Quem não for resiliente “irá ter muito mais dificuldade em ultrapassar aquilo que aí vem”, afirma proprietário do Sótão d’Avó

Caminhando para o seu 12.º aniversário, o Sótão d’Avó encontra-se a passar pela segunda crise económica desde a sua abertura, corria o ano de 2009, sendo uma das muitas empresas açorianas que se encontra a usufruir dos apoios criados para que os empresários possam manter as suas empresas durante esta crise associada à pandemia.
No entanto, apesar da dificuldade que sentiu quer neste momento, quer no início deste projecto de venda de artigos em segunda mão – uma vez que este era um conceito diferente e pouco conhecido em São Miguel –, Pedro Alves mantém uma postura positiva e com olhos postos na resiliência que o caracteriza enquanto empresário, considerando fundamental que os empresários e a população em geral sejam resilientes para ultrapassarem esta nova crise.
“Os empresários e as pessoas que não forem resilientes irão ter muito mais dificuldade em ultrapassar aquilo que aí vem, porque se 2020 traz as dificuldades que estão a ser óbvias, tanto a nível governativo como a nível de saúde pública, 2021 será o reflexo prolongado daquilo que estamos a atravessar em 2020, porque as empresas não têm uma liquidez eterna, os apoios do Estado são relativamente curtos, e estamos a entrar numa situação que, a alongar-se muito mais, muitas empresas não vão conseguir aguentar”, diz.
Apesar de ter optado por aderir à linha de crédito disponível para os empresários, Pedro Alves ressalva o facto de não ter “a preocupação extra de ter mais alguém que dependa do Sótão d’Avó”, e embora este seja um cenário assustador, faz-se valer do facto de “não ter a mesma inocência ou ingenuidade” que tinha em 2009.
No que diz respeito ao consumo realizado pelos clientes, Pedro Alves refere que a diminuição do volume de compras tem sido mais perceptível desde a segunda quinzena de Setembro, considerando que o cliente está “um bocadinho cansado” de ouvir falar no novo coronavírus a toda a hora sem saber “o que vai acontecer, tanto a nível laboral como a nível mental”, o que faz também com que as pessoas deixem de parte alguns dos “projectos positivos” que pudessem ter em mente.
“As pessoas estão a ficar mesmo estafadas e psicologicamente isto tem uma carga negativa, o que significa que as pessoas acabam por se encolher nos projectos positivos que tinham antes da pandemia, e esqueceram um pouco o que tinham para fazer porque estão cansadas e estouradas deste conceito de pandemia e de dificuldade na saúde pública”, diz.
Por outro lado, refere, embora se preveja que seja comemorado em moldes diferentes e que haja uma diminuição do consumo dos clientes, resta manter alguma esperança no Natal, uma vez que esta costuma ser “uma boa altura de vendas para quase todos”.
Relembra, contudo, que este não é um negócio de compra e venda de bens, havendo sim uma venda consignada, na qual o proprietário do bem recebe 60% do valor acordado entre ela e o vendedor.
No entanto, no primeiro ano de funcionamento do Sótão d’Avó, em plena crise financeira, Pedro Alves afirma ter chegado a “vender camas para que as pessoas pagassem a água e a luz”, devolvendo-lhes o total da venda e assumindo ainda o pagamento do IVA sob aqueles produtos, uma atitude que embora “ingénua”, conforme lhe chama, tinha o único propósito de procurar ajudar aquelas pessoas.
No que aos dias de hoje diz respeito, Pedro Alves afirma que os clientes que procuram a sua loja não estão, para já, a desfazerem-se dos seus bens como forma de obterem algum rendimento extra, salientando que após o confinamento os objectos que tem recebido e vendido decorrem de vendas de propriedades e de heranças nas quais as pessoas não têm interesse, não havendo “nada que aponte para o desespero económico na venda dos objectos para pagar a comida”.
A “fluidez” que reconhece no negócio, diz Pedro Alves, permanece de certa forma porque “as pessoas têm sempre motivos, embora nem sempre ligados à felicidade, para se desfazerem das coisas. Ora porque faleceu alguém, ora porque há um divórcio”.
Quanto aos “projectos mais felizes”, o empresário afirma que são “aqueles em que as pessoas decidem mudar as decorações simplesmente, e por isso decidem livrar-se de alguns artigos”.
De uma forma geral, adianta, o Sótão d’Avó evoluiu de forma a acompanhar o cliente local, sendo essa a sua prioridade desde o primeiro momento. Deste modo, sobretudo depois de a economia começar a evoluir positivamente nos Açores, começaram a surgir vários clientes proprietários de alojamento local, fazendo assim com que a recuperação de casas e a procura por “características dos Açores um pouco mais antigas para trazer algum charme às decorações” criasse uma nova espécie de nicho de mercado.
