Covid-19 leva a inovações em centro de convívio de São Pedro em Ponta Delgada

Casa da Avó distribui diariamente comida a 30 idosos e a lista de espera está a aumentar com a pandemia

O Centro de Dia do Centro Paroquial e Social de São Pedro, a Casa da Avó, tem vindo a ser um ponto de encontro e de convívio entre os idosos da freguesia que agora se vêem privados desse contacto devido à pandemia. Mas se antes já partilhavam um lanche diário e um almoço esporádico que era confeccionado com os donativos oferecidos à Casa da Avó, nesta fase de pandemia houve necessidade de lhes fazer chegar um “miminho” diário e pelo qual já esperam. Assim, são distribuídas 30 refeições no domicílio dos utentes do espaço, mas também a outros idosos da freguesia que têm mais necessidades e que são, geralmente, sinalizados por particulares junto da instituição.
Uma das animadoras da Casa da Avó e que agora é também responsável pela confecção das refeições, Sandra Sousa, conta que além de muitas empresas do ramo alimentar que dão donativos para o projecto, bem como o projecto Zero Desperdício, e o Núcleo Rotário de Desenvolvimento Comunitário de Ponta Delgada, também são muitos os particulares que oferecem frutas, legumes, peixe, carne e demais produtos alimentares. Como os idosos agora não podem frequentar a Casa da Avó, “não podíamos estar com as arcas congeladoras a ficar cheias e tive a ideia de fazermos uma refeição para entregarmos aos nossos idosos”. Se bem o pensou, depressa teve o aval da coordenadora da Casa da Avó, Sandra Melo, e da Vice-Presidente da Direcção do Centro Paroquial e Social de São Pedro, Luísa Silva. Deram emprego a mais duas pessoas, através do programa de ocupação PROSA, e esta equipa de três pessoas passou a cozinhar diariamente uma refeição “que colocamos depois em marmitas descartáveis, devido à situação que atravessamos, e vamos entregar quentinha aos nossos utentes e não só”. 
Diariamente entregam 30 refeições diárias e Sandra Sousa garante que a lista de espera está a crescer “não só para as refeições, mas também para serem utentes da Casa da Avó, já que devido ao confinamento, as pessoas começaram a ficar muito aborrecidas de ficar fechadas em casa e queriam vir para a Casa da Avó”.
Porque querem chegar a mais pessoas da freguesia, começaram agora também uma horta que, esperam, consiga ajudar a colmatar os vegetais que necessitam “já que não podemos estar sempre à espera de donativos e assim podemos chegar mais além”. O mesmo se aplica à quota que cada utente paga à instituição (2,5 euros mensais) que Sandra Sousa explica que serve para ajudar nas compras quando não há donativos suficientes, como por exemplo de pão. “O projecto Zero Desperdício colabora connosco na entrega de pão” e quando entrega a mais “reutilizamos sempre”. Sandra Sousa dá o exemplo da refeição de ontem: “Segunda e Terça feira fizemos sopa de carne, tipo sopa de cozido, com todos os legumes, carne e chouriço. Mas cresceu carne, e como temos de dividir sempre em dois grupos, fizemos hoje e vamos fazer amanhã [hoje] empadão de carne. Com batata doce assada e courgete assada, e feijão verde cozido. Tudo saudável. Rentabilizamos e reutilizamos. Tivemos um donativo de batata doce e fizemos batata assada no forno. Se vem pão mais duro, cortamos ao meio, pomos no forno com azeitona, com queijo, fazemos uma espécie de  mini-pizza, mas sempre apelando à alimentação saudável. Para ser diferente”, explica.

