Paulo Amaral Borges, investigador do Departamento de Gociências da UAc

“Temos taxas médias de erosão costeira nos Açores entre 5 centímetros e 1,2 metros por ano”

 Correio dos Açores - Há investigadores internacionais que se têm preocupado com a erosão costeira das ilhas dos Açores, pegando como exemplo o Corvo e chegam a uma conclusão: que a ilha, “ao longo do tempo, passou a ser três quartos do que era”. Na conclusão do estudo, refere-se mesmo que aplicando o método utilizado à ilha do Corvo “calculamos que, na sua extensão máxima, o raio da ilha era de aproximadamente 3,8 kms para uma elevação máxima de cerca de 1 km. Comparando esta forma reconstruída com a forma actual, estimou-se que a ilha tinha perdido um volume de cerca de 6,5 ± 2,7 km3 e uma área de cerca de 37,2 ± 3,6 km2 ao longo da sua costa, devido à erosão costeira; corresponde a mais de três quartos da sua superfície inicial”. Quer comentar?
Paulo Amaral Borges (Professor auxiliar do Departamento de Geociências daUniversidade dos Açores) -Os autores do importante trabalho que refere, na minha opinião, não estão propriamente preocupados com a erosão costeira nas ilhas dos Açores. Estão, sim, preocupados em estudar a erosão costeira de longo prazo, uma vez que a generalidade dos trabalhos sobre erosão costeira, por questões de metodologia, tenta perceber ou conhecer este processo numa escala temporal da ordem dos 100 anos, e pontualmente numa escala alargada a mais de um século. Quanto aos trabalhos que abordam a erosão costeira numa janela temporal muito maior, fazem-no, maioritariamente, não como objecto de estudo por si só. Os autores do trabalho que menciona pretendem, ou pretenderam, testar e validar uma metodologia simples e fiável que permita estudar, por si só, a erosão costeira de longo prazo, uma vez que entendem que conhecer a tendência milenar de erosão costeira é mais importante que a de curto ou médio prazo. Neste âmbito, terão escolhido a ilha do Corvo apenas porque esta cumpria melhor os critérios que estão inerentes à metodologia proposta.

Estes investigadores (contrariando outros) sublinham que a sucessão de ondas moderadas do mar tem um efeito de erosão na costa maior do que as ondas grandes. Segundo o estudo, “ao contrário da afirmação de pesquisadores anteriores, ondas moderadas, mas frequentes, parecem ter um maior controlo sobre a erosão costeira do que as ondas de tempestade”. Qual a sua opinião?   
Ressalvo a afirmação dos referidos autores “parecem ter maior controlo” e relembro que o recuo das arribas costeiras é condicionado por diversos factores, nomeadamente os da própria arriba, da praia arenosa ou cascalhenta que, em muitos casos, margina o sopé da arriba, os factores do oceano, entre outros. No caso dos Açores, as ondas do mar geradas pelo vento são os principais forçadores da geomorfologia costeira, logo têm um peso muito grande nesse processo. Com efeito, o regime de agitação marítima nos Açores é de alta energia sendo este mais energético a norte do que a sul. Em termos de capacidade potencial de trabalho geológico, este cenário implica que esta capacidade é maior a norte do que a sul, porém os temporais mais violentos, tratando-se embora de ocorrências menos frequentes, vêm das bandas de sul, mais precisamente de sudoeste. Admitindo como válido o pressuposto de que a intensidade da erosão reflecte principalmente consumo de energia libertado pelas ondas, seria de esperar que a intensidade do processo erosivo na costa Norte fosse maior que no Sul, porém a realidade não parece reflectir essa casualidade. O conhecimento do terreno, fruto de muitos anos de trabalhos de campo qualitativo e quantitativo, confirma que na generalidade as tempestades costeiras ou os eventos extremos são imediatamente, ou num período de calmaria posterior, em função do material em que a arriba é talhada, são as responsáveis pelo recuo das arribas costeiras nos Açores.

