A perspectiva do padre Fernando Teixeira

“A tecnologia está a ultrapassar a dignidade e os valores humanos e até está a ultrapassar a própria Igreja”

“Sou um pouco irrequieto, embora não pareça”, refere o padre Fernando Teixeira como forma de justificar os projectos em que se envolveu ao longo da sua vida, desde que foi ordenado em 1962. É a justificação também para continuar a servir – agora na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no Lajedo – e para não abandonar a Obra do Padre Américo, nomeadamente a Casa do Gaiato.
Esta ligação às crianças já lhe vem desde cedo quando começou a usar uma bola de futebol para chegar aos mais novos e, consequentemente, alcançar as famílias da pequena paróquia da Prainha do Norte, na ilha do Pico. E a ligação ao futebol é o que usa para lembrar a sua escolha pelo Seminário, quando jogava com uns primos que estudavam em Angra do Heroísmo “com uma bola grande”, quando as que conhecia eram apenas as bolas de trapos e as bolas de papel.
A decisão de ingressar no Seminário não foi fácil, até devido a alguns entraves colocados pelo professor primário e do padre da sua freguesia de São Pedro de Nordestinho. Isto porque, conta, naquela “freguesia pequenina, rica em amor e em solidariedade mas muito distante de Ponta Delgada” fez a 4ª classe e foi trabalhar para a terra, como muitos da sua idade.
Esteve dois anos sem ir à escola, “mas quando ia para a terra – onde tínhamos duas vaquinhas para dar leite e queijo - levava sempre um livro”, e portanto continuou a aprender. “Sentia qualquer coisa que me chamava a ser melhor. Pensava já um pouquinho em santidade”, admite enquanto revela que aconteceu o momento do jogo de futebol com os primos que já andavam no Seminário e decidiu que também queria seguir esse caminho.
A questão é que nem o professor primário nem o padre acreditavam que “estando dois anos fora da escola” seria possível ingressar no Seminário. Diziam que “ia envergonhar o professor e a escola”, conta. Mas o pai “falou com um jovem pároco muito simpático” que tinha também uma escola de música e que “me ajudou muito. E até solfejava quando fui para o Seminário”.
Apesar de concretizado o desejo, “foi um choque muito grande”, mudar-se para uma ilha diferente aos “13 anos e meio” e estar separado pela primeira vez dos pais e da sua pequena freguesia nordestense. Em 1950, conta que ainda haver na ilha Terceira “certos vestígios da guerra ainda. Víamos muita tropa, muita aviação, porque já existia a Base das Lajes”.
As saudades foram sendo amenizadas e quando regressava de férias “juntávamos a rapaziada em São Pedro Nordestinho. Falávamos em futebol e juntávamo-nos no adro. Éramos muitos estudantes, perto de 30, não só seminaristas. Fazíamos teatro, comédia, bailaricos, e as receitas oferecíamos à igreja e mandávamos uma parte para as missões. O povo juntava-se, alegrava-se. Não havia outras distracções e manifestavam um grande respeito pelos seminaristas”.
Terminado o curso complementar, “foi um problema para me decidir, se continuava ou não. Mas decidi ser padre”. Foi ordenado em 1962, juntamente com nove colegas de um total de 28 que iniciaram o curso e 12 que chegaram ao fim. Aí acontece “novo dilema” enquanto estava postrado no chão durante a sua ordenação. “Eu dizia ao Espírito Santo que se chegasse a ser padre que queria servir. Gostaria de imitar viver em mim aquele gesto de Jesus Cristo, quando se ajoelhou diante dos apóstolos para lavar os pés. Ser servo, ser útil aos outros”, refere.
Seguiu o seu desejo e depois do estágio na ilha Terceira foi enviado para a Prainha do Norte, no Pico. Uma realidade bem diferente da que conhecia da sua freguesia natal.
Precisava de se ligar àquela comunidade e recorreu ao futebol. “Levei uma bola de futebol comigo e jogava no adro. Jogava sozinho, mas a igreja era junto à escola. As pessoas diziam que não tinha respeito pela igreja por jogar à bola no adro. Mas, fazia isso propositadamente porque quando as crianças começavam a sair da escola, jogava a bola para junto delas, para elas interagirem, pedia para darem um pontapé na bola. Começou com um e às tanta já tinha muita gente”, refere. Teve então de escolher outro sítio para os jogos da bola, “porque sentia mesmo que era uma falta de respeito, mas imaginava que começando com as crianças seria mais fácil cativar toda a família”. Passou a ir à escola, uma vez por semana, fazer uma visita. Aceitavam-me. Um belo dia faço uma reunião de jovens e aparecem 40, numa freguesia de cerca de 700 pessoas, na altura. Começaram a desabafar os seus problemas, familiares, sociais e de falta de trabalho. Tivemos uma altura que o barco esteve duas semana sem parar no Pico e faltou farinha, faltou trigo, faltou muita coisa. Comia-se batata com cavala. Que era um peixe que na altura faziam conserva e guardavam”, recorda.
