Conceição Cravinho, de Vila Franca do Campo

Sempre sonhou ser professora primária e orgulha-se do “dever cumprido” quando ensinava os fonemas cantando e brincando

À porta de casa, em Vila Franca do Campo, Conceição Vasconcelos Cravinho está com o marido, Gabriel Cravinho, a cumprimentar quem passa. Desde casados que vivem ali e a vizinhança é sobejamente conhecida. Gabriel é divertido, atira boas tardes a quem passa e vai metendo conversa. Conceição é mais tímida embora o sorriso afável nunca lhe saia dos lábios. Foram ambos professores, agora reformados, e é Conceição que conta um pouco da história do casal que já se conhece há mais de 60 anos “Eu devia ter uns 11 anos e ele tinha 13, e encontrei o Gabriel que se apaixonou por mim e andámos sempre juntos”, conta Conceição.
Ela nasceu na Ribeira das Tainhas, terra da família da mãe, e com cerca de 15 dias, depois do baptismo, rumou com a família para as Furnas onde morava a família. Foi naquele vale encantado que fez a instrução primária e a vida cristã, tomou a primeira comunhão e foi logo crismada com sete anos. “O Senhor Bispo vinha crismar de 7 em 7 anos, como eu comunguei naquele ano tive a primazia de ser crismada logo. Mas quase não tenho ideia disso”, lamenta.

Naquele tempo eram professores
agregados sem ordenado nas férias

Terminou a escola e nas Furnas não havia forma de se prosseguir os estudos, mas a professora disse à mãe de Conceição “que gostava que eu continuasse os estudos” mas as posses eram poucas. “A minha mãe casou de segundas núpcias com o meu pai, que tinha perdido a primeira mulher muito novo e tinha três filhos pequenos”, conta ao desfiar a história daquele amor “à primeira vista”. É que a mãe de Conceição “tinha o seu namorado, mas o meu pai apareceu e foi amor à primeira vista” e fruto desse amor nasceu Conceição que passou a ser a irmã mais nova de dois rapazes e uma rapariga.
Terminada a instrução primária e com a indicação da professora que Conceição teria possibilidade de ir mais além nos estudos, a família tomou a decisão de enviar a mais nova da família para a Ribeira das Tainhas, para casa dos padrinhos e dos avós, para que estudasse. “Fiz o curso dos liceus no Externato de Vila Franca do Campo” e logo após chegar à Ribeira das Tainhas “encontrei o Gabriel que se apaixonou por mim e andámos sempre juntos” e até a ia levar a casa à Ribeira das Tainhas depois da escola.
Conheceram-se no Externato? “Não, o meu padrinho era colega de trabalho do pai dele, nas matanças de porco antigamente era uma festa, havia danças, música” e o pequeno Gabriel tinha o dom de tocar acordeão e viola juntamente com o pai. “Ele tocava acordeão e o meu sogro viola e vice-versa. E eu muito espantada a olhar para ele a vê-lo tocar aquele instrumento”, conta.
Lá encetaram namoro e decidiram ambos fazer o Magistério Primário, primeiro Gabriel e depois Conceição, e aos 18 anos ela já era professora. Como morava nas Furnas, os primeiros anos onde deu aulas foi na Ribeira Quente e depois foi para a escola das Furnas. Mas o namoro continuava sempre e os planos eram feitos a longo prazo entre os namorados.
Os “nossos dinheirinhos” eram guardados já a pensar nesse futuro e foram comprando o dote. “Seis lençóis de baixo, seis lençóis de cima, e pouco mais”, ao que Gabriel complementa “e o bacio. Cada um tinha o seu”, diz divertido. Se bem que o pai de Conceição era pedreiro e a família tinha casa de banho, apesar de ser no quintal, “toda completa com bidé e banheira em betão armado”.
Conceição chegou a fazer algumas rendas para o dote e a bordar alguns lençóis, mas conta que teve a ajuda da mãe que também ajudou a bordar alguns lençóis e outros “pus numa senhora de fora. Mas muito pouco porque o dinheiro era pouco”.
Naquele tempo eram ambos professores agregados, o que significa que só recebiam o ordenado durante o tempo de aulas, nas férias não recebiam. Essa regalia era só quando ficassem efectivos. Essa era portanto uma pretensão e Conceição concorreu para ficar efectiva e foi colocada na Povoação. Por isso tomaram uma decisão: “com o dote mais ou menos alinhavado”, compraram “a mobília de dormir” e decidiram casar pelo civil.
Conceição explica que na altura havia a chamada Lei dos Cônjuges que, basicamente, definia que havendo dois professores casados não poderiam ficar efectivos muito longe um do outro. Já casados, Conceição e Gabriel usaram essa legislação para ela pedir efectivação em Vila Franca do Campo. Foi colocada em Água D’Alto e o casal foi viver para casa dos pais dele. “Foi um amor e uma cabana, mas como viemos para casa dos pais dele não precisávamos de muito mais”, conta.