Porém, sem a existência de turistas e com as unidades de alojamento local encerradas na sua maior parte, existe actualmente “uma diminuição da facturação”, diz Pedro Alves, considerando “fundamental que o Governo tenha uma postura de suporte aos negócios que até agora transformaram esta ilha economicamente viável”.
À excepção deste ano, o empresário refere que “todos os anos no Sótão d’Avó foram sempre melhores do que no ano anterior”, o que na sua perspectiva significa que a direcção, o conceito e as regras que adoptou “permitiram que a loja fosse evoluindo de uma forma positiva”.
Se no início do projecto, em 2009, pensava que o projecto iria atrair mais pessoas pobres – por dar a oportunidade de encontrar vários artigos a preços mais acessíveis – pouco bastou para perceber que não seria bem assim, acabando por atrair para a sua loja pessoas que apreciam antiguidades e que se interessam por dar uma segunda vida aos mais variados objectos.
“Quando abri o projecto em 2009 achei que ia ter uma loja para pessoas pobres, e rapidamente percebi que estava errado porque quem tem sensibilidade para antiguidades e para velharias são as pessoas que viajam, que vêem revistas de decoração, que vêem projectos televisivos de reciclagem, e que têm uma sensibilidade para a estética completamente diferente”, explica.
Por esse motivo, o projecto acabou por seguir “uma direcção um bocadinho mais sofisticada” que o fez querer informar-se com mais detalhe acerca dos objectos que vende, desde as suas datações ao seu interesse comercial, fazendo-o também perceber que, enquanto empresário, “é fundamental ter uma capacidade de adaptação àquilo que está a acontecer à nossa volta” sem que, por outro lado, se perca a identidade do projecto.
Como exemplo disto está o facto de ter adoptado uma nova estratégia para a qual não tinha tanta disponibilidade com a loja a funcionar a 100%, que consistiu essencialmente numa maior aposta nas redes sociais e no site da loja, permitindo ter um outro tipo de contacto com os seus clientes, novos ou habituais.
“Uma das estratégias que tenho utilizado nesta situação em que as pessoas reduzem a sua possibilidade de saírem de casa é ser eu a ir ter com os meus clientes. Tenho usado a plataforma do Facebook oficial da loja e o site oficial onde faço um carregamento de catálogo de produtos, e outras redes virtuais que permitem a venda online. Tem sido uma experiência muito agradável e interessante, elogiada pela maior parte dos clientes porque era uma das facetas em que menos investia”, conta.
Deste modo consegue servir os seus clientes de “forma pontual”, permitindo inclusive que à porta da loja funcione uma espécie de ponto de recolha, já que os clientes podem escolher o artigo à distância e levantá-lo à porta da loja, onde efectuam o pagamento sem se sentirem expostos ao vírus.
Em parte, apesar de esta ser uma crise a nível mundial, Pedro Alves acredita que o cenário de crise vivido actualmente nos Açores se deve, em parte, à grande aposta que foi feita no turismo, fazendo com que o arquipélago “se transformasse numa espécie de “one trick pony”, uma vez que “se falha o turismo, tudo cai”.
Por esse motivo, salienta ainda que “é fundamental continuar a tratar bem os açorianos”, contrastando com momentos em que “houve muitos aumentos de preços que afastaram um pouco o cliente açoriano para dar prioridade ao cliente do turismo, e fica mais uma vez vincado que é fundamental tratarmos bem ambas as partes e haver aqui um equilíbrio”.
Parte desse equilíbrio faz também o comércio local, naturalmente, referindo o proprietário da loja de artigos em segunda mão que “é preciso que todos estejam bem” para que os vários negócios acabem por se ajudar entre si, sobrevivendo – de preferência – com os clientes locais.
“No comércio local é preciso que todos estejam bem porque o cliente que está à espera da sua vez para cortar o cabelo vem e compra uma jarra, o cliente que chega ao Mercado da Graça decide vir aqui e comprar uns LP’s, por exemplo. Nós somos uma rede, ninguém vive isoladamente economicamente. Precisamos do sucesso de todos e o sucesso de todos tem que ser estabelecido com aquilo que é a nossa base, os açorianos. Os turistas são nuvens que nos sobrevoam até um dia e que deixam de nos sobrevoar com a mesma regularidade”, conclui.

Joana Medeiros
 

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