Face a Face...! com o professor José Manuel Monteiro da Silva

“Há soluções se a crise provocar novos pobres”

  Correio dos Açores - Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social.
Professor José Manuel Monteiro da Silva - Dei aulas no Liceu de Oeiras e na Escola Comercial e Industrial de Ponta Delgada antes de iniciar a minha carreira académica no Instituto Universitário dos Açores, onde tive o privilégio de trabalhar com o seu primeiro reitor, professor José Enes, e estive na fundação do departamento de Economia e Gestão. Em 1979 fui para os EUA, tendo concluído o meu doutoramento em 1981. Nos anos seguintes, além de desenvolver actividades empresariais em empresa familiar, e fruto das quais assumi as funções de Presidente das câmaras do Comércio e Indústria de Ponta Delgada e dos Açores. Fui ainda pró-reitor na Universidade do Algarve. Trabalhei na EDA durante seis anos após a qual concorri ao Tribunal de Contas onde, como juiz Conselheiro, trabalhei até à minha jubilação, em 2016. Fui membro do Conselho Económico e Social em Lisboa durante dois mandatos e fiz parte de órgãos sociais de várias instituições financeiras e de seguros.

Como se define a nível profissional?
Como um gestor, pois embora tenha gostado muito da minha académica, por que sempre gostei de dar aulas, foi nas actividades empresariais em que participei, quer no sector privado quer público, o tipo de trabalho onde sempre me senti mais realizado.

O que marcou mais a sua carreira profissional? Porquê?
A passagem pela Câmara de Comércio e pela EDA. A Câmara de Comércio, porque a unidade das três câmaras sempre foi um ponto de honra entre os empresários e criámos fortes amizades que ainda hoje perduram. Sempre recebi o maior apoio de todas as ilhas e foi dos melhores períodos da minha vida profissional. Depois, a EDA, onde foi possível realizar trabalho com melhorias significativas de produtividade, de renovação de toda a estrutura da empresa que era integralmente pública, nomeadamente na sua  estrutura hídrica, na implementação dos parques eólicos, de um salto muito significativo no sector geotérmico, da criação dos novos negócios como as telecomunicações e as empresas de engenharia. As relações humanas com os trabalhadores e a aceitação das mudanças que foram introduzidas e foram muitas, para aperfeiçoar os métodos de trabalho e a eficiência do sistema empresarial, deram me muita satisfação pessoal.

Durante o período em que foi Presidente da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, a instituição tinha mais poder enquanto parceiro social? Quer explicar?
Não tinha mais poder, mas talvez fosse mais respeitada, por dois motivos. Havia uma unidade, que era sincera, entre as três câmaras e só os interesses empresariais e não outros, norteavam a nossa linha de rumo. Recordo os meus colegas José António Monjardino e, com muita saudade, o Carlos Goulart, com os quais tive o privilégio de trabalhar e aprender.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional em que o pai era o patriarca? Havia uma juventude mais são quando os pais eram mais rigorosos, impondo as suas decisões a pulso junto dos filhos? Quer explicar?
Não vale a pena chorar sobre o passado. As sociedades evoluem, as nossas escalas de valores também e temos de compreender que vivemos numa sociedade assente em novos paradigmas, e que naturalmente prosseguimos a transmissão aos nossos filhos das referências que recebemos dos nossos pais, cumprindo uma continuidade que tenta preservar os nossos valores fundamentais. Foi isso que eu procurei realizar com os meus filhos e estou satisfeito e sereno com o trabalho realizado. Ainda bem que a sociedade evoluiu para evitar, sempre que possível, a imposição como regra educacional.

Hoje a relação entre pais e filhos é tensa, mas nem tanto. Quer comentar?
No meu caso, nunca foi, felizmente, tensa. Mas não quer dizer que na altura própria a posição dos pais não tivesse de ser assumida como necessária. A relação com eles tem sido uma relação feliz.  

