Clientes sentem-se mais seguros

Comerciantes do Mercado da Graça adaptaram-se e clientes passaram a comprar mais durante a semana

Com a quebra abrupta dos turistas e com os locais a comprar menos – seja por receio ou por quebras de rendimento – os comerciantes do Mercado da Graça também tiveram de se adaptar na pandemia. Se para uns foi mais fácil, já que “as pessoas continuam a ter de comer”, para quem vende artigos mais vocacionados para o turismo a situação complicou-se bastante com a pandemia.
É o caso de Maria da Graça Medeiros, que tem uma loja de recordações no Mercado há 25 anos. “Foi um desastre total”, avança, ao confirmar que se mantém aberta para tentar conseguir ter algum rendimento porque “preferia que me mandassem fechar” porque certamente poderia ser apoiada. Com muitos artigos vocacionados para agradar aos turistas, teve de encerrar um segundo espaço semelhante ao do Mercado “e despedir funcionários. Não há qualquer hipótese porque não fazendo dinheiro, mesmo o pouco que gasto, representa muito”. Maria da Graça Medeiros recorda que 2019 foi um ano de grande crescimento para o turismo “e portanto 2020 ia ser ainda melhor”, daí haver necessidade de abastecer os dois espaços comerciais que mantinha. “Era tudo a dobrar. Em Janeiro e Fevereiro fizemos as encomendas, que chegam no final de Fevereiro - a apostar num crescimento maior em 2020 – e 15 dias depois fechou tudo. Há mercadoria que ainda não saiu das caixas”, explica.
Por isso houve necessidade de se tentar adaptar, tentando captar os locais que já escolhiam a loja para personalizações pontuais. “De vez em quando trabalharmos com alguns locais, porque fazemos logótipos, personalizações. Vamos fazendo máscaras, que também personalizamos”, explica ao acrescentar que “fomo-nos adaptando mas não há muito a adaptar. Quando o negócio é virado para o turismo e não há turismo absolutamente nenhum, não há muito a fazer”.
Maria da Graça Medeiros acredita que ao nível do turismo “tudo vai melhorar mas vai ser muito lentamente”, acreditando que depois de tanto tempo confinados “as pessoas vão ter vontade de sair”. Mas tudo será mais lentamente, já que o sector foi um dos mais afectados com a pandemia.

“Clientes habituais
deixaram de vir”
Já Edgardo Medeiros, do Talho da Saúde, não sentiu grande diferença ao nível dos turistas já que na sua área “o turista vinha por curiosidade, a querer provar um chouriço ou um petisco, mas não são clientes de comprar para levar”. Já os que preferiam ficar em Alojamentos Locais procuravam fazer um pouco mais de compras, embora sem grande expressão mas “isso fez com que as quebras fosse maiores”.
O talho ressentiu-se em cerca de 60% e Edgardo Medeiros que, já ali trabalha há 20 anos, nunca se lembra de tamanha crise, “nem mesmo no tempo da Troika”. Os clientes habituais “estão a vir uma vez por mês em vez de vir duas ou três vezes por mês, levam mais um bocadinho para evitar vir na semana seguinte”. Outros passaram a vir “apenas pelo essencial, quando têm um jantar especial, outro compram pouco e fazem esticar o pouco que compram. Para algumas pessoas houve mudança nos hábitos de compra e alguns clientes deixaram mesmo de vir”.
O receio parece ter sido a principal razão, já que muitos dos clientes habituais começaram a pedir que o talho – que antes apenas abria à Sexta e ao Sábado – passasse a abrir mais dias. “Passámos a abrir à Quinta-feira para dispersar mais os clientes porque as pessoas têm receio de ajuntamentos. Antes à Sexta-feira era de manhã excelente e de tarde era calmo. Agora as pessoas dispersam mais à Sexta e preferem vir à tarde por receio”, afirma Edgardo Medeiros que espera que quando a população estiver toda vacinada haverá “mais confiança” para que as rotinas regressem ao Mercado da Graça.
“Tenho de escoar
para os armazéns”
Mário Sousa é o “rei dos ananases” e há 15 anos que além do fruto que dá nome à sua banca, vende outras frutas. As quebras são de pelo menos 50% nas vendas já que “durante a semana não há clientes, ao fim de semana sempre vem mais algum que faz as compras de semana a semana”, mas nada de significativo. “Os dias vão passando assim e as despesas são as mesmas. Eu vivo disto e pago a um empregado. Tenho de conseguir sobreviver com isto. Tem sido difícil mas vamos lutando”, desabafa.Com produção própria em cinco estufas, de onde consegue tirar 6 mil frutos, também Mário Sousa teve de se adaptar. Como neste momento não consegue escoar o produto no Mercado, “vendo aos armazéns com preço mais baixo, mas é para não se perder tudo”. O armazém onde deixa os seus ananases depois encarrega-se de encaminhar os ananases para o continente que “está a receber muito ananás. Já que não podem visitar aos Açores provam o ananás”, refere.

