2 de outubro de 2020

Em que falhámos para Ventura valer o que vale

Há pouco tempo, o partido radical de direita realizou a sua convenção, que por falta de tempo não consegui acompanhar em direto. Pese embora não ter qualquer gosto especial, a realidade do extremismo que este partido apresenta, é um facto que não pode ser nem escamoteado, nem ignorado, e muito menos banalizado. As sociedades e as organizações democráticas conhecem convulsões que as levam à destruição, precisamente por focos singulares como este que se tornam problemas coletivos perante os quais a democracia como a conhecemos pode sofrer retrocessos difíceis de contrariar. 
Por entre moções de difícil explicação para qualquer moderado, o ajuntamento partidário permitiu-nos entender melhor como funciona aquela força política. Do ponto de vista mediático, André Ventura tem o palco todo. Sendo o presidente, fundador e deputado único, é natural que assim seja. À exceção da adoração ao líder que revelou contornos de culto e veneração a que não estamos habituados nos partidos tradicionais. Com as devidas diferenças, que vão da magnitude à quantidade, só se encontra paralelo naquelas imagens e naquelas moções, ainda assim sem o acerto que lhes conhecíamos, aos desfiles nazis e às comemorações estalinistas e soviéticas que o mundo deixou para trás, e como tão bem Hannah Arendt explicou no livro As Origens do Totalitarismo. Ficamos com a sensação clara, depois de terminados os trabalhos, que André Ventura e o Chega, se tivessem poder – ou se tivessem o poder suficiente – não fariam muito diferente dos piores horrores que o mundo já presenciou. 
Então se assim é, por que razão Ventura vale o que vale? Ou melhor perguntado, que atração tem o Chega que leva tantos a pensar em votar nele? Não sendo a explicação simples, porque envolve muitas variantes sociológicas, muitas opções pessoais e várias expetativas de diferentes pessoas, grupos e convenções similares e antagónicas, também não é impossível. Podemos começar pelos aspetos básicos: as pessoas comuns só pensam em votar no partido de direita radical, porque consideram que as forças políticas tradicionais, que substituem no sistema partidário desde a revolução de abril, e que têm revelado uma enorme resiliência, já não os representam de forma plena. Temo que o voto em urna, que a cada um diz respeito, venha precisamente demonstrar este equívoco nacional, levando até que os números da abstenção possam baixar. Ou seja, de uma forma geral, muitos eleitores que não encontram no espetro partidário outro representante para acolher o seu voto, julgam que depositar a confiança que falta nos restantes (partidos), no (partido) de Ventura, é a solução. 
Esta questão entronca noutro fator. Como muitos não acreditam que o Chega governe, olham para este voto, como um voto de protesto. O que antes de 2015 acontecia com bloquistas e comunistas – e isto é muito evidente no sentido de voto que se criou no Alentejo –  acontece agora com o Chega. É muito difícil ao eleitorado atribuir o seu voto a ambos, quando entendem que a governação é por eles influenciada. Este talvez tenha sido o aspeto mais cruel da solução governativa encontrada em 2015. A queda do muto à esquerda, permitiu que à direita o seu extremo mais radical crescesse de forma singular e, diria, quase descontrolada. 
Ao contrário de outros pequenos partidos, que chegaram há pouco tempo ao hemiciclo nacional como a Iniciativa Liberal, o Chega não tem qualquer ideia de projeto político. Tem somente ambição de poder, e com este propósito ocupa o espaço mediático com uma forma de fazer política a que não estávamos habituados (à direita). E o mais grave, é que poderá vir a influenciar a governação, o que será um perigo para o regime político como o conhecemos. «A persuasão não é possível sem que o seu apelo corresponda às nossas experiências ou desejos ou, por outras palavras, a necessidades imediatas» escreveu Arendt. Já sabemos o que aconteceu depois.
 

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Categorias: Opinião

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