A vida de agora

Conceição tinha 22 anos quando casaram e recorda que sempre gostou dos seus alunos quase como sendo seus filhos. Aliás quando começou com 18 anos a exercer a profissão “eles gostavam muito de mim e eu deles, eram os meus meninos. Mas não foi só na Ribeira Quente. Eu só estive em quatro escolas mas pergunto sempre às mães pelos nossos meninos”, conta. Em Vila Franca esteve na escola de Água D’Alto cerca de 15 anos e depois foi para a escola de São Pedro. Na primeira escola era onde leccionava também Gabriel Cravinho e o casal desdobrava-se nas tarefas escolares. Ela ficava com os meninos mais novos e mais infantis que chegavam para a 1ª classe e ficava com eles até á 2ª. Depois era Gabriel que ficava com eles na 3ª e 4ª classes. “hoje em dia isso era impossível”, nota.
Mas o que é certo, e faz ponto de honra nisso, é que os seus alunos ainda a conhecem na rua. “Eles conhecem-me na rua e de que maneira. A professora primária marca muito”, refere.
Conceição também foi catequista durante muitos anos e foi também, juntamente com o marido, responsáveis por leccionar os cursos de preparação para o matrimónio. E consequentemente os seus dois filhos - “sou mãe de três mas o primeiro filho faleceu no parto” - também estiveram sentados na sua sala de aula e na catequese. “Não havia favorecimentos, até exigia mais deles”, recorda.
Agora reconhece que não seria possível que isso acontecesse. E até mesmo as crianças são diferentes daquele tempo. O tempo em que ainda se recorda de sempre ter sonhado em ser professora “desde a instrução primária nas redacções eu dizia que queria ser professora”. Porque o professor era “o nosso ídolo quando somos pequenos. Agora querem ser cantores e youtubers”.

“Fui uma professora
que ensinava brincando”

Mas isso não quer dizer que seja mau, é apenas diferente. “Vejo pelos meus netos. Eles têm mais cultura, aprendem muita coisa nos tablets e na televisão. Eu percebo que têm muitos interesses extra escola e acho que estão bem preparados agora”, conta.
Antigamente também se esforçava que assim fosse e diz que ainda hoje os antigos alunos se lembram mais de cantarem e brincarem a aprender na sala do que propriamente das aulas. “Fui uma professora que ensinava brincando. Cantava muito. Na primeira classe, a propósito de um fonema havia uma canção. Ensinava muito a brincar e a cantar” e por isso acredita que fez o seu melhor e saiu para a reforma com “o sentimento de dever cumprido”.
Reformou-se aos 52 anos mas diz que se aflige um pouco por se ter reformado tão cedo porque “estou a usufruir de uma reforma longa”. Acredita que aos 60 anos é uma boa altura para um professor se reformar mas “não posso deixar de admitir que a partir dos 55 anos se possa ter outro trabalho, por exemplo administrativo”, mas garante que isso não era para si porque não gosta de papéis mas sim de ensinar.
O facto de se te  reformado mais cedo permitiu que ajudasse a criar as duas netas que vivem em São Miguel, embora se mantenha sempre em contacto com os outros dois que vivem no continente. Ajudou o filho tal como a mãe de Conceição e os sogros ajudaram a criar os seus filhos.
“Fizemos uma vida formidável e enquanto criei os meus filhos, os meus pais viviam comigo e ajudavam. Todos os anos saíamos uma semana a 15 dias. Conhecemos a Europa quase toda porque íamos em excursões. Fazíamos uma semana num qualquer país da Europa e durante outra semana visitávamos Portugal. Já na reforma fizemos três cruzeiros”, conta.
Também eram ambos membros da Associação de Professores Missionários – MOMIP – em que todos os anos participavam numa semana missionária em vários lugares de Portugal e até chegaram a ir a França. Estas semanas missionárias tinham três vertentes “a recreativa, porque íamos visitar as coisas interessantes que havia naquele local; a informativa em que tínhamos conferências com assuntos na ordem do dia com oradores do melhor que havia em Portugal; e a parte religiosa, em que tínhamos missa todos os dias, terço e compromissos de ajudar as missões. Fazíamos bazares com coisinhas que fazíamos durante o ano, para ajudar as missões. Isso ajudou a ter grandes amizades”.
Mas com a pandemia tudo teve de ficar em espera e Conceição diz que agora se socorre do telefone e da internet para se manter em contacto com essas amizades. A internet é um recurso que usa “não muito, mas o suficiente. Faço as minhas pesquisas de jornais, troco emails”. E lê muito. Antes até lia mais, livros, mas “a vista começou a atrapalhar” e agora lê mais revistas. “Ia todos os dias à missa da manhã, mas agora já não. Oiço na televisão e o dia passa num instante”, conclui.

Carla Dias

 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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