“Apesar de já ter vivido em Lisboa e em Amesterdão, nunca calculei a hipótese de sair dos Açores para ter mais oportunidades”, diz o produtor e DJ Souza

Correio dos Açores: - O seu último trabalho “Todo Dia” que aceitação tem tido nas plataformas digitais?
DJ Souza:  -  As pessoas têm-se ligado com o tema e temos tido um feedback enorme, não só dos açorianos, mas também em Portugal continental e nas nossas comunidades emigrantes, das pessoas que já seguem o meu trabalho e dos fãs do Sandro G, para além de toda uma nova geração que está agora a conhecer o meu trabalho e o do Sandro G pela primeira vez. 
O tema “Todo Dia” foi a fusão de dois mundos, dois açorianos de gerações destintas e reconhecidos em diferentes géneros musicais, e essa mistura resultou numa estética musical um pouco diferente do comum, que faz com que as pessoas tenham curiosidade em ouvir. Para além disso, tanto eu como o Sandro não lançávamos música há algum tempo e obviamente as pessoas gostaram de ver o Sandro G de volta.

Escolheu Sandro G, um açor-americano, para fazer parte deste projecto? Porquê?
O Sandro sempre foi uma grande inspiração para mim enquanto artista. Sendo eu um grande consumidor de hip-hop desde novo, lembro-me de ouvir as músicas do Sandro em loop em todo o lado e mais tarde, quando me tornei DJ e produtor, via no Sandro um exemplo, por também ser açoriano e ter conquistado o seu lugar no meio musical. Os nossos caminhos acabaram por se cruzar nos últimos anos graças a um amigo em comum, o Romeu Bairos, um cantautor incrível, com o qual trocava ideias e beats. O Romeu já era amigo do Sandro há algum tempo e acabou por nos apresentar e daí começou a surgir a ideia de colaborarmos em algo. Sempre quis ver o Sandro G de volta à cena, mas nunca pensei que fosse numa colaboração comigo.

Actuou em diversos festivais nos Açores como o Monte Verde Festival, Festas da Praia, Festival Maré de Agosto, Semana do Mar. Como chega aos palcos nacionais e posteriormente à internacionalização? 
Com trabalho, dedicação e muita persistência; não há formula mágica para sair do “ilhéu”, o público é o derradeiro júri nesse sentido. 
Lembro-me, no início, que normalmente quando tinha uma actuação em Portugal continental, conseguia sempre fechar mais uma ou duas actuações devido aos produtores, organizadores de eventos e donos de discotecas que assistiam às minhas actuações e que acabavam por me fechar algumas datas. 

Qual o maior concerto até hoje que lhe fica na memória? Porquê?
É difícil escolher um momento em concreto, visto que me senti realizado em muitas ocasiões, mas se tivesse que escolher um, talvez a actuação no RFM Somnii, dado o impacto que teve. Trata-se de um festival de música na praia da Figueira da Foz, considerado o maior sunset de música electrónica do mundo. Nesse dia, actuei ao lado de DJs mundialmente consagrados, como foi o caso do Tiesto. Outros dos momentos que ficaram marcados, foram quando actuei à meia noite da passagem de ano na cidade de Coimbra para mais de 50.000 pessoas, e na ilha da Madeira, para 20.000 pessoas.

Em 2014 foi agraciado com a Medalha de Mérito na área da Cultura e Juventude pela Câmara Municipal da Praia da Vitória e dois anos depois (2016) atingiu a posição número 16 do TOP 30 do Portal 100% DJ. Tem estado ao longo do tempo no TOP 30 de DJs nacionais? Que outros feitos tem alcançado e que o regozijam?
Poder viajar, conhecer novos sítios e novas pessoas, enquanto faço aquilo que mais gosto, que no fundo é divertir-me e fazer com que os outros se divirtam é, por si só, o maior feito que alguma vez podia desejar e que acaba por ser o motor de arranque para atingir outros patamares e ultrapassar os objectivos que defini para mim próprio. 

Pensou alguma vez deixar os Açores para ter maiores oportunidades, ou essa questão não se coloca?
Apesar de já ter vivido em Lisboa e em Amesterdão, nunca calculei a hipótese de sair dos Açores para ter mais oportunidades, porque não considero viver nas ilhas como uma barreira nos dias de hoje. Obviamente que viver num grande centro urbano, onde a indústria musical se concentra, ajuda a conhecer as pessoas certas e fazer com que a nossa música e o nosso trabalho possam chegar a mais pessoas, mas felizmente ao ter representação em Portugal continental, a nível de management e de agenciamento de actuações, posso dar-me ao luxo de viver nos Açores e de me deslocar ao continente com menos frequência, apenas praticamente quando vou em digressão, mas isso é algo que qualquer artista tem de o fazer, apenas não é de avião, mas sim de comboio ou carro. 

A pandemia veio alterar os seus projectos? Em que medida as redes sociais ajudam neste período difícil para todos?
Quando foi decretado o Estado de Emergência em Portugal, no dia 18 de Março, eu estava na Ásia. Encontrava-me de férias com a minha namorada na Tailândia e dois dias depois ia actuar nuns clubes internacionais nas cidades de Yangon e de Mandalay, em Myanmar, e logo a seguir tinha uma actuação em Singapura. Foi uma aventura, tivemos de regressar de imediato para Portugal devido aos países começarem a fechar fronteiras. Seria a minha primeira vez no Sudeste Asiático e estava muito contente com esta conquista. Um retorno aos Estados Unidos e Canadá, perto dos nossos emigrantes, também estava na mira para este ano.
Infelizmente, a pandemia obrigou ao cancelamento não só destas datas, mas de uma tour inteira que estava sendo preparada desde o ano passado, como forma de celebrar os 10 anos de carreira enquanto DJ. Estava a preparar algo muito giro, com actuações um pouco por todo o país e, pela primeira vez, uma digressão por todas as 9 ilhas dos Açores, algo que nunca alcancei numa só tour. Quem sabe se em 2021...
Através das redes sociais uma das consequências positivas de toda esta situação de pandemia foi observar a forma como nos conseguimos adaptar rapidamente enquanto sociedade e de nos reinventar na forma como vivemos em todos os aspectos das nossas vidas. A cultura e a arte são um reflexo desta mesma sociedade e ao longo da história momentos como este marcaram de forma profunda a expressão da arte, portanto penso que a arte do “djing” também estará a passar por uma fase de transformação.

Qual o balanço que faz do seu percurso musical e quais os projectos em carteira?
Acima de tudo, nunca imaginei receber o carinho e o reconhecimento das pessoas desta forma intensa. Há a expressão “santos da casa não fazem milagres”, sinceramente eu nunca senti isto na pele, apesar de ter demorado o seu tempo, sinto que acabei por conquistar o meu espaço não só dentro do sector da música electrónica, mas também na região. Foi um percurso marcado por muitos objectivos realizados, algumas desilusões (faz parte), sucessos e insucessos, mas onde a persistência e a consistência foram os factores determinantes neste caminho que percorri. Para o futuro estou a preparar uma série de actuações online, filmadas em localizações remotas ou fora do comum para tal feito e que, obviamente, irá arrancar com as paisagens magníficas das nossas ilhas dos Açores.
                        

Nélia Câmara

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Autor: CA

Categorias: Regional

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