22 de outubro de 2020

Paixão pela Vida


Questionado sobre o que é que é ser velho, o filósofo português Agostinho da Silva respondeu: Velho é apenas um termo que nós usamos referido a tempo, não é nada mais do que tempo. Então, para mim é o menos. O que é preciso dizer, é que se eu refiro isso ao tempo do passado, eu sou muito recente. A humanidade tem quatro ou cinco milhões de anos, eu nasci apenas há oitenta e dois de modo que sou muito recente. Se a referencia for o tempo presente, o presente logo que damos por ele é imediatamente passado, então nem existo no presente. Quanto ao futuro ainda não nasci, de maneira que sou recentíssimo. 
Acusado pelo entrevistador de essa ser uma explicação muito filosófica responde:
Não é muito filosófica é apenas uma referencia ao tempo, que faço.
Agora o que se costuma fazer é a referência ao tempo de trabalho útil da pessoa. Quando se diz que alguma coisa está velha, seja um pano, seja uma mesa, o que se refere é o tempo de serviço que ela durou. Temos a mania nesta nossa cultura, que felizmente está acabando, que a vida se fez para trabalhar, que a vida se fez para prestar serviço e não que a vida apenas se fez para viver. Isso tem sido uma mania sobretudo do hemisfério norte e não é o hemisfério norte do equador é o hemisfério norte de uma linha que passa pela fronteira do México com os Estados Unidos, passa na fronteira da Península Ibérica com a Europa, passa na fronteira da Manchúria, por exemplo. Então, esta civilização está efetivamente acabando, basta lembrarmo-nos que as taxas de natalidade são negativas. 
Agora, nós temos um outro hemisfério para sul deste em que efetivamente a vida não é feita para trabalhar, a vida é feita para viver e como hoje a cada passo estamos inventando máquinas para fazer todo o trabalho que nós habitualmente fazíamos isso  vai obrigar o mundo a mudar,  a quantidade de milhões de meninos que neste momento estão nascendo no mundo já reformados que não terão trabalho nenhum para fazer, então a sociedade vai mudar e suponho que ela vai mudar sobretudo com os modelos que ainda se mantêm ao sul do equador.
Questionado novamente sobre o que é que se sente sendo-se velho, o que é que se sente com a idade que Agostinho da Silva tinha na altura da entrevista, este responde: 
As pessoas foram educadas apenas para o trabalho a maior parte das nossas escolas só educam para isso, então quando a pessoa sente que já não está na idade de trabalho, começa a não ter nada que fazer e o tempo livre cansa e esmaga. Mas, se a pessoa tivesse sido educada, ou por natureza o fosse sobretudo um apaixonado da vida nunca se sentiria velho para coisa nenhuma, pode sentir-se doente, pode sentir-se mais fraco, pode não correr tanto como corria quando era novo mas a paixão pela vida o sustenta vivo.
(Transcrição livre de uma entrevista com Miguel Sousa Tavares - https://youtu.be/6MiNucoZBPE)

