No Terinov - Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira

Empresário desenvolve projecto nos Açores para manter moeda virtual em segurança

Antes de mais e como ponto prévio convém começar por explicar que o mundo das bitcoin é algo complexo e sobre o qual admito, desde já, não ter um grande conhecimento e compreensão. Mesmo assim, o que se pode adiantar é que a bitcoin é uma das primeiras criptomoedas (surgiu há cerca de uma década) criadas no mundo e a primeira a ser transaccionada a uma escala global. Também se pode dizer que o funcionamento de uma criptomoeda (existem várias para além das bitcoin) assenta em operações criptográficas que dependem de números que obedecem a determinados critérios matemáticos. As criptomoedas não são reguladas por nenhuma entidade central governamental, como os Bancos Nacionais ou Centrais. Para realizar transacções existem mercados de câmbio que já começam a operar com alguma regulação e o seu valor de mercado flutua mediante a lei da oferta e da procura. Presentemente, o seu valor está em alta e, há data deste artigo, uma bitcoin estava avaliada em cerca de 32 mil euros.  
Uma das pessoas ligadas a este mundo ainda um pouco desconhecido, é Kevin Loaec, que acedeu contar a sua história ao Correio dos Açores através de uma troca de mails escritos em inglês. O empresário já estava inserido no ecossistema das bitcoin e explica como se iniciou esta viagem e o que está de facto a desenvolver nesta vertente.
“A minha anterior empresa, Chainsmtihs, é uma consultora ligada às bitcoin e a tecnologias relacionadas. Os nossos clientes eram grandes bancos, seguradoras e empresas tecnológicas. No final de 2019 fui contactado por um fundo para desenvolver e desenhar uma forma segura de guardar as bitcoin deles”, conta, adiantando que “encontrei uma solução que poderá funcionar sem ter de modificar as bitcoin, algo que é muito complicado e demorado de fazer”, detalhando depois o trabalho que está a ser realizado.
“A Revault, que é actualmente um projecto em aberto, permite às empresas e outras instituições, manter de forma segura as suas bitcoin sem terem de depender de uma terceira parte, com bastante segurança e com uma usabilidade que sirva as suas necessidades. É uma solução segura para as proteger contra roubos e outros ataques”, específica.
Por ser um projecto demorado e inovador em que “é necessário pelo menos um ano de trabalho e capital suficiente para ter alguns especialistas a tempo inteiro”, o fundo que o contactou não tinha capacidade para sustentar uma empreitada deste género.
Apesar das dificuldades encontradas, Kevin Loaec não deixou o projecto morrer e ‘meteu mãos à obra’.
“Acredito muito neste projecto apesar de ainda se encontrar numa fase muito embrionária. Ainda não temos um produto acabado, nem utilizadores. Consegui convencer o Antoine a juntar-se a mim como CTO (em português, Director de Tecnologia) do Projecto Revault”, adianta.
O arranque deste projecto data de Abril de 2020, já em plena pandemia, mas mesmo assim, foi possível convencer alguns investidores a financiarem a empresa.
“Tivemos bastante sorte mas a nossa reputação também nos ajudou. Eu e o Antoine somos reconhecidos por sermos especialistas com conhecimento no ecossistema Bitcoin. Em apenas duas semanas, tivemos a promessa de um investimento por parte da Boost VC, um fundo sedeado em Silicon Valley, de 500.000 dólares. Também a Fulgur Ventures, com bastante conhecimento e experiência, juntou-se investindo 50 mil dólares”, revela. O empresário questionado sobre se este montante é suficiente para concluir o projecto, responde assim.
“Angariamos no total, 550.000 dólares, cerca de 460.000 euros. Isto é suficiente para colocar o produto no mercado, pagar por auditorias de segurança externas e para começar a procurar por utilizadores. É suficiente para crescer de forma sustentada e mal recebamos dos nossos primeiros clientes teremos de juntar alguns milhões de euros para contratarmos developers com mais experiência, uma equipa de vendas e outra de rectaguarda, para podermos lançar o nosso produto por volta do final do ano de 2021”, afirma.
Kevin que já vive “em Portugal há alguns anos”, decidiu avançar com o registo da empresa no nosso país “apesar dos altos impostos e da elevada burocracia”.
