Americana Kim Howard faz da sua quinta um paraíso para cavalos abandonados no Faial

Kim Howard nasceu no estado de Indiana, nos Estados Unidos da América, onde viria a viver até aos 28 anos de idade. No entanto, o alemão foi a primeira língua que aprendeu tendo em conta as origens da mãe, e relembra que todos os Verões eram passados na Alemanha, em família.
Depois de concluir o ensino universitário, onde se licenciou em artes e escultura, decidiu mudar-se para a Alemanha, onde viveu até 2010, e onde trabalhou como artista e como designer de interiores, chegando inclusive a participar em várias exposições. Ainda na Alemanha, chegou também a pintar caixões, afirmando inclusive que era a artista deste género mais popular no norte da Europa.
Porém, embora fosse um trabalho do qual gostasse muito, acabou por abdicar dele quando se mudou de forma definitiva para o arquipélago dos Açores, em 2010, devido às viagens constantes que necessitava de fazer e, também, devido à organização não-governamental que entretanto criou na ilha do Faial, a Ninovan, dedicada a salvar e reabilitar cavalos e burros abandonados e negligenciados com vista à adopção dos mesmos, embora difícil.
 A mudança para os Açores surgiu num contexto de procura pelo destino de férias ideal, um local novo que “não fosse demasiado caro, demasiado quente ou demasiado frio”, começando por vir a São Miguel três vezes no primeiro ano de viagem ao arquipélago. No entanto, antes de assentar, a norte-americana, hoje com 55 anos de idade, pretendeu conhecer primeiro outras ilhas do arquipélago, o que lhe permitiu apaixonar-se pelo Faial.
Quanto à Ninovan, Kim Howard conta que começou o projecto em conjunto com outra pessoa, e apesar de sempre ter dito ao longo da sua vida que “não é pessoa de cavalos” e que “nunca quis ter nada a ver com cavalos”, hoje dá por si rodeada por nove cavalos pelos quais é responsável e aos quais dedica todo o período da manhã, todos os dias.
“No primeiro ano a viver aqui encontrei uma égua abandonada, e como ficava perto do centro de equitação levei-a de trela até esse centro porque a encontrei enquanto passeava os meus cães. Aí disseram-me que conheciam a égua e que, na realidade, ela estava abandonada. Pensei que pudessem ficar com ela, mas não a quiseram, então perguntei à minha senhoria na altura se podia levar a égua para casa e alimentá-la enquanto tentava procurar o dono.
Ela riu-se porque sabia que ia ser difícil encontrar o dono, mas mesmo assim levei-a para casa e alimentei-a. Coloquei avisos em todo o lado e perguntei a muita gente, incluindo veterinários, se alguém saberia do paradeiro do dono mas, como é claro, nunca encontrámos o dono”, recorda a co-fundadora desta organização.
  A égua, entretanto chamada Mocca, tinha na altura quatro anos de idade e estava completamente saudável, desconhecendo-se por isso o motivo pelo qual fora abandonada, tendo sido encontrada num local “que é muito quente no Verão e sem alimento ou água disponível”.
A partir daí começou a levar a égua para os mesmos passeios que fazia com os seus cães, dando-lhe a oportunidade para correr em locais diferentes, fazendo com que Kim fosse reconhecida pelos locais pelo facto de passear a égua. Até hoje, Mocca faz parte da família equestre de Kim, e adorava receber os frequentes visitantes na propriedade antes da pandemia.
Anos mais tarde, em 2014, Kim Howard recebeu uma amiga que lhe contou que vira um cavalo muito magro à beira da estrada. Num primeiro momento, a norte-americana tentou deixar passar esta informação, mas quando encontrou de facto o cavalo à beira da estrada percebeu que não poderia ignorar a situação e que teria que agir, à semelhança do que fez com Mocca.
“O cavalo não parecia ter dono e eu estava em negação. Mas no dia seguinte fomos para a mesma zona e o cavalo continuava ali. O cavalo estava muito, muito magro e aparentava ter uma hérnia num dos lados provavelmente provocada por pontapés que levou de alguém e estava completamente desidratado. Claro que acabei por levá-lo para casa e foi muito interessante ver que a Mocca ficou acordada toda a noite para o proteger e eles ficaram muito amigos”, descreve a protectora dos animais.
Entretanto foi chamado o veterinário para ajudar com a situação do cavalo, e depois de três meses foi possível, finalmente, conhecer a história de Balu: Tinha vindo da ilha Terceira e foi vendido para um jovem do Faial que depois o viria a abandonar por não o poder mais manter.
Foi graças a este cavalo que Kim Howard percebeu que teria que fazer alguma coisa a este respeito, e daí nasceria oficialmente a Ninovan, no Verão de 2015, quando começou também a acolher outros animais, sendo que, actualmente, dos nove cavalos que estão ao cuidado da associação, dois estão com famílias de acolhimento – o que torna tudo um pouco mais fácil. Para além dos cavalos, a Ninovan está também apta para receber burros mas, de momento, não existe nenhum na associação.
Quanto às chamadas que Kim recebe, adianta que são mais frequentes durante o Verão e no Outono, tendo em conta que esta é uma altura mais propícia para o abandono de animais de uma forma geral, mas também para os cavalos que são abandonados na Caldeira, na ilha do Faial, salientando ainda que as denúncias são feitas quer por locais, quer por turistas.
Questionada se os turistas estarão mais sensibilizados para estas questões, a co-fundadora da Ninovan avança: “Depende. Acredito que muitos locais não sabem que isto é um problema porque cresceram com isto e não sabem que existe um problema que envolve as pessoas a abandonarem cavalos, mas os jovens açorianos são os que parecem estar mais atentos a este problema e penso que desde que começámos há mais e mais locais que nos ligam”, mas refere que este não é um problema local, mas sim internacional.
Tendo em conta o trabalho que é necessário fazer diariamente em torno dos cavalos, a Ninovan tem também alguns voluntários, entre um e dois por dia, que dedicam aos cavalos cerca de duas a três horas das suas manhãs.
Apesar de a situação ideal para estes animais incluir a adopção, a verdade é que “a maior parte dos cavalos foi abusado ou negligenciado de tal forma que não é capaz de fazer trabalho agrícola ou para ser montado, o que torna difícil que estes cavalos sejam adoptados”, diz Kim Howard, referindo, no entanto, que a Ninovan tem uma égua que gostaria de ver adoptada nos próximos tempos, “porque é completamente saudável e é jovem, terá à volta de 12 anos de idade e precisa de alguém que a queira e que perceba mesmo de cavalos”.

