Entrevista a Mário Freitas, médico especialista em Saúde Pública

“A pandemia tem sido gerida com muito sucesso, compatibilizando o menor prejuízo possível para a sociedade”

 Correio dos Açores - Como vê a evolução da pandemia nos Açores?
Mário Freitas (médico especialista em Saúde Pública) - Quando estamos a viver uma pandemia, de uma forma ou de outra, temos de colocar as coisas em perspectiva, e temos de nos comparar com o que há à nossa volta. Nós assistimos as comparações nos últimos tempos, nomeadamente no número de mortos por milhão de habitantes e número de novos casos por milhão de habitantes, que colocam Portugal nas piores estatísticas a nível europeu e mundial. Assim, temos de fazer também essa comparação quando falamos das três realidades nacionais, porque temos mais ou menos três sistemas de saúde em Portugal, o sistema do continente, o dos Açores e o da Madeira.
Os Açores seriam, à partida, dos sítios mais difíceis, porque são 9 ilhas, há uma grande dispersão geográfica, é preciso investir mais, nomeadamente em equipas preparadas e adequadas para controlar a pandemia.
Vamos à crueldade matemática dos números. Quando comparamos as três realidades nacionais – continente, Açores e Madeira – os Açores estão melhores. Menos mortos, menos casos, melhor evolução nos últimos tempos. Aliás, se observarmos bem, a Região tem-se comportado exemplarmente. Neste momento, e só estou a falar de números, quando olhamos para a Região, temos três pontos assinalados na ilha de São Miguel. Três freguesias onde as coisas podem estar com valores bastante superiores à média regional.
Isto diz-nos que a pandemia tem sido gerida com muito sucesso, sobretudo nesta fase, porque nesta fase estamos a tentar compatibilizar, a nível mundial, o combate à pandemia com o menor prejuízo possível, na sociedade. Adoptar a medida radical de confinamento, é uma coisa que tem de ser usada com conta, peso e medida.
Fazendo a comparação com o continente: neste momento, em Portugal continental, há uma enorme delonga em tomar as decisões mais acertadas, para definitivamente inverter a curva epidémica que estamos a ter. Mas, não se adopta o confinamento geral porque sim. Não pode ser assim. Não podemos ter atitudes radicais, porque pôr as pessoas em casa… bem, também percebemos em 2020, que tem efeitos secundários. Temos tido alguns aumentos de mortalidade que não foram por Covid, por exemplo.
Além da pandemia, tivemos uma outra enorme epidemia, que foi a proliferação de epidemiologistas na internet. O Facebook, neste momento, está cheio de epidemiologistas… porque toda a gente tem opinião sobre tudo. Aliás, quando a novel Comissão de Luta contra a Pandemia foi nomeada, presidida e muito bem pelo Dr. Gustavo Tato Borges, que é um jovem médico de saúde pública, eu lia nas redes sociais coisas tão bizarras como que, para o cargo nem precisava de ser médico de saúde pública, e havia até quem fosse mais longe, que nem precisava de ser um médico.
Isto tem de estar nas mãos de quem mais sabe e quem está melhor preparado. Não pode ser visto como uma curiosidade. Só assim quem decide, o Governo, poderá estar ciente de que é bem aconselhado.
O senhor enfermeiro Tiago Lopes, actualmente deputado, fez o melhor que podia. Ninguém duvida disso. Mas, o senhor enfermeiro Tiago Lopes é enfermeiro de reabilitação. Há coisas que não se podem comparar… eu, por exemplo, não conseguiria fazer o seu trabalho. Todos nós temos o nosso espaço e vejo com alguma surpresa, por exemplo, o senhor enfermeiro Tiago Lopes a fazer críticas à forma como a pandemia está a ser gerida, sendo que neste momento a Região tem uma coisa que não tinha anteriormente, que é uma Comissão de especialistas, peritos em gestão de epidemias (epidemiologistas). Isso é, no mínimo, atrevimento. No mínimo.
As pessoas pecam quando trazem, para determinado tipo de debates, algo que não devia vir para estes debates. O combate a esta pandemia, é um combate que exige o esforço de toda a comunidade. É um combate pela civilização, e é isto que muitas pessoas ainda não perceberam. Eu disse isto mesmo há quase um ano, numa entrevista, em que disse que acima de tudo este combate era um desafio civilizacional, porque percebemos rapidamente que esta pandemia matava essencialmente os mais velhos, e os mais frágeis. Uma sociedade que não consegue proteger os mais velhos, e os mais frágeis, é uma sociedade completamente fracassada. Esse tem sido o desafio, e até nesse sentido a Região Autónoma dos Açores é um exemplo.

