Hipnoterapeuta Carlos Silva

Pandemia aumentou fobias pânico e exacerbou perturbações obsessivo-compulsivas

 Vários estudos feitos durante a pandemia associam a infecção por SARS-CoV-2 ao desenvolvimento de transtornos mentais – leves ou graves – tendo levado também a um aumento de casos de depressão e de situações de ansiedade.
Perante os dados oficiais, de vários estudos já publicados, o hipnoterapeuta Carlos Silva confirma que ao consultório – no Centro Médico Dr. Forjaz Sampaio – também lhe têm chegados casos que confirmam esta tendência demonstrando que ao nível da saúde mental ainda há muito a fazer, pois “em termos gerais, a pandemia teve consequências muito para além das físicas”.
Em contexto de terapia, recorreram às suas consultas de hipnose clínica muitas pessoas “a pedir ajuda, por surgimento e/ou agravamento de situações de ansiedade, stress, medo, entre outras”. Situações que apareceram “transversalmente a todas as etapas da vida e faixas etárias, decorrentes das imposições sanitárias do controle da pandemia”, nomeadamente com a imposição de cercas sanitárias.

Crianças que se viram
privadas dos seus amigos...

Numa fase inicial, conta Carlos Silva, o impacto foi mais evidente nas pessoas mais jovens. “A começar pelas crianças, que se viram privadas dos seus amigos, da sua escola, dos seus avós. Seria ingénuo pensar que isso não traria consequências para a saúde mental das mesmas”, explica. O hipnoterapeuta acrescenta que no início da pandemia, foi na faixa etária dos 16 aos 24 anos onde registou em consultório a maior prevalência de casos. “Provavelmente porque desde o início foram os mais afectados, com o fecho das escolas e as restrições que limitaram a interacção com seus colegas, o uso abusivo das redes sociais, a mudança nas formas de socialização entre pares, combinadas com o aumento do risco de desemprego e diminuição nas perspectivas de arranjar o primeiro emprego”, revela.
Numa fase posterior, mas até agora ainda muito evidente, têm recorrido à hipnoterapia pessoas (consulentes) de faixas etárias superiores, “maioritariamente por stress, exacerbação da ansiedade, crises de pânico, insónias, depressão e problemas relacionais, separação/divórcio”. Mas não só, pois “o excesso de actividades em teletrabalho, que na maioria dos casos não se consegue alienar das rotinas domésticas, a sensação constante de incerteza em relação ao futuro”, entram na equação. Assim como o facto de “muitas famílias terem visto o seu orçamento doméstico ser reduzido e passarem a viver com menos recursos. Casais que anteriormente praticamente conviviam ao fim de semana, passaram a permanecer constantemente juntos, e muitas vezes confinados a um espaço restrito - famílias em apartamentos pequenos, casas sem jardins ou espaços verdes, com filhos pequenos confinados e exigentes de atenção - que em algumas situações degenerou em violência doméstica”, relata.
Mas além destas consequências, ao nível da saúde mental, muitos foram os que “desenvolveram um pânico constante de serem contaminados pelo SARS-CoV-2. E claro, como as fobias, em geral, induz à ansiedade. Em alguns consulentes com antecedentes de POC (Perturbações Obsessivo-Compulsivas), houve exacerbação no comportamento repetido e constante de higienização e limpeza”.
As Perturbações Obsessivo-Compulsivas vão desde “os interruptores, que as pessoas têm de ligar e desligar várias vezes; abrem e fecham portas inúmeras vezes”, por exemplo. Além disso, “o facto de o vírus não ser visível, leva a pessoa mentalmente a ter necessidade de limpar melhor para ficar desinfectado, mesmo tendo acabado de limpar. E acaba por desenvolver uma POC na higienização e limpeza. O exagero na limpeza por prevenção e medo de serem infectados”.

“Tenho alguns consulentes
em terapia por não terem
feito um luto...”