A reacção

E se quando começaram as entregas Sandra Sousa tinha de “apitar e bater à porta para eles virem” receber a refeição, agora “já ficam à porta à nossa espera e todos felizes. Sempre com a expectativa do que vai ser a refeição”.
Para quem trabalha agora nesta nova perspectiva da Casa da Avó também “é muito gratificante recebermos este carinho da parte deles”. Principalmente porque apesar de Sandra Sousa gostar de cozinhar, apesar de não ser essa a sua área de formação, no início tinha algum receio “de saber se iam gostar da comida”. Mas quando começou a ter respostas tão positivas, “de utentes que ligavam à coordenadora Sandra Melo ainda nós não tínhamos regressado, a dizer que a comida estava muito boa”, não teve dúvidas que estavam a fazer um bom trabalho. 
“Não há nada melhor do que fazermos com agrado e com carinho e ver como reagem. Eles dizem que nunca fizeram aquilo por eles. Temos utentes idosas que vivem sozinhas, viúvas e que os filhos estão para fora ou a fazer a sua vida, e elas dizem que aquela comida enche-lhes a alma. Dizem que não fazem comida por ser só para uma pessoa e têm de comer a mesma sopa todos os dias. Por isso eles dizem que se consolam com esta comida que lhes entregamos”.
Só à quarta-feira é que não são feitas as entregas, precisamente porque os idosos tiveram de ser divididos em dois grupos devido à pandemia. E conforme o avanço da mesma terá de ser repensada a forma de actuar porque “a lista de espera está a ficar grande e possivelmente teremos de fazer mais grupos para chegar a todos”, explica. 
Não só aos utentes mas também aos acamados que são ajudados pela unidade de apoio ao domicílio do Centro Paroquial e Social de São Pedro, e também “àqueles que nos batem à porta a pedir um pão. Lá fazemos um pão, vai sempre bem recheado com qualquer coisa. Ou uma sopa, se sobrou. Mesmo na rua, quando encontramos alguém perguntamos se querem uma sopa e aceitam sempre”. Até porque a Casa da Avó fica “no coração de São Pedro”, perto da Junta de Freguesia que muito tem ajudado este projecto bem como o Núcleo Rotário de Desenvolvimento Comunitário de Ponta Delgada, e algumas pessoas da freguesia. Tal como Fátima Silva, que, além do ensino, toda a vida se dedicou aos jovens e idosos, e que também pertence à Casa da Avó, ao Núcleo Rotário de Desenvolvimento Comunitário de Ponta Delgada, sendo também Presidente da Assembleia de Freguesia de São Pedro, e que foi este ano homenageada pela Junta de Freguesia de São Pedro pela sua dedicação e apoio a causas sociais. É por exemplo Fátima Silva que aborda com os idosos da Casa da Avó temas de saúde e outros importantes, trocando “por miúdos” informações essenciais para que percebam certos temas. 
Sandra Sousa explica que “muitas vezes somos avisados para alguns idosos em dificuldades. No outro dia tivemos conhecimento de uma senhora que foi parar ao hospital por fraqueza, por fome, porque um particular que conhecia a senhora nos avisou” e assim conseguiram ajudar. 
“Há uma parte muito humana nisto tudo e muita vontade. Todas as que estamos na cozinha, fazemos tudo com muita vontade para que todos os dias a comida esteja ainda mais saborosa do que no dia antes”, explica Sandra Sousa que nasceu em São Pedro e “a maior parte dos utentes pegou em mim ao colo. E faço parte da Junta de Freguesia e envolvemos a Casa da Avó em muitos convívios” que este ano não foram concretizados devido à pandemia.
Tal como o Grupo de Teatro que estava a ser idealizado arrancar este ano mas que teve de ficar parado devido às novas regras de distanciamento social e também devido ao Plano de Contingência da instituição. Muitos projectos tiveram de parar, enquanto a Casa da Avó também está encerrada, menos o carinho que os colaboradores do Centro de Convívio têm pelos utentes e Sandra Sousa confidencia que além da refeição diária que distribuem e confeccionam, no Natal deste ano terão também uma surpresa. Uma oferta de Natal. Antes eram os utentes que as faziam, tal como os cartões de Boas Festas, para oferecer aos outros, agora “vamos nós fazer para eles, fazemos postais de Natal e uma lembrança para entregar no Natal. Temos um amor muito grande por eles”. Sempre com o espírito de entrega e de dedicação que caracteriza este Centro de Convívio e os seus intervenientes. 

        Carla Dias
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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