Por começar a vacinação pelos lares de idosos?
Quando noutros sítios se começou a vacinar profissionais de saúde, na Região Autónoma dos Açores os primeiros a ser vacinados foram os idosos, e os cuidadores em lares, que é precisamente o local em que, cedo percebemos, há maior mortalidade. Estas questões dizem-nos que nos Açores tem havido uma atenção, um cuidado, a gerir a pandemia, que é de extrema valorização.
Dou outro exemplo. No continente anda-se a discutir o encerramento das escolas. Desde o professor Carmo Gomes, ao professor Óscar Felgueiras, ao professor Adalberto Campos Fernandes, e a muitos outros especialistas, onde me incluo também, enquanto modesto especialista em saúde pública, não conheço ninguém que não defenda, neste momento, o encerramento das escolas em Portugal. É um debate que está a ser feito e que é, apenas e só, uma perda de tempo.
Nos Açores, felizmente, há o sistema de semáforos – de cores – em que isso está automatizado. É incómodo estar em casa, com os filhos, por tempo demasiado, mas é o melhor para reduzir o famoso Rt [índice de reprodução], que só baixa se reduzirmos a mobilidade, a circulação. Ter as crianças em casa é uma das melhores formas de reduzir a mobilidade da população, porque se as mantivermos na escola os pais têm de sair de casa para as levar, e já que os vão levar tomam um café, fazem umas compras. Nunca mais reduzimos a mobilidade.
Ficámos a saber que vai ser proibido vender bebidas ao postigo, mas isto são medidas que são difíceis de entender. Para nós, que somos especialistas, são dificílimas de entender. Porque acima de tudo, nós temos um propósito, que é salvar vidas. Claro que há quem diga que não se pode salvar vidas prejudicando a economia. Claro. Mas por isso mesmo é que as medidas têm de ser vistas com conta, peso e medida, e por isso mesmo é que as cercas sanitárias cirúrgicas, a locais de maior incidência, são uma medida muito mais acertada do que as cercas sanitárias à ilha inteira. Porque vai ter muito menor potencial de dano, e de prejuízo.

Diz que têm sido tomadas medidas exemplares. No primeiro confinamento os números eram outros, deveriam ter sido tomadas outras medidas?
É uma pergunta difícil de responder.
Agora é fácil falar. O que temos de perceber é que de alguma forma, na altura foram adoptadas aquelas medidas, porque tinham de ser adoptadas, porque estávamos assustados e não tínhamos outra solução… Mas, há que corrigir erros e fazer as medidas de forma proporcional.
Neste momento, comparando Açores, Madeira e Portugal continental, claramente os Açores levam vantagem. Só quem estiver de má fé é que diz o contrário. Mas percebo que quem não seja especialista na matéria, e pudesse esperar outra coisa, vai sempre exigir e querer mais. E é bom que as pessoas esperem melhor, porque os técnicos que tomam decisões, querem sempre o melhor e por isso estudam e reflectem.
Quando se falou em “palhaçada”, ou outra expressão do género como ouvi aquando da grande testagem em Rabo de Peixe, no início de Dezembro, fiquei triste… demonstra desconhecer as orientações. Orientações internacionais, e até nacionais da própria Direcção Geral da Saúde, que tem uma norma acerca da utilização de testes rápidos. Se há situação em que devem ser usados é em situação de surto. Na altura, o que havia percepção, e que depois foi confirmado pelos números, é que havia um surto em Rabo de Peixe. Tanto é que quando se testou toda a população, se encontraram quase duas centenas de casos, de pessoas que não se sabia que estavam infectadas.
Não se traga para a chicana política, para o enxovalhamento, coisas que não são da política. Depois os políticos estranham que as pessoas não gostem de política, e se afastem da política… muitas vezes os políticos trazem para a política, coisas que não são da política. Quando se tenta menosprezar o trabalho que está a ser feito, repito, por especialistas na matéria, pessoas que são da área, pessoas que são reconhecidas a nível nacional, o que querem mais? Salvaguardando a comparação, é quase como se puséssemos o Cristiano Ronaldo a jogar no Santa Clara e os adeptos ainda dissessem que não jogava nada, que não gostam do penteado dele, ou o que seja. Temos pessoas com competência a aconselhar o Governo, temos o Governo a tomar decisões ponderadas, adequadas, ajustadas a cada momento, mas ainda há quem não esteja contente. Que querem mais…?