Viver apaixonado poderá revestir formas diferentes de pessoa para pessoa mas o que interessa é não deixar morrer a chama. 
As crianças normalmente possuem este brilho, porque estão a crescer e têm a vida pela frente. Ora também sabemos que as pessoas não se tornam velhas, apenas envelhecem quando param de crescer. 
Então deixemos de lado o que julgamos conhecido e vamos aprender mais sobre a Vida, com V grande, pois ela está aí à nossa disposição para ser entendida. 
O médico de origem indiana Deepack Chopra escreve num livro intitulado “Corpo sem Idade Mente sem fronteiras”:
“Quero, … que deixe de lado as suas conceções sobre aquilo a que chamamos realidade para que possamos tornar-nos pioneiros        numa terra onde o vigor da juventude, a renovação, a  Doris Day criatividade, a alegria, a realização e a perenidade são a experiência comum da vida, onde a idade avançada, a senilidade, a enfermidade e a morte não existem e não são sequer consideradas como uma possibilidade.” (O.C. pag 3)
Se existe um tal sítio então o que nos impede de ir para lá? Questiona o autor do livro e acrescenta: “Não se trata de um continente sombrio ou de um mar perigoso ainda não desbravado. É o nosso condicionamento, a nossa atual visão coletiva do mundo que nos foi ensinada pelos nossos pais, professores e, sobretudo pela sociedade. Este modo de ver as coisas – o velho paradigma – tem sido apropriadamente chamado de a “Hipnose do condicionamento social, uma ficção na qual coletivamente concordamos em participar.”(O.C. pag 3)
Então não é preciso atravessar o cabo Bojador para encontrarmos a terra da longevidade, apenas precisamos olvidar as restrições de uma mente coletiva movida pela ignorância e algum conformismo. Nos últimos tempos muita da ciência tem vindo a demonstrar que o corpo humano não é uma máquina. Hoje sabemos que a inteligência não envelhece. A máxima de que “burro velho” não aprende linguagem demonstrou estar completamente errada. O sistema físico humano está a ser refeito a cada segundo que passa. O nosso corpo sólido apreendido no tempo e no espaço corresponde apenas a uma camada superficial da realidade.
E, voltamos a citar Deepack Chopra: “O corpo humano é algo muito mais miraculoso – um organismo que flui com a força de milhões de anos de inteligência … Nesse exato momento cada um de nós está a exalar átomos de hidrogénio, oxigénio, carbono e nitrogénio que há um instante antes estavam presos numa matéria sólida: o estômago, fígado, coração, pulmões e cérebro estão a desvanecer-se no ar, sendo substituídos tão rápida e interminavelmente como se vão desgastando. A pele renova-se uma vez por mês, o revestimento do estomago a cada cinco dias, o fígado de seis em seis semanas e o esqueleto de três em três meses. A olho nu, esses órgãos parecem os mesmos a cada momento em que são examinados, mas na verdade estão sempre em fluxo. (o.c. pags10 e 11)
O corpo humano tem duas idades diferentes: a idade biológica e a idade cronológica. O calendário mostra-nos a idade cronológica mas isso pode estar muito longe de definir as capacidades do corpo e sobretudo da mente. Hoje sabe-se que o tempo que habitamos na terra não define o índice de envelhecimento. A idade biológica refere-se a quantos anos parece que a pessoa tem.
Quantas vezes, olhamos uma pessoa e afirmamos que esta não parece a idade que tem.
Dada a enorme complexidade das diversas partes que interagem na nossa composição e fisiologia, a idade biológica não é simples de calcular.
De início, é útil termos em mãos alguns dados, como: tensão arterial, potência cardiorrespiratória, níveis de glicose e de lipídios no sangue, rugas na pele, etc. Por exemplo o exercício físico regular pode fazer com que a pessoa reduza a perda das funções fisiológicas fundamentais, como capacidade aeróbica, força muscular e sistema imunológico em até 50%.  
A quantidade e qualidade da massa óssea é um bom parâmetro para avaliar a idade biológica. Sabe-se que pessoas que fazem exercícios de resistência perdem menos massa óssea comparadas com as que praticam uma vida sedentária. Com um exame específico é possível avaliar se a pessoa está perdendo ou conseguindo mantê-la.
A capacidade dos rins em filtrar as toxinas e do intestino em manter o seu funcionamento regular são outros parâmetros que fazem parte da avaliação da idade corporal. 
Cigarro (todos os tipos), bebidas alcoólicas, sono        inadequado, ingestão em excesso de gorduras hidrogenadas e saturadas, alto consumo de açúcar e sedentarismo são todos fatores que contribuem para o aumento da idade biológica – e a real.
Manter um estilo de vida saudável, entretanto, pode originar uma idade biológica de cinco a 10 anos mais jovem Do que a idade cronológica.
A idade psicológica pode ser encaixada dentro da idade biológica. Isso porque engloba o funcionamento cognitivo (habilidades da memória, aprendizado e de lidar com o emocional) e, conforme as pessoas envelhecem, essa função pode ficar desfasada ou não.
Dificuldade com alguns aspetos da memória podem aparecer em qualquer um, mas para manter a idade psicológica jovem é preciso vence-los e treiná-los, numa lógica de use-o ou perca-o.
Por outro lado, a capacidade das pessoas em lidar com as emoções negativas melhora à medida que envelhecem. Ou seja, em se tratando de idade emocional, ficar mais velho pode significar benefícios.
A idade biológica pode ser maior que a cronológica. Algumas pessoas mantêm um estilo de vida pouco saudável e os sinais de envelhecimento começam a aparecer mais cedo, como perda de memória, rugas, perda de elasticidade e brilho da pele, aumento de peso, falta de energia, diminuição da libido, insônia, etc.
Com todos estes fatores em cima da mesa a equação da vida deixa de ser mensurável e a boa notícia é que vamos sempre a tempo de recuperar, sobretudo quando mantemos a paixão ativa. 
Conhecemos clássicos exemplos de longevidade alguns bem perto todos eles apaixonados … A cada dia a esperança de vida aumenta cinco horas. Para os cientistas abriu-se um novo campo de investigação para adiar doenças como Alzheimer e evitar o colapso dos sistemas de saúde. Investigam-se os genes dos centenários, fazem-se transfusões de sangue de jovens para pessoas mais velhas e o primeiro medicamento anti envelhecimento vai começar a ser testado em humanos. Alguns cientistas acreditam que quem nasce hoje pode durar até aos 150 anos.
Atualmente, temos um grande espectro de pessoas que já não podem ser chamadas de “velhas” embora tenham mais de setenta anos. Começam a surgir designações de pré-velhos e super-velhos. 
Assim, está na hora, dos chamados idosos, deixarem de fazer contas à vida e voltarem a apaixonar-se … pelo que quer que seja que lhes desperte amor, entusiasmo, alegria e felicidade. 

Teresa Tomé

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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