O valor destes cavalos na comunidade

Sabendo dos benefícios que os cavalos têm para a saúde do ser humano, já que a equitação e os trabalhos realizados com estes animais podem ser valiosos para amenizar problemas físicos e psicológicos, Kim Howard contava poder no ano passado expandir a missão da Ninovan, apesar de até à chegada da pandemia também exercer um papel activo na comunidade onde se insere.
“Falei com uma pessoa que estava interessada em levar este tipo de projecto adiante antes da Covid-19. Penso que seria muito valioso fazermos mais trabalhos com a Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial (APADIF)”, salienta, adiantando ainda que adoraria dedicar mais tempo a estas causas através da organização.
Antes da pandemia eram também frequentes as visitas dos escuteiros, das escolas, de jovens que ao terminarem o secundário procuram por alguma orientação profissional e idosos.
Actualmente, Kim e os seus voluntários encontram-se a trabalhar na reconstrução dos estábulos que foram completamente destruídos pelo mau tempo que recentemente afectou o Grupo Central, sendo esta uma oportunidade para criar também novas valências como um “jardim mágico” que conterá algumas das ervas que podem ser curativas para os cavalos quando estes se encontram doentes, pretendendo também – no futuro – abrir estas iniciativas ao público em geral a partir de workshops.
Decorre então uma angariação de fundos, que terminará no próximo mês, que tem como objectivo reunir dinheiro suficiente para reabilitar o local onde estes cavalos permanecem, já que o vento os destruiu por completo.
Antes da chegada do novo coronavírus, a organização realizava vários eventos ao longo do ano na casa de Kim Howard, com música e DJs que atraiam muitos visitantes e, por conseguinte, muitos donativos.
Em 2020, conta, a associação foi muito sortuda por receber várias doações espontâneas, permitindo assim que a mesma sobrevivesse por mais um ano.

Para aceder à angariação de fundos ainda a decorrer consulte o link: https://www.facebook.com/donate/130450182283543/1621675624693259/

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