Mas porque as pessoas não seguem as orientações?
É difícil ensinar quem não quer aprender. Eu gosto muito das redes sociais, que nos permitem fazer uma análise, quase dia-a-dia, da evolução dos comportamentos da Humanidade. No Sábado e Domingo passados a discussão era a auto-testagem do Senhor Vice-presidente do Governo. “Como é que o Senhor Vice-presidente do Governo, que é médico, tinha feito um teste a si mesmo e tinha testes em casa?”, era a grande dúvida, existencial.
Analisando de forma técnica e objectiva, estamos a falar de alguém que é profissional de saúde, que por esta razão, em tempo, adquiriu testes rápidos para ter em casa. Ele, ou a esposa (já não me recordo) têm sintomatologia, depois da hora de almoço de Sábado, e ele resolveu fazer um teste à esposa, que dá positivo; a seguir faz um teste a si mesmo, que dá positivo. Comunica à Autoridade de Saúde e fica em casa. Ou seja, quebrou uma cadeia epidemiológica. A via de transmissão parou ali. Se eventualmente tivesse seguido as instâncias normais, teria que marcar teste, talvez para a Terça-feira seguinte, e andaria sem sintomatologia a contaminar outros. Não era propositado, mas teria andado. Mas até nisto as pessoas viram mal, quando ele é médico.
Temos de ter a capacidade de perceber que há indivíduos que não querem aprender. Por mais que se lhes diga que esta doença mata, e que está a matar um português em cada 10 minutos, há pessoas que ainda dizem que é uma gripe.
Mas nesta pandemia houve situações muito pouco claras, que se passaram e que, com tempo, espero, sejam esclarecidas, porque merecem esclarecimento. Porque podemos fazer uma boa campanha de marketing, e explicarmos algum tipo de metas que estão a ser atingidas, mas é preciso ter a noção se, em cada local, estão a ser tomadas todas as providências para controlar todas as situações. E, infelizmente, às vezes a principal preocupação de quem está no terreno, não é tanto que as coisas corram bem, mas que as coisas corram da maneira que essa pessoa quer que elas corram, independentemente de ser bem ou mal.
Nesta pandemia tem surgido um pouco disso. Por exemplo, os especialistas têm sido muito claros, e dizem que uma das formas de baixar o Rt, de forma significativa, é fechar as escolas. E, então, o poder político rodeia-se de duas ou três pessoas que dizem exactamente o que o poder político quer ouvir, e diz em voz muito alta que não há necessidade nenhuma de fechar escolas. Isto acontece um pouco por todo o lado, são muitos os locais em que em vez de se ouvir quem sabe, e quem pode ajudar, afastam-se essas pessoas para ouvirmos aquilo que queremos ouvir. Isso é grave. Isso também aconteceu nos Açores, previamente. E, depois, aconteceram coisas que foram feias de acontecer, e que nunca deviam ter acontecido.

Devia haver responsabilidades políticas?
Acho que é preciso averiguar o que aconteceu, e porque aconteceu. Quem governa, quem administra, chefia em nome de todos nós, não chefia para alimentar o seu ego hipertrofiado. Às vezes, algumas pessoas são colocadas em determinados locais, e acham que esse posto é para alimentar o seu ego hipertrofiado, mas não é. Acima de tudo, quem vai para determinado lugar de decisão tem de perceber que vai prestar um serviço à comunidade, ao contribuinte.
Metendo-me um pouco na política, isto depois tem um seu extremo quando vemos pessoas que, mudando quem os nomeou não colocam o seu lugar à disposição. Quem os nomeou foi escolhido politicamente; se muda a pessoa que o escolheu, por mudança de rumo político, pode mudar a pessoa que lá está. Ou, pelo menos, a pessoa que lá está, deve colocar o seu lugar à disposição. Não fazer isto revela que a nossa sociedade, em alguns aspectos, está pior. Há uns anos isto era impensável.
De facto uma das primeiras medidas deste Governo foi criar a Comissão de Luta contra a Pandemia que foi um excelente sinal e a confiança que foi depositada nessa Comissão está a valer cada momento, porque tem ajudado a tomar decisões, em tempo, de forma a controlar a pandemia.
O que temos de esperar da população é que tenha calma. Quando virem os números de casos a subir não é para entrar em pânico, mas para entrar em medidas de maior auto-controlo, próprio, e aguardar que as medidas que o Governo toma, surtam efeito. As pessoas andaram a facilitar no Natal e Ano Novo, os números aumentaram, e de repente querem que em dois dias se tomem decisões mágicas e os números baixem. Mas, não é assim.