Mas a pandemia também deixou muita gente sem capacidade de se despedir de entes queridos que faleceram e, por consequência, não fizeram o luto adequado. E nem só de mortes por Covid-19 se fala, pois as restrições impostas impediram a presença de pessoas em funerais para evitar ajuntamentos que pudessem potenciar o propagar da infecção.
“Tenho alguns consulentes em terapia por não terem feito um luto adequado após o falecimento dos seus entes queridos, porque tiveram de viver a crise de perder alguém no turbilhão de outra crise que foi a pandemia. No contexto das restrições, a falta do abraço, da despedida, do funeral, tornou o processo de luto mais difícil, prolongado e por vezes patológico”, revela.
Neste âmbito, Carlos Silva refere que a hipnose clínica, “tem sido um instrumento importante e ferramenta eficaz na ajuda às pessoas para lidarem com a ansiedade, fobias, síndrome de pânico, baixa de auto-estima, depressão, entre outras, quando estas ganham vida”.
Acredita que “a hipnoterapia pode servir como um importante “impulso terapêutico”, não obrigatoriamente alternativo mas fundamentalmente complementar e eficaz”. Ou seja, “cada vez mais com o apoio da medicina tradicional, muitos consulentes recorreram a mim aconselhados pelos seus clínicos que apoiam a terapia como coadjuvante da terapêutica farmacológica” que entende ser uma necessidade “porque dependemos disso para uma recuperação muito mais rápida. Uma coisa não tem de invalidar a outra e, tendo em vista um bem comum - que é o bem-estar do consulente - podem-se potenciar”. E por isso tem desenvolvido uma ligação muito próxima com a psiquiatria, “porque preciso que os pacientes venham estabilizados para eu conseguir fazer o meu trabalho, assim como o psiquiatra também vai beneficiar se o paciente estiver estabilizado. Todos estamos a contribuir para que ele saia da porta de cada um dos consultórios melhor”.

O que é a hipnose clínica?

