimos lá em casa para uns churrascos, vou buscar toda a minha juventude escondida nos tempos e torno-me outro deles. E a genuinidade faz o resto. Brinco, digo larachas, rimos, comemos, bebemos, às vezes falamos todos ao mesmo tempo – faz parte! – e esses convívios acabam por ser ricos na sua essência, principalmente equilibradores. Há alicerces e alicerces. O nosso alicerce deverá ser tão forte que se mantenha indestrutível durante toda a nossa existência comum de familiares.

Nos amigos?
Os amigos cá estão sempre, mesmo quando, por razões do rolar da vida, não nos vemos com a frequência que pretenderíamos. Eles, os mais jovens, têm os valores deles. Os seus diálogos comparo-os aos nossos. Às vezes falamos de trivialidades, outras, poucas vezes, de assuntos mais sérios, quando estamos num aniversário ou noutro qualquer convívio. Dialogar por exemplo sobre política, cultura, entre outras temáticas mais sérias, é quando estamos a almoçar com eles em ambientes mais selectivos que proporcionem outro tipo de conversação.

Na relação com a internet?
Confesso que me rebelo contra o uso excessivo da internet pelas crianças e adolescentes. Constrange-me ver um menino ou uma menina filhado num portátil, ipad ou telemóvel a horas em que deveria estar a pular no jardim com os irmãos e amigos vivendo a vida própria da sua idade. E pergunto-me como há pais que pactuam com isso. Poderão chamar-me manga de alpaca, alegarem que são novos tempos, que as novas tecnologias dominam os nossos dias, que eles são mais inteligentes porque já lidam com a inteligência artificial, mas não me convencem. Aliás, posso afiançar aos quatro ventos que não têm razão. Meninos e meninas querem ar puro, relvados, árvores oxigenadas, praias, mar, montanha, piqueniques, ovos cozidos com sandes de fiambre, água das nascentes e pais por perto. A internet é um mal necessário que só deverá ser explorada com a idade certa, a partir dos 18 anos, tal como o álcool ou a condução de viaturas. Já me atrevi a ir a mesas contíguas de restaurantes alertar os pais para os malefícios da internet, dos chats, dos jogos, das abstracções daquelas crianças, seus filhos, que não estão ali, que estão longe e que deveriam ter os olhos postos nos pais usufruindo dos benefícios de estarem em família. De nada serve. Garanto que há pais que gostam que assim seja para não serem perturbados pelos filhos. Lamentável!

Na relação com os filhos?
A relação é boa quando há trabalho feito. Quando um filho bate na sua mãe, dá-lhe socos, puxa-lhe o cabelo, como, há pouco tempo, vi um miúdo a fazê-lo na sua mãe quando esta lhe chamava a atenção para estar mais sossegado na sua cadeira na sala de espera da clínica médica, entro em conflito com a legislação que o permite. Liberdade não é libertinagem! E se a democracia é isto, não quero ser democrata. Há que haver rigor e respeito. Um filho que me fizesse isto a mim ou à minha mulher – permitam-me o uso do palavreado – levava-me “quatro berros no ‘focinho’, um par de olhos arregalados e um chapadão bem pesado na cara à moda antiga”.

Na relação com os netos?
Sou um avô babado. Lido com os netos como não lidei com os filhos. Cabe aos pais serem tão rigorosos na educação dos filhos, meus netos, como eu fui com eles. É sua obrigação. E alguma minha quando estão comigo. Por vezes, vejo-os virados aos jogos. Fala-se com eles e não respondem. É preciso elevar o nível da voz para nos ouvirem e atenderem. “Já vou, avô” é algo que não quero ouvir. Bem visto que o mundo foi invadido pela inteligência artificial, mas o que será de nós quando os computadores começarem a ter emoções e fizerem de nós gente de gueto a caminho dos fornos crematórios para que eles, de material indestrutível, sobrevivam quando a nossa vida se extinguir? Pisamos cascas de ovos e não damos por isso. Estamos deveras distraídos.

No modo de vestir?
Na família, não há brincos no nariz, na boca e nos ouvidos tipo esses das tribos ancestrais da África Austral e das regiões recônditas do Brasil e da Austrália. E, até hoje, não há calças rotas, tipo as dos pobres mendigos – Deus os ajude! - sentados que estejam comigo à mesa. As novas ondas, por serem compreensíveis, não têm que ser aceitáveis. Lembro-me de andar de cabelo comprido, de usar calças à boca de sino e sapatos pretos bicudos na frente no tempo dos Beatles – mas daí a andar roto pelas ruas de forma indecorosa, pirosa e ridícula, não. Nunca. Atribuo esses hábitos à exploração dos jovens por fazedores de moda pirosos, destituídos de princípios, amorfos do ponto de vista educacional/intelectual, olhando só aos lucros puros e simples, juntando-se-lhes a aceitação dos jovens de tudo o que lhes vão pondo à frente, indiscriminadamente. Muita juventude hoje é pouco selectiva e arroga-se o direito de ser crítica dos usos e costumes antigos como se fossem de gente anquilosada, de múmias, de fósseis, que, no seu fraco entender, somos nós.
Há que dar toques nos queixos de muitos desses meninos para trazê-los de volta à terra pois o céu deles não é o céu de todos.

Na alimentação?
Vejo algum cuidado na alimentação. Os jovens da actualidade – alguns – vão ao ginásio, praticam futebol, comem vegetais, ignoram o pão, bebem muita água. Existe essa forte consciência, que é moderna e que é boa, a dos nossos dias, para a manutenção e exibição de corpos escorreitos, não só por razões de ordem estética, mas de preservação da saúde. Orgulho! Nada a criticar.  

                                         

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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