“Mantemos as entregas”
Também António Ledo renovou a forma de comprar na sua banca de frutas e legumes. No Mercado da Graça há mais de 30 anos, já faziam entregas ao domicílio mas com a pandemia “reforçamos e incentivamos as pessoas a comprar assim para não concentrar muita gente aqui no mercado”. Sem levar dinheiro pela entrega, António Ledo diz que agora com a reabertura após o confinamento “começa a vir mais gente à Sexta e ao Sábado. Mas estamos a vender mais durante a semana, porque as pessoas sente-se mais seguras”.
Quanto ao futuro e a quando regressará tudo à normalidade “ninguém sabe quando vai ser. Quando abrir o turismo pode voltar. O turismo tem de abrir, porque se não morrermos da doença morremos da cura”, defende.                               
 

Margarida do Canto: “Prefiro o comércio tradicional...”

Mesmo na pandemia sempre veio ao mercado?
Prefiro vir ao Mercado à Quinta-feira, quando não há ajuntamentos. Anteriormente vinha à Sexta-feira, mas agora venho à Quinta. Sinto-me mais segura.

Porque prefere o Mercado?
A principal razão por que venho aqui é pela frescura dos produtos e porque prefiro o comércio tradicional aos hipermercados.

Quando acha que vamos ter zero casos nos Açores?
Ainda vai demorar até ficarmos sem casos. Vamos ver se vai estabilizar. Quanto à vacina acho muito bem que estejam a vacinar e quando chegar a minha vez vou ser vacinada, sim.

Benjamin Decker: “À Quinta-feira há menos risco”

Sempre veio ao mercado?
Costumo vir uma vez por semana ao mercado. Prefiro vir ao mercado do que às grandes superfícies. Acho que é mais importante fazer compras no comércio local, do que nos supermercados, que já fazem muito dinheiro na pandemia.

Teve receio?
Nunca tive receio. Acho que é seguro. Mas admito que vir aqui ao Sábado, não é a mesma coisa que vir à semana. Hoje, Quinta-feira, não há praticamente ninguém, há menos risco.

Quando vamos deixar de ter casos?
Estar a baixar o número de casos é importante, mas a nova variante do Reino Unido e da África do Sul, pode trazer uma terceira vaga.

Nélia Furnas: “Venho quase todos os dias”

Mesmo na pandemia sempre veio ao mercado?
Costumo vir sempre aqui ao mercado fazer as compras, mesmo na pandemia, trago sempre a máscara, desinfecto as mãos, e nunca tive medo.

Costuma vir à Quinta-feira?
Venho à Quinta-feira ou quando calha, venho quase todos os dias, trabalho numa casa aqui perto. Prefiro vir aqui do que ir ao hipermercado.

Vamos conseguir ter zero casos?
Da maneira que estamos a diminuir os casos está a ficar melhorar. Em Rabo de Peixe já está melhor. Os hotéis estão piores, estão fechados, e tenho uma filha que trabalha num hotel e está mais complicado.

José Moreira: “Só saio para fazer compras”

Mesmo na pandemia sempre veio ao mercado?
Venho quase sempre. Agora que estou reformado gosto de vir à Quinta-feira, que está tudo mais sossegado. Prefiro vir quando há mais sossego.

Porque prefere o Mercado?
Gosto de vir pelos produtos frescos, ar livre, o convívio com algum amigo. Venho sempre com medo, porque tenho 67 anos. Mas não deixei de vir.

Quando acha que vamos ter zero casos nos Açores?
Zero casos vai ser difícil e não sei se no fim do próximo ano vai melhorar. Mas o número de casos está a diminuir. Vamos ver.

 

 

Print
Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima