Casal açoriano decidiu não interromper viagens durante a pandemia mas conheceu “um mundo em suspenso”

Depois da primeira viagem que fizeram juntos, uma peregrinação a Santiago de Compostela, Cláudia Viveiros e o marido, Nuno Viveiros, já visitaram várias dezenas de países pelo mundo inteiro, inclusive durante os últimos meses de pandemia, passando pelo México, o Reino Unido, a Suécia e o Egipto antes de regressarem “à base”, no final de Janeiro de 2021.
Para além de afirmar que nasceu “com o gene das viagens”, a micaelense, hoje com 30 anos de idade, adianta que é através do movimento constante entre países e culturas diferentes que consegue “celebrar a vida através dos sentidos”, procurando também por isso imortalizar as suas experiências nos livros que escreve, encontrando-se neste momento a trabalhar no seu 17.º livro, incluído numa colecção chamada “Jornadas inesperadas”, destinada a relatar as peripécias do casal em tempos de pandemia.
Quando o termo “novo coronavírus” começou a ser falado nos noticiários, o casal encontrava-se a viajar pela América Central, em concreto pela Guatemala, tendo em conta o projecto pessoal que Cláudia iniciara recentemente e cujo objectivo passava por “explorar medicinas tradicionais” e participar em “cerimónias ancestrais”.
Por esse motivo, a apaixonada por viagens descreve que viveu “um México diferente” daquele que é conhecido pela maior parte das pessoas e ao qual se entregou por completo, confiando a própria vida “ao cuidado de desconhecidos” quando passou, inclusive, por uma experiência de quase morte.
Desta experiência intensa, Cláudia Viveiros realça que viveu “uma simulação bem realista” da possibilidade de existir uma vida espiritual depois da morte, mas que “em certos momentos é reconfortante não acreditar em nada”, tendo em conta que para além de a “eternidade poder ser uma prisão, ser pura consciência/energia/alma é algo muito intenso”.
Este contacto com indígenas, que cada vez mais cativa a açoriana, tem-se vindo a tornar essencial na maior parte das viagens que faz, uma vez que lhe permite “redescobrir-se no encontro com o outro” e reacender a sua curiosidade e paixão pelo incomum e pelas “pessoas que preservam algo que nos escapou”, diz.
Quanto ao marido, a açoriana garante que este percebe as suas “motivações e intenções”, embora em certas circunstâncias acabe por se tornar “apenas um espectador aflito”, diz entre risos, realçando que Nuno Viveiros é “um homem apaixonado que gosta de estar na companhia da sua amada e de vê-la florescer cada vez mais a cada sonho realizado”, o que faz com que haja também um “amor romântico que amplia a emoção da viagem”.
Quando o novo coronavírus começou a afectar mais países para além da China, com a implementação de medidas como a imposição do confinamento e as restrições à mobilidade e livre circulação dos cidadãos, o casal de viajantes açorianos sentiu-se “viajante num mundo em suspenso”, de onde resultaram o cancelamento de duas das suas próximas viagens, nomeadamente à China e à Coreia do Norte.
“Os primeiros voos a serem cancelados foram relativos à América Latina, onde eu iria continuar no encalço do misticismo de certas tribos e a segunda viagem cancelada ocorreu logo após a reabertura da Europa. Até já tinha reservado um apartamento para fazermos a nossa quarentena em Riga, mas como Portugal tinha falhado nos critérios estabelecidos pelo Governo da Letónia, que determinava um limite de vinte novos casos de infectados por cada 100 mil habitantes, fomos colocados na lista vermelha, ficando somente atrás da Suécia neste rácio de piores infecções.
A Europa até podia estar de volta, mas seguramente não estava de volta para nós. E, naquela altura, não me interessava ir à Suécia em pleno Verão. Eu queria aproveitar a escuridão, que começa a assombrar o final do Outono, para me dedicar à caça de auroras boreais”, relembra.
Entretanto, regressariam ao Reino Unido em Agosto, sendo esta uma possibilidade para visitar a Islândia pela primeira vez, embora as notícias que eram publicadas relativamente à “terra do gelo e do fogo” não fossem também “muito favoráveis”, tendo em conta que “o número de pessoas a chegar à Islândia andava a exceder o previsto e, como consequência, alguns voos corriam o risco de serem cancelados”.