Até que as medidas tomadas surtam efeito prático, podemos assistir a um aumento do número de casos?
O agravamento que virmos terá sempre a ver com comportamentos que as pessoas adoptaram, 10 a 15 dias antes. Isto tem muito a ver com a forma como nos comportamos. Se as pessoas forem para o Dia dos Amigos, fazer almoços mais ou menos clandestinos, pode ter a certeza que uma semana depois vamos ter um aumento de casos. Ninguém vai reconhecer que foi para almoços “clandestinos”, no Dia dos Amigos. Tal como ninguém reconhece que foi para matanças, ou como ninguém reconhece que vai para cafés que deviam estar fechados, mas que têm a porta de trás aberta. As pessoas têm de perceber que não é altura destes comportamentos. Se todos nós adoptarmos maior contenção no próximo mês, ou dois meses, poderemos ter uma época seguinte muito mais fácil para todos nós. Mas temos de ter comportamentos de contenção.

A nível nacional os hospitais estão em fase crítica, com aumento de casos na Região o nosso sistema de saúde vai conseguir aguentar?
O fundamental neste momento é salvar vidas. É fundamental que os critérios que foram adoptados na Região Autónoma dos Açores, de primeiro salvar a vida dos mais frágeis, vacinando-os, se concretize e se conclua. Sabemos que esta é uma doença que de forma preferencial mata pessoas mais velhas, e com factores de risco acrescido. Se tivermos as pessoas mais velhas vacinadas, à partida estamos a salvar a grande maioria da população que podia morrer. Não estamos a impedir que todos morram, porque haverá sempre jovens que, por qualquer razão que não conhecemos previamente, também morrem… mas com muito menor probabilidade.
Depois, se todos nos comportarmos e tomarmos cuidado, não andarmos em ajuntamentos, não andarmos em casa uns dos outros, não fizermos baptizados, não fizermos matanças, nem nada disso nesta altura, nem sequer vamos esgotar o fim de linha que, neste caso na ilha de São Miguel, é o hospital de Ponta Delgada.
O hospital de Ponta Delgada tem recursos muito limitados. Limitados pela própria natureza do hospital e, se calhar, limitados perante alguma evolução que nos últimos anos aquele hospital teve. Nos últimos tempos houve uma sangria de profissionais, naquele hospital… e substituir médicos de determinadas áreas, mais carenciadas, não é fácil. Esta realidade, neste momento, está também em mudança, e há uma nova administração, que ao tomar posse do seu cargo, terá pastas mais quentes, que tem de resolver, e ao mesmo tempo tem uma pandemia para enfrentar.
O trabalho de quem assume, nesta altura, o hospital de Ponta Delgada é uma coisa incomensurável. Se em circunstâncias normais já não é fácil liderar uma casa daquelas, é imaginar com uma pandemia. Há um ano surgiu esta pandemia na China e começou a crescer, e até tivemos quem dissesse que nunca chegaria cá, mas chegou cá. Tivemos um período de três meses entre a pandemia ser notícia e ter chegado a Portugal. Mas não nos preparámos. Quando chegou a Portugal, em Março, não estávamos minimamente preparados para ela. Quem toma agora posse, seja do Governo seja do hospital, não tem tempo para se preparar como desejaria decerto, porque a pandemia está a decorrer. O que exige uma capacidade de sacrifício, e de serviço, fora do normal.
As medidas que o Governo adoptou para conter o número de casos na ilha de São Miguel foi como fazer uma barragem. Perante um rio descontrolado, se tiver uma barragem consegue controlar o fluxo do rio, mas se não tiver, o rio vai descontroladamente, e vai provocar inundações a jusante. Que neste caso, é o fim de linha… É o que está a acontecer em Portugal continental, com imagens que nos assustam a todos. Não queremos isso para a Região.
As coisas têm de ser vistas de forma objectiva, e objectivamente as coisas estão a correr bem nos Açores, mas têm de correr melhor. Porque, quanto menos pessoas ficarem doentes, menos vão morrer, e quanto menos morrerem mais felizes todos nós somos. Neste momento, em Portugal continental está a morrer um português em cada 10 minutos pela pandemia de Covid-19. E isto é algo que assusta, e muito.

                                      

 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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