A falta de uma distribuição equitativa de riqueza leva a que a Região tenha uma sociedade a evoluir a várias velocidades?  
Esse é dos grandes problemas do nosso tempo. Quando metade da riqueza da Humanidade, está concentrada apenas em um ou dois autocarros de passageiros de 40 lugares, quando existem sete mil milhões de pessoas neste planeta, algo está profundamente errado no actual modelo económico e social. A experiência socialista soviética foi o exemplo determinante dos horrores daquele modelo e do capitalismo selvagem em que ele actualmente se transformou, e que deu lugar à Federação Russa e à China e que são hoje fortes ditaduras sem liberdade. A verdade é que as democracias liberais, com todos os problemas com que convivem, continuam a deter as melhores práticas possíveis nos termos de hoje, e aí é possível viver em liberdade. Mas temos de melhorar significativamente este modelo. Sou optimista, vamos consegui-lo a longo prazo. O importante é não voltar para trás, e não permitir estes atrasos civilizacionais, como a actual invasão da Ucrânia demonstra.

 Que importância têm os amigos?
Toda. Além da família e dos amigos que fui construindo nos vários locais por onde passei, posso referir a tertúlia do Café Figueiredo, hoje na Tabacaria Açoriana, e do Clube Naval de Ponta Delgada, onde diariamente nos encontramos num convívio salutar e indispensável. Bem hajam os amigos!

Reformado mais não tanto. Que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Jubilado é o termo correto. O meu dia é rotineiro, de manhã vou ao ginásio no clube de judo, a fim de fazer exercício físico, o que considero fundamental. Depois vou à Tabacaria Açoriana tomar café e ler a imprensa regional. Aí discutimos e resolvemos de imediato todos os problemas regionais, em plena cavaqueira. E garanto que não fica nada por resolver!!!  Almoço no Clube Naval, depois dou as voltas para resolver os assuntos domésticos e finalmente vou para casa. Regularmente vou à opera, em Lisboa. É, portanto, muito rotineira.

Quando era criança, o que gostava de ser quando fosse adulto?
Curiosamente, essa questão nunca se pôs.  As coisas sempre foram naturalmente acontecendo, desde a ida para trabalhar na universidade açoriana, como em quase as outras funções que desempenhei. Só uma excepção, o concurso para Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas, que foi uma decisão consciente e pessoal. Sempre quis ter carreiras independentes da vida política.

O que mais o incomoda nos outros?
A hipocrisia e a falta de sinceridade nas relações humanas, e tenho pena, naturalmente, de alguns erros que fui cometendo ao longo da minha vida. E também a falta de consciência da ignorância que é, infelizmente, o que há mais por aí.

Que características mais admira no sexo oposto?
O carácter e a beleza feminina.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Sou um leitor compulsivo, sobretudo à medida que tenho mais tempo disponível. Mas tenho que confessar que compro muito mais livros do que aqueles que tenho capacidade de ler. Vou também actualmente e cada vez mais à Biblioteca Pública. Desde que trabalho nos Açores, dediquei-me muito à Bibliografia Açoreana, uma vez que sem conhecer a história desta sociedade, não é possível compreendê-la. Ultimamente, tenho-me dedicado também a autores da área da filosofia, como Espinosa e Nietzsche, de que estou a ler “Assim Falava Zaratustra”. O primeiro livro que li e que me foi imposto pelo programa de 3º ano do Liceu foi “A Cidade e as Serras”, que adorei e que foi determinante para gostar de leitura. Mais tarde, já na universidade, foi o “Admirável Mundo Novo”, que me marcou. Mas vou lendo alguns ao mesmo tempo, o que não é bom.

Qual o crédito dá às redes sociais?
Nenhum. Felizmente que consegui até hoje resistir a essa dependência.

Se tivesse que viver hoje sem telemóvel e internet, o que faria?
Não é possível, e temos de ver o problema de uma forma pragmática. O telemóvel e a internet são excelentes dispositivos, que nos facilitam de forma muito positiva a nossa vida. Ainda bem que estão à nossa disposição.

Costuma ler jornais? Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Leio a imprensa de S. Miguel e tento acompanhar o resto dai mprensa regional e o Expresso. Sempre que é possível, os jornais de referência internacional, New York Times e WSJ. O fim da guerra da Ucrânia.

Qual a máxima que o/a inspira?
Tentar ser coerente comigo próprio.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Nesta. Não deve voltar a ser possível viver numa época em que as transformações económicas e sociais tenham sido tão relevantes numa só geração.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto, sobretudo para países com valores históricos e culturais de mão cheia, sobretudo na Europa.  

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Cozinha portuguesa tradicional. Bacalhau à Gomes Sá e castanhas.