A comunidade passou a aceitar o padre e a desabafar. “Queixavam-se. Não eram pessoas miseráveis mas que precisavam de outra coisa que não encontravam no Pico. Na década de 60, não havia os benefícios que existem hoje, mas havia o espírito de solidariedade, da atenção a quem precisava”, conta enquanto refere que ali chegou a trabalhar “numa oficina que fazia foices, espadas, e vi como se temperava o aço. Também estive numa oficina mecânica e o meu primeiro serviço foi desmontar uma caixa de velocidades de um Morris Ten. Uma coisa enorme. Mas eu gostava porque havia o contacto com as pessoas.”
Esteve ali durante três anos e recebeu a notícia que teria de se mudar. Para perto de casa, na Pedreira do Nordeste. “Só Deus sabe o que me custou. Foi uma dor. Senti uma pena. Ainda fui falar com o Senhor Bispo, dizer que gostava de ver a semente germinar. Mas a obediência é cega, respondeu-me, e isso fez-me mal. Obedecemos porque nos sentimos livres para servir. Mas vim”, para mais perto de casa e para a ilha que o viu nascer.
Perante uma paróquia motivada e com vários movimentos na comunidade, veio encontrar a Pedreira do Nordeste “completamente diferente e isolada” onde havia falta de muita coisa e o padre era chamado para resolver a maior parte dos problemas. “O padre é que era o médico. Qualquer pessoa que adoecia iam chamar o senhor padre. Um dia vieram-me chamar, pediram-me para levar a Santa Unção porque uma senhora tinha febre muito alta e estava quase em coma. Eu telefono para a clínica aqui em Ponta Delgada, expliquei o valor da febre, cor dos lábios, dos olhos, e o médico receitou medicação. Eu já tinha carro e fui à farmácia comprar. A senhora tomou. No dia seguinte, fui vê-la, e ela estava sentada na cama a rezar o terço”, recorda.
Foi-se integrando na comunidade e até chegou a “abrir uma escola com pessoas amigas e com alunos da 4ª classe” para ajudar adultos a escrever ou pelo menos a assinar o seu nome. “Foi um dos trabalhos muito bonitos que me chocou. Lembro um senhor pescador, que para poder renovar a carta própria de pesca, que tinha de ser reconhecida de vez em quando em Ponta Delgada, ele tinha de pagar a uma pessoa para assinar o seu nome”, refere, ao acrescentar que “esse senhor até chorou quando escreveu o seu nome. Escrevíamos, eles copiavam e aprendiam assim. Esse senhor disse que não pagava mais nada a ninguém. Porque o que pediam pela assinatura era mais do que o transporte da camioneta do Nordeste para Ponta Delgada. Aproveitavam-se. E havia sempre um senhor na Conservatória, sentado num banco, à espera de quem não soubesse escrever, para ele assinar”.
Além deste trabalho na comunidade, é o trabalho com a comunidade que mais recorda. Claro que foi formada uma equipa de futebol, que até chegou a entrar em competições no concelho mas “éramos fraquinhos. Era uma maneira de juntar o povo”. Mas o que recorda bem foi a reconstrução da igreja. “Como aquelas pessoas se juntaram, iam às matas cortar madeira, íamos a uma serração que cortava nas medidas – tivemos o apoio de um arquitecto de Ponta Delgada que me ia orientando – e ainda hoje vale a pena entrar na igreja da Pedreira”, recorda enquanto acrescenta que “tem um altar que mais de 50% feito por mim em pedra. E há sangue na parede. Eu trabalhava ao lado dos mestres. Estive ali 10 anos”.
Depois foi enviado para São Roque e esteve dois anos a tentar convencer o bispo da altura a mudar de ideias. Em 1976 chegou à paróquia que contava cerca de seis mil pessoas. Conta que viveu “dois a três anos revoltado, contrariado” porque não queria sair da Pedreira do Nordeste. Era um misto de sentimentos: “Por um lado queria sair, porque o padre ouvidor do Nordeste estava confiante que eu o iria substituir, mas eu como sabia muito bem os problemas que um ouvidor enfrenta, não queria. E entendi que preferia sofrer os problemas do povo” e veio para a periferia de Ponta Delgada.
