Na Ribeirinha a falta de casas, o consumo de drogas sintéticas e de bebidas alcoólicas por jovens estão entre os maiores problemas da actualidade

 Correio dos Açores - Quais são as maiores dificuldades que a freguesia da Ribeirinha enfrenta?
Marco Furtado (Presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha) - Neste momento, a preocupação, e creio que é transversal a quase todas as freguesias, é a falta de habitação. Mesmo no mercado de arrendamento, estamos completamente esgotados e as moradias que existem são muito caras ou os proprietários não querem passar recibos, o que faz com que as pessoas não possam pedir o devido apoio ao arrendamento. Além da procura de habitação, constata-se que as pessoas não têm rendimentos suficientes para conseguir manter as suas próprias moradias, que estão a necessitar de obras de remodelação.
Pode-se dizer que outra dificuldade é a falta de mão-de-obra nas juntas de Freguesia. Como os programas ocupacionais terminaram, as juntas de Freguesia precisam de receber mais verbas para fazer face ao pagamento dos respectivos recibos verdes. Ora, as juntas de Freguesia fazem os contratos inter-administrativos e de delegação de competências com as câmaras. Quando nós fizemos o nosso contrato de delegação de competências com a Câmara Municipal, não sabíamos que íamos deparar-nos com este problema de mão-de-obra. Nesta altura, ao preparar os orçamentos para o próximo ano, concluímos que essas verbas terão de ser revistas, uma vez que não conseguiremos ir buscar mão-de-obra através dos programas ocupacionais, o que nos vai obrigar a ter pessoas externas, empresas em regime de prestação de serviços, para a realização de alguns trabalhos na freguesia.
Outro problema, que considero extremamente grave, é a questão das toxicodependências, nomeadamente o consumo, cada vez mais exorbitante, das novas substâncias psicoactivas, bem como a dificuldade das autoridades em identificar essas drogas e saber se são legais, o que dificulta muito o trabalho das forças policiais. Considero que terá que haver sempre um apoio às forças de segurança, por parte dos governos central e regional, tendo em conta que é necessário dotar de condições para que estas entidades possam fazer um serviço condigno.

Na Ribeirinha o que estão a fazer para combater o consumo das novas substâncias psicoactivas?
Na Ribeirinha, temos três frentes de combate às drogas, designadamente uma vertente de prevenção na escola, outra vertente de ocupação do ATL, em que fizemos um projecto para a ocupação de jovens em idade escolar, todavia fora do horário escolar, de forma a que estas crianças e jovens terem uma ocupação, evitando  que estejam sujeitos ao consumo de drogas e, muitas vezes, de álcool. Importa referir que, quando se fala de toxicodependência, não abrange apenas as drogas sintéticas e as convencionais, mas também o alcoolismo, que é, cada vez mais, uma problemática entre os nossos jovens. Temos, ainda, o centro local de intervenção das toxicodependências.
Existe abertura para o tratamento do toxicodependente, contudo descuida-se, em parte, a questão das famílias e por aquilo que estas passam. Considero que na toxicodependência não é apenas o toxicodependente que precisa de tratamento, mas também tudo o que este envolve, nomeadamente o seu agregado familiar. A toxicodependência não constitui um problema por si só, sendo que origina uma série de problemas, como a questão dos roubos por exemplo.
Nós, nas juntas de Freguesia, tentamos ajudar no que é possível. Muitas vezes, fazemos o papel de psicólogos, confidentes, tentando orientar as pessoas.

Qual o ponto de situação da obra de requalificação do Porto da Ribeirinha?
A requalificação do Porto de Santa Iria é uma obra que se arrasta há 18 anos. Temos apostado no turismo na Região e essa tem sido a nossa galinha dos ovos de ouro nos últimos anos. Sabemos que existem locais icónicos na nossa ilha, nomeadamente as Furnas, as Sete Cidades, a Lagoa do Fogo, entre outras. Porém, é fundamental que, individualmente, cada freguesia tenha algo para oferecer a quem nos visita, para que não haja um vazio. Havendo esse vazio, vai-se verificar que as pessoas vão querer ir à Caldeira Velha ou às Furnas, por exemplo, e não vão conseguir entrar devido à excessiva concentração de pessoas nestes locais.
No meu entendimento, se queremos apostar no turismo teremos que apostar localmente em cada freguesia. Na Ribeirinha, concretamente, temos um porto de excelência, o Porto de Santa Iria.

A reabilitação do Porto de Santa Iria está prevista para breve?
Conforme o que nos foi dito pelo Governo Regional, será uma obra para avançar para o próximo ano. Segundo nos foi transmitido, o projecto já está finalizado e que, ainda este ano, seria lançado para concurso. Todavia, não há nada em concreto.

Houve uma elevada afluência de turistas este Verão à Ribeirinha?
Este ano tem aparecido muita gente na freguesia. O turista que vai à freguesia precisa de um sítio para comer e de algo para ver, como paisagens, entre outras. Por isso, temos que ter capacidade de ter algo para oferecer a quem nos visita, de maneira a que estas pessoas possam deixar algum dinheiro na Ribeirinha.