O que pensa da política e dos políticos?
Os nossos políticos são o resultado e o produto da nossa sociedade. Felizmente, como vivemos numa sociedade democrática, não nos podemos queixar deles, porque só depende de nós a melhoria da qualidade dos nossos representantes. E as oportunidades de o fazer surgem regularmente ao longo dos anos e geralmente não as aproveitamos.

Se fosse hoje Secretário das Finanças, Planeamento e Administração Pública, quais as medidas imediatas que tomaria?
Para não nos alongarmos muito, existem três questões fundamentais a resolver na sociedade açoriana. O primeiro é o desenvolvimento económico e social, uma vez que estamos nos últimos anos a afastarmo-nos novamente do índice do nível de vida do continente. A solução é enveredar por uma economia mais transacionável, com redução percentual de funcionários públicos e com a prática e a entrega dos serviços públicos através do regime de concessão ao sector privado, de forma temporalmente limitada. Em segundo lugar, a questão das finanças regionais, por que temos um orçamento regional que apresenta um endividamento líquido progressivo todos os anos, o que já não é no curto prazo suportável, e que exige um entendimento urgente com a Républica. Finalmente, a questão demográfica, porque caminhamos para uma desertificação populacional que é muito preocupante a médio prazo, sobretudo nas ilhas mais pequenas. Também aí é possível de imediato, e enquanto não surgirem outras soluções, introduzir até com as autarquias locais, a melhoria do Abono de Família.

Acredita que a Região possa chegar a um endividamento anual zero com as receitas anuais a cobrir as despesas correntes e de investimento para reduzir o endividamento próximo de 3,6 mil milhões de euros. Como se pode atingir este objectivo?
Claro que no actual cenário de financiamento da Região é impossível evitar a degradação progressiva deste modelo, que para além do endividamento actual de 3.500 milhões, que é referido pelas autoridades oficiais. Só este ano vamos somar mais de trezentos milhões assumidos orçamentalmente, sem contar ainda com outras responsabilidades vincendas já assumidas no passado, o que deve atingir os valores que coloca na sua pergunta. Não vale a pena continuar a enterrar a cabeça na areia e quanto mais tarde se assumir a realidade mais caro e difícil vai custar resolver a questão.
Já chamei a atenção, para o facto de a assumpção no continente pelas autarquias locais, das responsabilidades do Estado em algumas áreas da Educação, da Saúde e na área social. Mas não vi ainda qualquer comentário sobre este assunto a nível regional, o que não posso deixar de considerar estranho. Este é um assunto que está a provocar grande discussão no continente, mas que nos Açores não é objecto de qualquer intervenção, nem do Governo Regional, nem das autarquias, o que não deixa também de nos perspectivar uma grande interrogação. Se pudéssemos passar essas despesas com essas áreas para as autarquias, tal como vai acontecer no continente, a Região ficaria mais livre para se dedicar ao planeamento e ao desenvolvimento económico de cada uma das ilhas, o que seria muito salutar.   

O Conselho Económico e Social dos Açores (CESA) tem desempenhado cabalmente as suas funções ou devia ser mais exigente na prestação de contas dos fundos comunitários atribuídos à Região, nomeadamente do PRR?
O CESA deve continuar a assumir as suas funções de órgão consultivo, e sobretudo verificar se a Região está a produzir uma política eficiente de planeamento e de programação do nosso futuro. Não se deve transformar em mais um órgão de fiscalização ou de execução.

Depois da primeira crise financeira, do impacto da Covid-19 e da guerra na Ucrânia, como analisa hoje o tecido empresarial regional? O Governo dos Açores têm apoiado devidamente as empresas?
É evidente que os argumentos apresentados tiveram e têm um fortíssimo impacto na economia regional, mas não necessariamente em todas as áreas. Mas hoje em dia o Governo já tem informação estatística suficiente para realizar um trabalho de forma a priorizar as áreas empresariais que necessitam ou não de apoio.  É capaz até, em certas   áreas, de já haver apoios a mais…