O hipnoterapeuta revela que a consulta de hipnose clínica baseia-se na utilização das técnicas de indução e hipnose como terapia. “A hipnose é uma terapia breve não invasiva. É um estado alterado de consciência em comparação aos outros estados normais de vigília e de sono”, ou seja, “resumidamente pretende-se induzir e aprofundar um estado natural que todos nós experimentamos várias vezes ao longo do dia (um estado leve de auto-hipnose) e usá-lo de forma terapêutica”.
Aparentemente a cada 90 minutos “entramos num estado de auto-hipnose” e muitas vezes nem damos conta. Por exemplo, “está a conduzir, o corpo físico leva o automóvel mas a sua mente inconsciente está a divagar. Às vezes tinha de virar à direita mas não virou e foi para a frente”, e isso significa que estamos num estado de auto-hipnose. “A hipnose é algo que nos é familiar porque todos os dias entramos num estado alterado e adormecemos. E a noite passa num segundo, não temos a noção do tempo”, refere.
Todas as pessoas podem ser hipnotizadas? Carlos Silva reconhece que “apesar de existirem ainda algumas questões e celeumas ao torno desta terapia, esclareço que todas as pessoas têm potencial para experimentar a hipnose desde que essa seja a sua vontade. O terapeuta é apenas o condutor, o “GPS” da vontade do consulente que respeita a capacidade natural de entrar em transe que este naturalmente já possui”. No entanto, há uma percentagem de 10% de pessoas que não se consegue hipnotizar. “Então entramos pela Programação Neuro-Linguística e há medida que a pessoa vai ganhando confiança, vai-se abrindo e acaba por entrar em hipnose”, explica.
Quanto ao medo da hipnose “com receio que o terapeuta saiba o número da conta bancária ou que o terapeuta abuse, de alguma forma, do consulente”, garante que tais acções “são impossíveis de acontecer porque tudo o que fica fora dos valores da pessoa, a mente consciente - que está presente na autorização da mente inconsciente a ver o filme de tudo o que se passou, nesta vida ou noutras vidas - desperta automaticamente”, enquanto acrescenta que “um hipnoterapeuta que tenha má índole não consegue ir a lado nenhum”.
Já relativamente aos açorianos, são “muito difíceis” de hipnotizar porque “têm um filtro muito grande pelos seus “jardins proibidos”. As pessoas são mais fechadas e isso dificulta. Vivemos num meio pequeno e todos nós temos os nossos “jardins proibidos”. Todos nós temos coisas que só falamos com a almofada”, explica.
“Uma pessoa ao vir ao consultório, consigo entrar nela e ajudá-la a pôr para fora uma quantidade de coisas que ela tem vergonha de começar a falar. Eu vou puxando a ponta do novelo, que vou desembrulhando ao longo do tempo. Às vezes preciso de 5, 6, 10 sessões, para desenrolar a ponta do novelo que leva ao pavio”, refere ao acrescentar que num consulta recente aconteceu algo semelhante e “foi catastrófico”, sendo necessário aplicar técnicas específicas para melhoria daqueles “estados de espírito que a pessoa aguentou ao longo de décadas”, e também aplicar protocolos específicos para confirmar “se a pessoa está a falar verdade ou não”.
Mas nesse estado de consciência alterada a pessoa pode mentir? “Poderá haver situações em que alguns filmes que as pessoas possa ter visto - e que a marcou – podem vir ao de cima e para despiste é feita a triangulação”, explica. E dá o exemplo de uma pessoa que quer deixar de fumar e numa abordagem inicial lhe é questionada a sua motivação para isso. Se o consulente até refere uma elevada motivação para deixar de fumar, com os protocolos específicos, é perguntado de outras formas como actuará a pessoa em determinadas situações relativamente ao fumar. “E assim consegue-se detectar se aquela elevada motivação inicial se confirma”, refere.
Mas há situações em que a hipnose pode ajudar a resolver crimes “apesar de não ser uma técnica válida em tribunal”. Então como funciona? “A hipnose tem um papel fundamental numa investigação, para desmistificar os acontecimentos. Por exemplo, uma pessoa é atropelada. Nós temos uma visão de mais ou menos 140 graus, ao ouvir os pneus de um carro a guinchar, a tendência é olhar para a zona do pára-brisas. A pessoa vê e foca aquela zona, mas num estado alterado de consciência, pode ir mais abaixo e tentar ver os primeiros números da matrícula. Está registado na mente, mas a mente consciente não tem acesso a isso. É através do estado alterado de consciência, que a pessoa consegue ir pesquisar. Às vezes não se consegue à primeira. Mas também é possível a pessoa reconhecer a cor do carro, por exemplo. É como um puzzle. Depois junta-se a quem de direito para investigar, para depois verem se o carro circulou, a quem pertence, e se àquela hora estava naquele local do acidente”, revela.
Contudo, independentemente da quantidade de benefícios da hipnose, “não significa que não existam alguns perigos associados à prática, mas ao contrário daquilo que a maioria das pessoas pensa, esses perigos não se relacionam com a técnica, mas sim com as pessoas que a aplicam sem terem domínio na mesma”. Ou seja, muitas vezes, “durante o processo hipnótico, vem à superfície memórias traumáticas reprimidas, as designadas ab-reacções, que se o terapeuta não tem formação e preparação para lidar com elas, poderá piorar a situação do consulente. E têm-se visto situações avassaladoras nessa área”, alerta.
Para garantir que os profissionais que trabalham na área conseguem aplicar todas as técnicas, “e por acreditar no potencial enorme da hipnose e na disseminação dessa terapia de uma forma séria, profissional e íntegra, que colaboro em parceria com a Associação Portuguesa de Hipnose Clínica e Hipnoanálise, directamente com a conceituada Clínica Dr. Alberto Lopes, na formação de jovens hipnoterapeutas açorianos, que concluíram com êxito e aproveitamento a sua formação base na Clínica Dr. Alberto Lopes e estágio clínico sob minha orientação e supervisão no Centro Médico Dr. Forjaz de Sampaio, onde exerço a minha profissão”.
Para Carlos Silva “a saúde mental terá de estar ao nível da saúde física numa sociedade que pretende respeitar o ser humano e a sua individualidade. Acredito que cada vez mais, como seres evoluídos, teremos de estar mais auto-capacitados, mais auto-conscientes, e mais despertos para nós próprios” e isso consegue-se através de um estado alterado de consciência.

                                        
                                      

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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