“Fizemo-lo porque acreditamos que Portugal poderá ser um óptimo local para fazer negócio se o Governo decidir agir e melhorar estes pontos que acabei de referir”, salienta, explicando ainda que o “ecosistema Bitcoin (empresas e pessoas) tem vindo a falar cada vez mais acerca de algo que denominamos por ‘Citadel’, um local onde possamos finalmente inovar sem o habitual peso do Governo. Portugal anunciou em Abril as Zonas Livres Tecnológicas (ZLT), o que poderá ser, apesar de ainda não ser perfeito, um bom arranque para a Citadel”.
É neste processo que surgiu a hipótese, através de sugestão de amigos, da mudança para os Açores e para o Terinov.
“Voamos para São Miguel para reunirmos com a SDEA, e depois para a Terceira, para nos encontrarmos com o Luís Leal, para ficarmos a saber mais sobre o ambiente nos Açores. Apaixonei-me pela Terceira assim que lá cheguei. Infelizmente o Terinov ainda não está totalmente preparado para nós, já que precisamos de programadores que não sejam de javascript, nem com experiência. Espero que possamos trazer mais empresas para os Açores e que algumas delas se possam conseguir inserir no Terinov”, refere.
Chegados à ilha Terceira e só depois de primeiros contactos efectuados com a Startup Angra, é que se realiza a mudança para o Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira.
“Tinha ouvido dizer que o Terinov já estava lotado e por isso nem me dei ao trabalho de os contactar antes, mas o Duarte Pimentel (Director Executivo) encontrou-se connosco e mostrou-nos o espaço (…) Um edifício bonito, com um excelente espaço para escritórios e uma série de outros extras, como o Fablab que iremos usar de certeza (…) Em Dezembro abriu uma vaga e ficamos com ela”, conta.
Actualmente, Kevin Loaec admite que o seu foco está centrado em acabar este projecto, referindo que, no futuro, têm já outros planos pensados nesta área.
“Temos uma série de outros planos para fazer crescer a empresa e trazer mais pessoas e outras empresas se conseguirmos estabelecer uma ZLT na Terceira. Obviamente que isto é um trabalho árduo e para o qual será necessário ajuda por parte dos governos local e nacional”, afirma.
Questionado sobre o que ainda é necessário para que os Açores reúnam as melhores condições para se tornarem a tão desejada ‘Citadel’, este empresário valoriza a criação das ZLT, mas volta a apontar a pesada burocracia como um dos principais problemas do país.
“A Zona Livre Tecnológica (ZLT) é um bom primeiro passo. A oportunidade é enorme e existem milhares de pessoas à procura de um lugar amigável para inovar e fazer com que as coisas aconteçam. Isto irá criar um grande afluxo de dinheiro, de criação de emprego ou turismo de negócios, para além de outras coisas. Penso que existe muito a aprender e a ganhar optando por esta experiência (…) O principal terá de ser o desejo de acolher uma comunidade que seja livre para explorar as suas ideias sem ter a necessidade de pedir permissão a alguns burocratas”, destaca.
O mundo do dinheiro digital encontra-se em constante evolução e é muitas vezes acusado de ser propício para a realização de negócios ilícitos e de lavagem de dinheiro, mas Kevin Loaec, nega estas acusações, referindo que as mesmas são efectuadas “por aqueles que não querem que as bitcoin tenham sucesso; os Bancos Centrais. A Europol e a Interpol publicaram ambos, muito bons estudos sobre para onde vai o dinheiro do crime. As Bitcoin não são utilizadas para o crime, mas o Euro e o Dólar Americano são, através dos bancos tradicionais. De um ponto de vista técnico existe uma razão para explicar isto. A Bitcoin é muito transparente. Ainda necessita de privacidade mas é muito mais facilmente rastreável do que o dinheiro tradicional”, explica.
Para além do projecto agora em curso, o empresário que conta mudar-se fisicamente para a Terceira “em meados de Fevereiro”, abre o livro sobre alguns dos seus projectos e ideias pensados para o futuro.
“Gostaria imenso de realizar uma grande conferência Bitcoin na Terceira (estava a organizar a “Breaking Bitcoin” e a “Building on Bitcoin”) quando pudermos voltar a encontrarmo-nos pessoalmente (…) Ainda relacionado com Bitcoins, gostaria de explorar a possibilidade de instalar uma grande ‘mineração’ (produção) de bitcoins algures nos Açores. Para isso é necessário construir novas centrais eléctricas de energias renováveis para que possamos ter a energia que necessitamos. Se houver vontade por parte da EDA ou de qualquer outra entidade local para colaborar connosco, conseguiremos tornar isso uma realidade”, garante.  
                                           

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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