“Hoje só agradeço ter ido para São Roque. Aí aprendi a sair da parte teórica de ser padre. Percorri aquelas ruas todas. Falava com as pessoas” e deparou-se com os problemas sociais que uma freguesia de periferia enfrenta embora a comunidade nunca perdesse a fé. Muitos, “não iam à igreja, mas a igreja havia de ir a casa deles” e assim nasce o Centro Social e Paroquial de São Roque, na década de 90. “Na altura foi considerado um dos melhores do país” e houve a possibilidade e apresentar vários projectos candidatáveis a fundos da Comunidade Europeia.
“Pelas conversas que ouvia das pessoas, era necessário fazer qualquer coisa com as crianças. Abrimos uma creche, jardim de infância, ludoteca que era única nos Açores, e que hoje é ATL. Construímos um banco de carpinteiro pequenino, para eles brincarem mas para ver se despertava a vocação para a carpintaria. Teve apoio ao domicílio e um centro de dia, que surgiram depois muito mais tarde. Mas sinto que ficou lá parte da minha vida. Aquelas pessoas ensinaram-me a ser padre. A descer do alto para a altura deles”, recorda.
É graças a essa comunidade, onde serviu durante mais de 30 anos, que se  sente “feliz como homem e como padre” apesar dos seus 86 anos. Sente que “dei mais de mim” e que ajudou talvez muitas famílias a contornarem os seus problemas, pedindo apoio a outros, mesmo que isso implicasse ideias diferentes da Igreja. “Como as famílias tinham muitos filhos, chamei uma enfermeira para dar umas explicações nos cursos de CPM (Curso de Preparação para o Matrimónio). Para que ela explicasse tudo claramente aos casais. Eu falava o que dizia a Igreja, mas pedia para ouvirem o que a enfermeira estava a dizer. Porque não era a quantidade de filhos que ia trazer a felicidade”, descreve enquanto revela que foram também dados vários cursos – de culinária e corte e costura – para ocupar as mulheres.
“Estive ali 30 anos. E eu é que pedi para sair”, conta. Porquê? “Penso que começou a falhar o espírito de criatividade”, refere, enquanto acrescenta que fez muita coisa pela paróquia. Uma vez mais o futebol: “cheguei a ser Presidente dos “Amarelos”, ia aos treinos, formámos um grupo de velha guarda e fomos jogar ao Canadá”.
Além de padre foi homem naquela freguesia. “São coisas humanas que aproximam as pessoas, mas hoje não há essa proximidade. Está a tornar-se uma grande distância. A tecnologia está a ultrapassar a dignidade e os valores humanos e até está a ultrapassar a própria igreja. A igreja precisa de ser muito mais activa, de sair da sacristia. O Papa Francisco está sempre a pedir aos padres e bispos para saírem, para serem mais activos junto da comunidade. Estou a ler um documento, “Fratelli Tuti - Todos irmãos”, com uma linguagem muito acessível em que diz isso mesmo”, refere e acrescenta que “a tecnologia está a tomar conta de muita gente. De muita gente responsável na igreja e nas comunidades. Tem coisas muito boas a tecnologia, mas as pessoas deviam-se habituar a um certo horário e não estar sempre dependentes da tecnologia”, alerta.
 
Bermuda e os Gaiatos

Voltando a história de vida, foi-lhe proposta ir por três anos para a Bermuda “para contactar com os emigrantes portugueses e açorianos”. Entretanto adoeceu, teve de ser operado lá e optou por regressar. “Mas ficaria se houvesse uma outra comunicação entre portugueses e ingleses. Que não existe. O açoriano está muito dependente do inglês”, recorda.
Depois da Bermuda voltou para São Roque mas depois foi transferido para a Fajã de Cima e depois para os Fenais da Luz, onde encontrou uma comunidade com algumas dificuldades e jovens que entraram por caminhos “complicados”, mas que tentava ajudar quando se juntavam no adro da Igreja. Deste vez a aproximação não envolveu o futebol, mas sim algumas obras que era preciso fazer na igreja e que os jovens acederam fazer em troca do almoço.
