25 de janeiro de 2022

Opinião - Sapientia et Intellectus 89

CULTUR-INOV, programa de Empreendedorismo Cultural

Muhammad Yunus (1940- ), bengalês, Prémio Nobel da Paz (2006), defende que sem empreendedorismo não existe verdadeiro desenvolvimento. O neurologista português António Damásio (1944- ) demonstra que ele se encontra no ADN de qualquer forma de vida. Etimologicamente, “empreender” significa, na forma latina, “agarrar-se” (“hendere”) veemente (“pre”) a uma tarefa, mergulhando dentro (“en”) dela.
Todos os seres vivos, designadamente na espécie humana, vivem acossados por desafios, por vezes mortíferos, impostos pelo contexto; sobrevivem criando soluções que regulam, para proveito próprio, essas energias caóticas. Foi assim que, com hábil paciência e singular destreza, o ser humano criou e aperfeiçoou essa preciosidade computacional, ímpar no Universo conhecido, que é o seu cérebro.
Doutorado pela Universidade Vanderbilt (EUA), Yunus demonstrou que a solução para os problemas económicos do paupérrimo Bangladesh não se busca na caridade ou na esmola, mas no estímulo ao empreendedorismo. Primeiro, emprestou do seu bolso, sem juros, uns parcos US$ 27, a 47 cidadãos; mais tarde, quando lhos devolveram, na totalidade, apercebeu-se de que tinham melhorado substancialmente as suas condições de vida. Depois de tentar convencer, debalde, os bancos tradicionais a conceder microcréditos, acabou por criar o seu próprio banco, o Grameen Bank, com uma taxa de inadimplência reduzidíssima (2%).
O sucesso do seu pensamento radica-se no axioma de que uma empresa deve ser criada na base da “sustentabilidade”, renunciando ao lucro exorbitante como primevo objetivo. De facto, um negócio pode ser simultaneamente autossustentável, ou seja, não ter perdas nem elevados dividendos, e responder aos mais profundos anseios humanos, que passam pela fruição e pela solidariedade.
O reinvestimento do lucro incrementa a qualidade e a inovação dos produtos e serviços.
Yunus denuncia que nas escolas os alunos sejam instruídos para “conseguir um emprego no futuro”, quando devia ser-lhes explicado que podem explorar as suas potencialidades para criar novos negócios, em benefício da empregabilidade e da felicidade todos. Ser dono de uma pequena, mas promissora, empresa, ao contrário de ser assalariado de uma mega-companhia, permite expandir a responsabilidade e a produtividade do empreendedor.
Defendo que este conceito de empreendedorismo sustentável é o que melhor responde às características da cultura e, especificamente, da criação artística. Não contribuem a cultura, a arte, na sua intuitiva e razoável crítica, com um “coeficiente de alternativa” para a humanização da economia?
A opção de dignidade de não depender “ad aeternum” de apoios públicos e privados reveste o agente cultural de uma autoridade sem preço. O empreendedor cultural distingue-se, efetivamente, pela capacidade de, mapeando e antecipando tendências no dinâmico mercado da cultura, identificar oportunidades de negócio autossustentável.
Se o âmbito da cultura se destaca pela liberdade do artista e pela delicadeza da simbólica, que constitui a expressão dos valores mais sublimes, em perene aperfeiçoamento, ele apresenta-se, simultaneamente, como terreno mui fértil para a germinação de empreendimentos rentáveis. Sublinhe-se que a sustentabilidade de um negócio cultural não reside apenas nas receitas que superam as despesas; ela configura a proteção e a inovação do património artístico-cultural das comunidades.
O setor da economia criativa promete, de acordo com recentes estudos, um forte crescimento para os próximos anos. Assim, a Direção Regional da Cultura (DRAC), associada ao TERINOV – Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira, com provas de sucesso dadas neste campo, decidiu apostar na profissionalização dos agentes culturais, amadores ou profissionais a “part-time”.
Fá-lo promovendo o empreendedorismo cultural através da oferta da incubação, durante três anos, das melhores, mais inovadoras, criativas e diversificadas ideias de negócio na área cultural, em áreas como as artes plásticas e performativas, os media, o património e o turismo de motivação cultural.
Com esta ação, sinal de um novo paradigma, desperta a sociedade para este mecanismo eficaz de desenvolvimento cultural e criação de emprego cultural.Esta parceria, designada por CULTUR-INOV, implica um regime de incubação virtual, ou seja, a partir de qualquer ilha, e será brevemente regulamentada, com a consequente receção de candidaturas.
São imensas as vantagens da criação de empresas culturais em contexto de “hub” de empreendedores e de “cluster” de indústrias criativas: a inserção numa boa rede de contatos e parcerias (“networking”) com outros agentes, culturais ou não; o crescimento num “ecossistema” que, além de dotado de uma lógica de “peers support” e de “economia de aglomeração” (“coworking”), presta serviços fundamentais de consultoria, como o apoio administrativo, técnico, financeiro e jurídico. Neste clima, as ideias de negócio são convertidas em planos estratégicos concretos, e os empreendedores são orientados para mecanismos profícuos de busca de financiamento, gestão empresarial, formação de recursos humanos, operações de “marketing” e mensuração de resultados, e tomam consciência dos processos de propriedade intelectual e patentes.

 

Por: Ricardo Tavares

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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