27 de setembro de 2020

Um presente nada animador

 1- Nada melhor do que usar os dados estatísticos para tirarmos a raiz quadrada à evolução da Região nas últimas décadas e ganhar coragem para adequar o nosso modelo económico às exigências e necessidades que o futuro nos reserva.
2- Comecemos pela riqueza gerada pelas empresas a preços constantes entre 2009 e 2018. Em nove anos, a riqueza gerada pelas empresas nos Açores decresceu 8%, o que equivale a uma perda anual de quase 1%.
3- Enquanto nos Açores a riqueza baixou, em Portugal aumentou, no mesmo período, 5%. 
4- Em seis anos, isto é de 2014 a 2019, a Região perdeu população, passando de 247.495 pessoas para 242.821. Ou seja, em seis anos perdemos 4.674 residentes.
5- Há, certamente, razões diversas para tal perda, mas entre elas evidencia-se a insuficiente taxa de nascimentos para compensar os óbitos, e a emigração, na busca de melhores condições de vida.
6- Os números em questão lançam um SOS, exigindo políticas arrojadas, para aumentar a natalidade e evitar o êxodo de jovens qualificados. São precisos incentivos para os jovens talentos que estão no exterior regressarem à Região e contribuírem com o seu saber e valor para o bem da comunidade.
7- Por outro lado, o abandono escolar continua a ser uma batalha perdida. Em 2019, a taxa de abandono escolar nos Açores foi de 27% entre os jovens dos 18 aos 24 anos, representando o dobro do abandono escolar a nível nacional. O problema não está certamente no parque escolar e este fenómeno precisa ser estudado para se saber onde está o mal e resolvê-lo, e empenhar nesse trabalho as escolas, os professores e as famílias. 
8- Em termos sociais nos Açores, há 10 beneficiários do Rendimento Social de Inserção por cada 100 residentes, enquanto a nível nacional são três em cada 100. Ou seja, 24,5% da população dos Açores recebe o Rendimento Social de Inserção, o que justifica o elevado grau de pobreza que se mantém na Região e que os substanciais fundos Europeus não conseguiram eliminar, por falta de músculo da nossa economia. 
9- Economia que está assente em 26,5% no sector primário, 9,6% no sector secundário e 63,9% no terciário. 
10- Ora, temos 28 mil empresas não financeiras na Região, 48% sedeadas em São Miguel, condizendo com a população residente na ilha, que é 57% da população do arquipélago. Do total das empresas existentes, oito em cada 10 são de empresários em nome individual, e apenas 5.600 são empresas em nome colectivo ou sociedades anónimas. 
11- Estes indicadores que a PORDATA publicou este fim-de-semana dão uma imagem preocupante e incerta quanto ao futuro. Isto é, o modelo dos anos anteriores falhou, até porque o nosso crescimento não tem acompanhado o crescimento nacional, e muito menos o europeu. 
12- Enquanto não tivermos o sector secundário a crescer não será possível aumentar a riqueza que precisamos para combater a pobreza e aumentar a nossa sustentabilidade, porque não é o sector dos serviços que o conseguirá.
13- A grande oportunidade que se abre com os novos fundos comunitários requer um “Plano Marshall”que crie uma vaga capaz de mobilizar empresários e investidores para a nova economia que precisamos ter, aproveitando o que temos de bom, mas com ambição para termos mais e melhor seguindo a audácia dos grandes industriais e empresários que nunca vergaram perante as adversidades insulares.
14- Isso só se conseguirá com políticas concretas, focadas em projectos bem definidos e estruturados sem sonhos mirabolantes, e com menos partidarite, sem esquecer os instrumentos financeiros que a Região deve ter e aqui entram um Fundo virado para a reabilitação empresarial e para o investimento e o Banco de Fomento que tem sido frequentemente falado, mas que tem de passar do pensamento à prática. 
15- Aproveitamos os recursos que temos e conhecemos e deixemo-nos de fantasias.
16- Estamos a entrar num novo tempo, e temos de ter coragem e saber para adaptar a sociedade na sua vertente social, económica e cultural às exigências da nova década, usando os recursos que vamos dispor, sem esquecer que eles têm de ser aplicados tendo como centro dessas políticas - e em primeiro lugar - o ser humano.
                                               
                              
 

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Categorias: Editorial

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