Foi colocado depois na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no Lajedo, como padre In-Solidum, juntamente com outros quatro padres para acudir a quatro igrejas. A pedido de alguns colegas, o grupo foi desfeito “e o meu querido padre Norberto Brum, disse diante do senhor bispo que se fosse para ficar acompanhado, queria ficar comigo. Sou mais velho do que ele 40 e tal anos, mas jogamos bem em equipa”, revela. Na prática “respeitamo-nos mutuamente” e isso acaba por funcionar nesta equipa e acaba por se reflectir na comunidade que servem. “Estas pessoas do Lajedo aceitam-me e sei que rezam por mim”, refere, enquanto acrescenta que “acredito muito na oração. Faz-nos viver. E estabelece uma ligação porque ninguém sabe o que se passa no nosso coração e podemos falar directamente com Deus. O nosso coração está cheio de dons que precisam de ser vocacionados”.
As pessoas que serviu inicialmente depois de ser ordenado e as de agora são diferentes? “A partir de uma certa altura deixei de fazer essa comparação. As pessoas estão a viver no seu mundo, estão a ser como são e têm direito. E eu respeito. Continuo a ver que as comunidades precisam de ir copiar o que foi a década passada, a caridade, a solidariedade, a justiça. Acho injusto abandonarmos a pessoa. Sobretudo aquele que estende a mão e pede uma moeda, que nem sempre querem moeda mas querem uma conversa, querem desabafar. E como não encontram ninguém procuram um meio para esquecer, e que é prejudicial”, desabafa.
Mas nem sempre tudo foi bom no seu percurso e confessa que “houve coisas na minha vida que podia ter evitado e não evitei. Sobretudo na juventude. Podia ter-me dedicado mais à paróquia. Assim como na Pedreira do Nordeste trabalhava com os mestres, em São Roque não consegui. Mas consegui nos Fenais da Luz. São coisas que não prejudicam ninguém, mas que dentro do propósito que fiz na minha ordenação, admito que falhei. Hoje tenho remorsos porque sempre que ia encontrava gente a precisar”, afirma.
Pessoas que continuam a precisar? Principalmente com a  pandemia? “Não está a acontecer a solidariedade que se anunciava, no início da pandemia” e revela que muitas pessoas “estão a viver com medo e fecham-se em casa. Não estão a formar a comunidade. Há muita gente que precisa. Nem que seja pelo telefone, podemos ter uma palavra”, refere.
Falando em comunidade, faz questão de frisar que “se não fosse esta comunidade simpática estaria na prateleira. Não parece mas eu sou um pouco irrequieto, gosto sempre de estar a fazer alguma coisa”, orgulha-se.
É por isso que ainda se mantém na Obra do padre Américo, com a Casa dos Gaiatos. E como entra para a Casa dos Gaiatos? “Todos os dias pela porta”, diz em jeito de brincadeira, revelando a alegria que lhe dá o projecto a que está ligado desde 2004. Juntamente com cinco técnicas é o responsável pela Casa dos Gaiatos e vai todos os dias ver os meninos. “Passámos por várias fases, estávamos nas Capelas, o Governo precisava do espaço e emprestou-nos duas casas nas Laranjeiras. Gastou muito dinheiro para criar todas as condições”, para que os meninos pudessem ter ali uma casa familiar. Têm quatro espaços, um dedicado aos irmãos, e outras três onde são distribuídos por idades até ao lar de transição. Admite que já falou com o bispo para que lhe arranjasse um substituto mas não se queixa que aquele seja “um peso” na sua vida, até porque se recorda da sua ida para o Seminário e da falta que lhe fizeram os pais, e da diferença que pode fazer junto dos pequenos.
Admite que quem por ali passa não veja aquela estadia com olhos de estigma. A prova está naqueles que “ajudam muito” quando podem e, por exemplo, o facto de “nunca precisarmos de comprar carne de vaca. Há alguém que todos os meses oferece. Essa pessoa é anónima, não se sabe quem é. Mas nunca precisamos de comprar carne de vaca ou frango, que eles gostam muito”.  
Além da Casa do Gaiato, prepara todos os dias a liturgia da missa, apesar de nem todos os dias celebrar. E à tarde cuida das várias plantas que tem na varanda. “Podo, corto, tenho plantas aromáticas para um chazinho de vez em quando” e quando são 17h30 já está na Igreja de Nossa Senhora de Fátima para terminar o dia.
De resto, confessa que não gosta muito de ver televisão. Mas há excepções: “só se for um futebolzinho” e principalmente quando jogar o seu Futebol Clube do Porto. “Sou azul porque é o azul celeste”, conclui, com boa disposição.

        

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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