Face à evolução da invasão russa da Ucrânia, vão surgir situações de falta de matérias-primas nos mercados e um aumento dos custos dos bens essenciais para as famílias com os mesmos rendimentos. Esta realidade já é visível nos Açores com a subida do preço dos combustíveis e de alguns bens. Como se pode impedir o aparecimento de novos pobres na Região?  
O que se vai passar nos Açores não vai ser diferente do que se está a passar no continente e no resto do mundo. Sou optimista, e estou convencido que esta crise inflacionária vai ser ultrapassada, eventualmente nos próximos dois a três anos, havendo um reajustamento nos preços, fruto da acção conjugada das instituições financeiras internacionais que actuam nessas matérias e que detêm instrumentos que podem corrigir a actual evolução internacional. A surgir situações de novos pobres na Região, o Governo Regional, tal como está a fazer agora o Governo central, tem instrumentos orçamentais para os resolver sem grandes problemas.

A redução da produção de leite, com o aumento da produção de gado de carne e uma aposta financeira forte na diversificação agrícola, vai mudar o rosto da Agricultura açoriana. O caminho mais correcto é produzirmos o necessário para que nos aproximemos da soberania alimentar. Que reflexão faz sobre esta temática?
Qualquer sociedade devidamente organizada deve obedecer a um planeamento que privilegie aquilo a que chamou uma soberania alimentar, ou melhor, uma autonomia alimentar. A ideia de que a produção leiteira seria uma meta a desenvolver em toda a Região, parece-me e bem que foi finalmente abandonada, quanto mais não seja por uma questão de escala. Temos é de saber se temos ou não condições para produzir leite que possa transformar-se em produtos que possuem valor acrescentado e possam ser comercializados nos mercados externos à Região num patamar que não seja o actual, que é o do preço do mercado indiferenciado.  Se não temos, vamos viver sempre como price takers, ou seja, sem termos condições de impor um preço e estando sempre sujeitos às variações cíclicas dos mercados internacionais. E nesse caso, mais vale tentarmos a diversificação. Mas isso não quer dizer que as pequenas queijarias tradicionais, por exemplo, não tenham hipóteses de garantirem os seus pequenos nichos de mercado, como já agora e sempre aconteceu.

Continua a crescer, em escala significativa, a quantidade de alojamentos turísticos nos Açores. Vamos ter um turismo de massas que ponha em causa a natureza como património turístico?
Corremos, e esse já é um risco real, como vamos ter a oportunidade de ver com a falta de condições das estruturas aeroportuárias, no Faial e em S. Miguel, ou da capacidade real de alojamento, na ilha das Flores, já no curto prazo. Mas o turismo, embora com todas as inseguranças e volatilidades que lhe estão associadas é uma área onde podemos crescer, desde que tenhamos o cuidado de acompanhar o seu crescimento. Como sempre, o que é preciso é planeamento. Mas é das poucas oportunidades de crescimento que temos para explorar de imediato.

O que é e o que devia ser a Universidade dos Açores?
A Universidade dos Açores é o maior potencial de desenvolvimento de que a Região dispõe, e à qual é necessário garantir os meios financeiros necessários para que se transforme no grande agente mobilizador das modificações estruturais que são exigidas à Região. Não foi por acaso que o actual Ministro da Economia considerou a criação de uma grande Universidade Atlântica nos Açores como o grande pólo dinamizador do progresso da Região. E não nos faltam recursos, quer a nível da União Europeia, quer dos Estados Unidos da América. Estou a ver os bairros residenciais da Base das Lages, actualmente desocupados, como infraestruturas de apoio a uma colaboração científica profunda entre a nossa universidade e as universidades americanas e europeias de referência internacional, para dar apenas um exemplo. A Região tem que acarinhar as ideias do actual ministro, apresentadas no seu projecto sobre o futuro para Portugal, pois estou certo, que independentemente das questões partidárias, ele nos dará todo o apoio de que necessitamos para pôr a Universidade dos Açores ao serviço da Região.

 Tem algo mais a acrescentar que considere interessante e/ou importante no âmbito desta entrevista?
A Região deve evitar a todo o custo fechar-se sobre si própria. É preciso garantir o acesso e o pluralismo de opinião da sociedade civil aos órgãos da comunicação social públicos, o que não está a acontecer. Lembram-se da coluna do ALEVÁ no Diário dos Açores, que desapareceu? A sociedade açoriana tem que respirar liberdade. A actual estrutura governativa, e que é assente em três líderes históricos de uma só estrutura partidária, deve aliás, ser caso único na história.
                                      

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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