Quantos alojamentos locais existem na freguesia?
Neste momento, temos cinco alojamentos locais. Segundo sei, com o regresso à normalidade, a retoma das viagens e o fim da pandemia, os proprietários destes alojamentos não têm tido razão de queixa.  
Das duas hipóteses uma: a pessoa ora vem para a Ribeirinha, porque não tem hipótese de ir para outro sítio, portanto por uma questão de necessidade; ora porque tem algo aprazível na freguesia que captou a sua atenção. Volto a insistir, temos que cativar as pessoas a virem para a Ribeirinha, dando-lhes razões para que queiram regressar no próximo ano. Assim, termos o Porto de Santa Iria em condições, assim como restaurantes é fundamental. Temos que ter a oferta disponível para quem nos visita. E, actualmente, existe apenas um restaurante na Ribeirinha.

Com o aumento do custo de vida, como sobrevivem as famílias numerosas?
Dou o meu caso como exemplo: eu e a minha esposa temos três filhos, ambos trabalhamos e não temos direitos a grandes apoios. Não tendo direito a esses apoios, temos que despender do nosso orçamento familiar para poder fazer face às despesas de alimentação, aos combustíveis, ao regresso dos nossos filhos à escola, entre outras. A despesa de combustível, ao final do mês, é quase mais cara que a própria prestação do automóvel. A nível de despesas de alimentação e do que é necessário para os nossos filhos, o ordenado da minha esposa praticamente não chega.
Neste momento, com a entrada dos meus três filhos para a escola, terei que pedir o subsídio de férias para poder fazer face a todas as despesas. Se for pedir algum apoio a nível social não serei contemplado, porque os meus rendimentos não o permitem. Quem não tem apoios ou não usufrui dos programas governamentais, ou do RSI – Rendimento Social de Inserção, vai ter que se governar com o dinheiro que tem. Creio que tem de haver algum tipo de atenção para quem trabalha, pois, as pessoas que trabalham também têm que ter direitos, nem que seja receber o IRS na sua totalidade.
Os combustíveis têm sido alvo de uma subida dramática. Para uma pessoa que é da Ribeirinha e que trabalhe em Ponta Delgada torna-se complicado. Além de que a maior parte dos trabalhos, hoje em dia, é por turnos. Para alguém que sai à meia-noite é difícil conseguir transporte nos transportes colectivos para vir para a Ribeirinha. Existindo apenas um carro na família, alguém tem que ir levar e buscar a pessoa ao trabalho, o que piora a situação, pois são necessárias quatro viagens. A alternativa é possuir uma segunda viatura, sendo que a pessoa acaba por ter de suportar a prestação do carro e o combustível. Imagine-se este cenário a ganhar o ordenado mínimo. É preciso fazer uma ginástica financeira muito grande.
Temos notado que quem trabalha está a perder poder de compra rapidamente, contribuindo para a criação de um fosso muito grande entre os ricos e os pobres. Resumindo, a classe trabalhadora, que sustenta toda a sociedade, está a perder qualidade de vida.
Terça-feira passada tive 42 atendimentos na Junta de Freguesia. As maiores dificuldades, além da procura de casa dos casais vêm de famílias, cujas pessoas trabalham e que não estão habituadas a pedir nada, mas que bateram no fundo.
Quais as principais dificuldades das juntas de Freguesia?
Hoje em dia, na maior parte das juntas de Freguesia, aparece-nos uma elevada panóplia de problemas. A pessoa que hoje vai à Junta de Freguesia não é a que ia há 20 anos, para pedir bloco, areia, cimento, entre outros, para uma pequena reparação em casa. Esse paradigma já acabou. Actualmente, as pessoas vão ter connosco com uma ampla variedade de problemas que nós, presidentes de Junta, temos que fazer a articulação com as outras instituições, com as assistentes sociais, etc.
O papel do Presidente de Junta passa por orientar as pessoas, tentado minimizar os danos das suas vidas. É preciso perceber que as pessoas se dirigem à Junta de Freguesia não porque gostam, mas porque precisam.
Creio que não há nenhum Presidente de Junta que não goste do que faça, pois não é pela compensação que recebemos que estamos na Junta, na medida em que esta não compensa o tempo que abdicamos das nossas famílias. Estamos cá, porque queremos, ninguém obriga os presidentes de Junta a concorrer. Apesar de ser um trabalho desempenhado por “amor à camisola”, exige espírito de sacrifício, tendo em conta as exigências a nível financeiro que as juntas de freguesia têm actualmente, bem como lidar com os problemas constantes das pessoas que, cada vez mais, vão parar à porta da Junta.
Importa salientar que, na pandemia, enquanto a maior parte das empresas e instituições fecharam, as juntas de Freguesia tiveram mais trabalho do que nunca. Tudo o que era das finanças, das escolas, de preenchimento de documentos, caiu sobre as juntas de Freguesia e nós nunca dissemos que não. Apesar de estarmos aqui porque queremos, não somos obrigados a nada, pelo que considero que é de louvar o nosso esforço.

Há algo mais que queira acrescentar?
Creio que uma das piores coisas que aconteceu com a pandemia, além das toxicodependências, foi as pessoas deixarem de se interessar pela vida da freguesia. Os escuteiros estão com cada vez menos gente, assim como as bandas filarmónicas e outras associações. A pessoa habituou-se a estar em casa, pelo que agora quase que é preciso obrigar as pessoas a saírem de casa, o que tem sido terrível para o associativismo. A continuar desta forma, muitas coisas acabarão por morrer e perderemos muito da nossa identidade. Nós precisamos disso, especialmente nos meios rurais. Temos que tirar a juventude de casa e fazê-la participar, caso contrário não vejo um futuro muito risonho.
                                   

Carlota Pimentel
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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