 Podemos pegar no exemplo do Corvo e aplicar a outras ilhas dos Açores? A erosão da costa é uma realidade em cada uma das ilhas e, eventualmente, numas mais do que noutras. As nossas ilhas estão a ficar mais pequena ao longo de grandes períodos de tempo. Pode fazer uma correlação na velocidade da erosão, por exemplo, ao longo de um determinado período de tempo do passado (100 anos? Um milénio?) e a distância média que o mar entrou pela ilha adentro?  
 Os autores do referido trabalho desenvolveram uma metodologia aplicável sobretudo em ilhas vulcânicas que consistam num edifício vulcânico simples, radialmente simétrico, podendo teoricamente esse método ser aplicado a parte de ilhas que cumpram, pelo menos, esses requisitos. As taxas de erosão costeira não são iguais em todas as ilhas, embora tenham troços em que essas taxas sejam semelhantes. A erosão não ocorre de forma linear, mas sim de forma descontínua, em que períodos de estabilidade, com diferentes durações, alternam com momentos de recuo, com diferentes amplitudes. A erosão costeira é um processo natural que faz parte do ciclo da vida, no caso concreto do nascimento, crescimento e desaparecimento de uma ilha vulcânica. Para a nossa escala de vida humana, em termos de ordenamento e gestão territorial, as tendências de curto e médio prazo são as que mais interessam. As de longo prazo são importantes, sobretudo para perceber e conhecer a história, e o ritmo evolutivo, neste caso de uma ilha vulcânica, e entre outras coisas especular de forma condicionada sobre a sua longevidade.

Pelo seu conhecimento, como tem evoluído mesmo a erosão das ilhas dos Açores?
Tenho desenvolvido o meu trabalho sobretudo para tendências de curto prazo, referente aos últimos 70 anos, 50 anos, ou 20 anos, e posso dizer-lhe que para essas escalas temporais nos Açores temos taxas médias de erosão costeira, que variam entre os 5 cm por ano e 1,2 m por ano, muito pontualmente valores superiores. São valores que merecem atenção face às características das nossas ilhas e às pressões antrópicas que se acentuaram, a partir de meados do último quartel do século XX e que sofreram um incremento nos últimos anos, sendo previsível que essa tendência se mantenha, pelo menos a curto prazo.

Com as alterações climáticas, há a noção de que a erosão da costa das ilhas será maior prevendo-se subidas das águas do mar a níveis outrora inimagináveis. Quais as suas previsões sobre os níveis de subida da água do mar e sobre a evolução da erosão das nossas ilhas?
Os eventos extremos serão mais frequentes e mais intensos e, aliados ao incremento da temperatura da atmosfera, terão consequências na variação do nível médio do mar, quer sazonal, quer a médio e longo prazo. O incremento da taxa de elevação do nível do mar contribui directa e indirectamente para a erosão costeira e constitui problemas de ordenamento e gestão da faixa litoral. As consequências da subida do nível do mar variam de acordo com as características da costa, incluindo o seu declive, com o regime de agitação marítima, com o regime de maré e com a susceptibilidade à erosão.
Nos Açores, o litoral é, regra geral, alcantilado e não contém estuários, lagunas ou bacias de maré com dimensão significativa, pelo que os efeitos de inundação se restringirão a algumas regiões mais baixas. Já no que toca à erosão, o assunto é delicado, visto que não existem estimativas da fracção com que a elevação recente do nível médio tem contribuído para a erosão do litoral açoriano, nem informação de base suficiente para fundamentar essa estimativa. Isto não significa que a importância do problema seja pequena ou negligenciável nestas ilhas, já que independentemente da sua dimensão no futuro, a faixa litoral dos Açores e, nomeadamente, as zonas mais baixas, são aquelas onde se aglomera uma boa parte da população, onde se localizam os portos, centros de decisão e pólos de poder económico importantes. Para a região do Atlântico, onde se situa o arquipélago dos Açores, não existem elementos suficientes para calcular taxas da subida do nível do mar, com significado estatístico, uma vez que não existem séries temporais de observação suficientemente longas, idealmente com mais de 60 anos, e densas, requisitos mínimos indispensáveis para se calcularem tendências de variação credíveis. Por outro lado, as séries de observações têm, nos Açores e por razões óbvias, valor marcadamente local, pelo que não seria correcto extrapolar curvas de nível de mar de uma ilha para outra nem, possivelmente, de um local para outro de algumas ilhas. Utilizando dados do marégrafo de Ponta Delgada referentes a 30 anos obteve-se uma tendência de subida da ordem dos 2.48 mm/ano, entre 1978 e 2007, o que sugere uma subida de 7.44 cm do nível do mar e uma recessão do litoral arenoso de São Miguel da ordem dos 7.44 m, no intervalo de tempo considerado

 As mais recentes evoluções do degelo na Antárctica de que forma o preocupa? Quais poderão ser os impactos deste degelo no arquipélago?
As estimativas mais recentes com base em dados de marégrafos, entre 1900 e 2018, apontam para valores da ordem dos 1.56 mm/ano. Há, claramente, um incremento e uma tendência na elevação do nível do mar, com uma variação do volume da água nas bacias dos oceanos, o que terá globalmente, mas de forma diferenciada, impactos a vários níveis e as ilhas dos Açores não constituirão excepção.
                              

Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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