16 de fevereiro de 2021

Opinião

O rótulo e o conteúdo

Quando uma marca inscrita no rótulo duma embalagem diverge do seu conteúdo, é habitual afirmar-se que se está na presença de publicidade enganosa ou até duma fraude.
PSD é a sigla encontrada para posicionar o antigo PPD- Partido Popular Democrático, no ideário da Social – Democracia.
PSD - Partido Social Democrata.
Segundo se julga saber, foi essa a mensagem que os seus fundadores pretenderam passar ao povo de Portugal, da Madeira e dos Açores.
Para que não ficassem dúvidas, principalmente num outro partido que, igualmente, se reclamava do ideal da Social – Democracia, o PS- Partido Socialista.
Estava instalada a confusão nos potenciais militantes, que foram aderindo consoante o carisma dos líderes e ou donde provinha o convite.
Os eleitores supõe-se, foram votando, consoante as circunstâncias, num ou noutro, e com o decorrer dos anos, optaram pelo voto em branco, pela abstenção ou pela adesão aos extremismos.
A proximidade ideológica destes dois partidos tem inibido a existência de verdadeiros governos claramente posicionados à esquerda ou à direita.
Ou, como tem acontecido nos Açores, a permanência na governação, por um longo período, apenas de um dos partidos, em prejuízo da alternativa política - ideológica, sempre saudável em democracia.
Tem sido opção pragmática a convergência ao centro, espaço onde se ganham ou perdem eleições, em detrimento da convicção e coerência programáticas.
Esta obsessiva ambição de poder, descurando medidas concretas de políticas que resolvam os graves problemas das pessoas, a prazo tem levado ao descrédito, desalento e desconfiança na Politica e nos políticos, que os oportunistas, demagogos e populistas, têm sabido tirar partido.
Muitos analistas acrescentam que tal situação, pela incoerência, inconsequência e vazio político evidenciado, só tem conduzido ao crescimento dos radicalismos.
Para preservar o Regime Democrático Social e Liberal, há que alterar o actual sistema político e partidário e voltar a motivar os cidadãos a participarem.
É neste quadro que urge rever a Constituição da República, de modo que, e sempre num quadro de escrupuloso respeito pelas liberdades cívicas, se possa aperfeiçoar e introduzir novas ferramentas para defender e consolidar o Regime Democrático, colocando-o a salvo dos extremismos, venham de onde vierem, por ser o único regime que pode garantir a dignificação da pessoa humana e proporcionar maior justiça social.
Restabelecidas as liberdade democráticas, já lá vão quase 50 anos, e tal como preconizado pelos seus líderes mais conceituados, urge pois, reposicionar a Social – Democracia.
 Que o conteúdo programático e a respectiva execução politica correspondam ao rótulo.
À que voltar a ganhar as pessoas para os valores da Social-Democracia.
 Não ceder ao capitalismo sem rosto e ultra liberal, pode ser um bom começo.
Em Portugal, tal estado de empobrecimento colectivo, arrastando consigo largas franjas das classes baixas e médias, ficou bem patente nas políticas seguidas pelos governos após o colapso financeiro de 2008, que quase conduziu a um autêntico “genocídio social”, parafraseando um conhecido social - democrata.
Prevê-se que a crise, social e económica, pós covid-19 irá atingir proporções catastróficas.
Algumas correntes de opinião têm vindo a sugerir “Governos de Salvação Nacional”.
Forma de garantir a perenidade do Estado Social e obstaculizar a deriva para governos iliberais, autoritários ou mesmo ditatoriais de características comunizantes ou fascizantes.
Proposta polémica e controversa. Admitamos. Discutir e contraditar. Desejável.
Ainda não há muito tempo, e antes de ter sido encontrada a actual coligação de governo para os Açores, foi possível ler a seguinte opinião, corroborada, aliás, por vários comentadores.  
Se na história dos Açores, pós revolução do 25 de Abril de 1974, existe momento em que se justificaria um governo de Unidade Açoriana, seria agora.
 As tarefas irão ser ciclópicas e as decisões, por vezes, terão de ser impopulares, pelo que seriam dispensáveis estados de alma, suspeições, decepções, despeitos e ajustes de contas mesquinhos.
A hora deveria ser de humildade, espírito de serviço e de coragem.
Tivessem os dois maiores partidos, que até perfilham a mesma ideologia, feito essa leitura, colocando os Açores Primeiro, não só teriam combatido os extremos, como contribuído para o fortalecimento da Democracia e do Estado Social.
Para além de se encontrarem as melhores soluções para os problemas emergentes, estariam a contribuir para a existência no futuro de alternativas de governo mais frequentes, sempre desejáveis numa democracia madura.
Onde, num cenário de confiança num amanhã de esperança, os partidos açorianos, na sua pluralidade ideológica, assumiriam a protagonização central.
Assim os democratas, de convicção e coerência, consigam convencer os centralistas da justeza das legítimas aspirações dos Resistentes da Causa dos Açores Sempre Primeiro!
Citando Mandela: Tudo é impossível até ser realizado.

 

António Benjamim

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