25 de setembro de 2020

O poder, esse elixir

Thomas Paine, na sua interpretação natural, referia que «está nas nossas mãos começar de novo o mundo» naquele que é um dos seus mais conhecidos pensamentos. Uma outra citação, que colocava a ênfase na (má) origem natural daquilo que dará início ao (mau) governo e ao seu fracasso, aponta «que, se os governos tivessem tido origem num princípio certo, e não tivessem interesse em perseguir um princípio errado, talvez o mundo não se encontrasse no estado miserável e conflituoso em que o vemos», escreveu ele nos seus Escritos até 1792. Passados tantos anos e tantas décadas, aqui estamos. 
Filho de uma democracia antiga, que se reforma constantemente depois da Revolução Gloriosa de 1688 e 1689 e que teve no autor de Common Sense um dos seus opositores por considerá-la de curto alcance, talvez demasiado crente nas vantagens da Revolução liberal iluminista francesa, de 1789, Paine seguiu esta com especial motivação e alegria, já que viveu esses momentos em território gaulês. E mesmo os excessos dos revolucionários, aos seus olhos, não foram mais do que ocasos obrigatórios de quem buscava o momento anterior ao pecado capital. A sua busca incessante pelo instante anterior à «origem e conceção da governação em geral», tentando com isso depurá-la de todos os aspetos negativos que a sua má origem criou e extrapolou, foi um dos trilhos essenciais deste que é por muitos tido como um dos pais da esquerda. Depois de tanto tempo, a realidade comprova que a sua visão natural teria caminho para andar, se a condição humana o permitisse.
Não se vislumbra um único caso no qual o regime anterior tenha sido totalmente destruído e do qual tenha nascido um outro, totalmente novo, sem qualquer pecado original. Sujeito à mesma «condição humana» que Arendt nos retrata na obra com o mesmo nome, não se conhece prática revolucionária que não tenha aproveitado os palácios, as práticas e as condutas que se comprometeu destruir. O governo novo, eivado dos vícios do passado contranatura como sugeria Paine, parece cada vez mais real. E se atendermos às circunstâncias próprias que servem para embrulhar o poder, que na governação passam por manter e aumentá-lo, acabamos por concluir que o pragmatismo é o mais completo comportamento comum em quem detém (o poder). 
Talvez porque não se conseguiu recuar o suficiente, a busca do natural original torna-se impossível de recriar. Exemplos não faltam. Xi Jinping é acusado pela comunidade internacional de promover campos de trabalhos forçados para a minoria uigure e promover o controlo da natalidade desta comunidade muçulmana chinesa. Mais recentemente, a imprensa internacional acusava o governo central chinês de obrigar trabalhadores rurais tibetanos a abandonar a região e integrarem, à força, centros de treino militar, com o propósito de se tornarem operários fabris, locais nos quais o executivo nacional considera que farão mais falta. 
A mesma imprensa internacional anunciava que o líder da Bielorrússia tomou posse em segredo das eleições que terá ganhado de forma fraudulenta, com receio de ver aumentar ainda mais as manifestações populares. Navalny, depois de ter sido envenenado, vê agora o seu partido ser dissolvido, após queixa de que teria o mesmo nome de outra agremiação. Curioso facto: o partido que se queixou terá sido formado depois. E por fim Maduro, que a ONU acusa de crimes contra a humanidade, devido à forma como as forças de segurança têm vindo a promover execuções extrajudiciais, sendo-lhes dado o aval para os crimes pelo presidente e por outros altos funcionários. Como Duterte, que não se conhece como discípulo das correntes políticas criadas por Paine. Diz-nos, para terminar, que «é tempo de as nações serem racionais e não serem governadas como animais, para deleite dos seus cavaleiros». 
 

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Categorias: Opinião

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