No entanto, tendo em conta que a Islândia suspendeu certas nacionalidades de apresentarem testes PCR à chegada, o casal conseguiu atravessar a fronteira sem problemas depois de ser testado nas instalações do aeroporto.
Da Islândia, de onde saíram antes que as medidas em vigor apertassem de forma a paralisar o turismo local, o casal açoriano seguiu para a Lapónia sueca, já que a Suécia “nunca impingiu o uso obrigatório de máscaras e decidiu confiar em vez de confinar”, o que lhes deu a oportunidade de presenciar uma aurora boreal, uma festa de luzes nos céus que muitos desejam presenciar.
A experiência de assistir a “um dos espectáculos mais incríveis da natureza” adveio também da oportunidade que o casal teve de conviver com um sámi, indígena da Lapónia, que os viria a convidar a pernoitar na sua casa.
 “E foi para lá de Kiruna, no quintal dele, que vimos as auroras boreais. Apesar de termos apanhado um mínimo solar, deu para perceber como é que as auroras podem dançar no firmamento, e foi na Suécia que eu verdadeiramente me apercebi que havia pessoas a viverem sem medo deste novo coronavírus”, realça.
Entretanto, Cláudia Viveiros faz já planos para que em 2024 consiga regressar às regiões nórdicas com o marido, altura em que se prevê que haja um máximo de pico solar, ponderando “alugar uma cabana e ficar numa zona remota” para poder absorver mais desta experiência.
Devido ao novo Estado de Emergência imposto em Portugal em Novembro do ano passado, surgiram novas medidas que afectaram as viagens planeadas pelo casal, forçando-o a perder o voo de regresso a Ponta Delgada.
No entanto, antes do regresso a São Miguel, que viria a ocorrer a meio de Janeiro, o casal visitou ainda o Egipto, onde teve “a fantástica oportunidade de explorar ilegalmente um deserto na companhia de beduínos. Oficialmente, o Governo egípcio quer manter as excursões ao deserto ocidental fora do alcance dos estrangeiros e por isso, legalmente, não é permitido deslocar-se para aquela vasta região e muito menos lá acampar, sendo uma zona estratégica e disputada por terroristas, onde por vezes acontecem ataques em que alguns turistas já foram vitimados”.
Apesar deste cenário e do perigo eminente, Cláudia Viveiros salienta que nunca se sentiu em perigo nestas circunstâncias, sendo este o tipo de experiência que valorizam mais, neste momento, em contexto de viagem, preferindo por isso ficar “num quarto meio decrépito num hotel medíocre”, em vez de ficarem nos grandes hotéis, “que obedecem com rigor a todas as directrizes de segurança e que não permitem que os seus hóspedes arrisquem as suas vidas”, preferindo assim deixar “os luxos para o fim da jornada”, conta.
Independentemente do destino, Cláudia Viveiros salienta que “todas as viagens acabam sempre por ser distintas entre si” e que também “todas as viagens serão sempre diferentes das viagens dos outros”, até porque as motivações dos viajantes podem sempre ser diferentes.
De momento, o casal explica que “é muito difícil ter grandes planos”, tendo em conta que a pandemia “está a atrapalhar o agendamento de futuras viagens”, por esse motivo, os destinos futuros surgirão apenas devido às oportunidades que se coloquem. De qualquer das formas, Cláudia Viveiros salienta que o seu objectivo “é nunca parar”, e que por isso mesmo não irá desistir facilmente do seu sonho de viajar por todo o mundo.
No entanto, há que ter em conta que “viajar nesta altura é também sinónimo de flexibilidade” e de disponibilidade “para gerir imprevistos” tendo em conta os cancelamentos ou alterações que possam surgir até à data da viagem.
“O hotel reservado pode realojar-nos noutro local, como já nos aconteceu algumas vezes, e, no pior dos cenários, e dentro de qualquer país, podemos perder a nossa liberdade a qualquer momento. Estamos sujeitos a isto tanto quanto à possibilidade de podermos contrair o vírus, e nunca está fora de questão que algumas fronteiras voltem a fechar”, observa Cláudia Viveiros.

 

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