20 de setembro de 2020

Arquitectura LXXVIII

...”Aldous Huxley, o mais moderno dos romancistas ingleses, diz no seu romance Antic Hay, falando da falta de compreensão geral no capítulo «arquitectura»: - «Se um grupo de músicos de filarmónica se juntar à esquina de uma rua, tocando infernalmente, cada um a sua música e cada música em seu tom diferente, o primeiro polícia manda-os circular, o segundo prende-os a todos - e no caminho para a esquadra próxima os populares apedrejam os músicos...
Se na mesma esquina da mesma rua se estiver concluindo um edifício de má arquitectura, nem a polícia prende o arquitecto nem os populares o apedrejam: ninguém deu por nada...»”...
Cottinelli Telmo (1897-1948), arquitecto, in “O Diabo” nº12 - 16/09/1934.


O irreverente arquitecto escrevia isto em 1934, mas daí para cá não mudámos muito, ou mesmo nada, e raramente alguém dá por isso; sem vacina, essa indiferença contamina-nos a todos: uns quantos arquitectos foram internacionalmente reconhecidos, mas a maioria distraída, apenas neles bebeu formalismos, sem tomar conteúdos, e deitou-se a distribui-los rápida e indiscriminadamente pelo território, desbaratando ainda a componente social da arquitectura, perante a indiferença dos clientes, manietados pela perda da relação privilegiada com o seu arquitecto, a quem pagam pouco, e por isso subestimam, regra que se vai acentuando.
Nesta voragem da velocidade que se imprimiu a tudo, a bem de não se sabe bem o quê, nem porquê, nem para quê, os projectos são realizados sem tempo, sem pensar, e sai o que sair, para facturar, numa obcecação de originalidade, que invariavelmente lha tira, num ruído contínuo, quando a arquitectura precisa de tempo e de silêncio.
O Código da Contratação Pública foi o primeiro a eleger estes princípios do muito barato e muito depressa, e portanto também o primeiro a rapidamente colher esses frutos que proliferam por todo o território, e que também muito rapidamente contaminaram todo o mercado, como era previsível.
A recente boa proposta da Câmara Municipal de Lagoa, que retomou uma ideia que data de 2002, que também teve projecto, de abrir um caminho pedonal marginal do Largo do Cruzeiro ao Portinho de São Pedro, veio numa paisagem espectacular, muito generosa, pôr a descoberto uns tantos casos que infelizmente pontuam o seu percurso, representando exemplos do que anteriormente referi, e com os quais Cottinelli Telmo também se insurgiria, porque de resto ninguém dá por isso.
Iniciando-se o percurso dessa via no Largo do Cruzeiro, caminhando de poente para nascente, a primeira chamada de atenção vai para o “barco encalhado”, excepção ao que mencionei, projecto irreverente no seu formalismo, contrariando Louis Sullivan que afirmava que “a forma segue a função”, de que existem outros exemplares que a proximidade do mar inspirou, como o bar da Praia Formosa, em Santa Maria, ou noutra escala e contexto o edifício do Centro Nacional para a Ciência e Tecnologia em Amesterdão, pelo risco de Renzo Piano, e tantos outros.
Projecto particular, irónico que foge da encomenda pública, e dos seus actuais condicionalismos que enumerei, mas que a abertura da via pedonal sublinhou, razão da minha menção.
Imediatamente a seguir, os resíduos de demolição, visíveis no limite do lote sublinham a falta de civismo que ainda perdura, considerando que é para a costa que se atira o lixo, porque o mar não sente e não se vê, mas que a abertura de vias marginais mostra, e tem tendência a reverter. Oxalá!
Na sequência, alguns muros de pedra seca, melhor ou pior aparelhados, delimitam lotes, até que passado o passadiço em ponte, se uniformizam e mostram portões de duas folhas, com soleiras construidas pela empreitada em curso, indiciando a passagem de veículos, que a acontecer, circularão pela via pedonal(!), cujo piso e conceito não os suportam.

Não dá para acreditar...

Ao chegar à rotunda da Avenida Vulcanológica, a via confronta-se com a imponente e equilibrada escultura de basalto, entretanto lamentavelmente vandalizada com grafitos, aparentemente sem possível recuperação.

Mau sinal dos tempos...
O projecto muito simples no desenho, que no passadiço abraça mesmo a modéstia, apenas talvez vaidoso na iluminação, mas que tão contestado foi no seu lançamento, desenvolve-se até aqui deste modo frugal, mas que no segundo troço evoluirá mais solto apenas prejudicado por duas peças de arquitectura que o complementam, que lhe quiseram dar outra notoriedade, quem sabe originalidade, mas que antes pelo contrário lha roubaram, adulterando o propósito.
Atravessada a rotunda, apresenta-se o edifício do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores - Casa dos Vulcões que transpira a pressa e a usura do cliente, que subjugaram o arquitecto, conducente a um projecto muito pouco cuidado, vulgar, e que a falta de manutenção, nada o dignifica, e a quantidade de grades não o defendem, antes lhe infringem ainda mais maus tratos, agora peceptíveis nos diversos quadrantes que a via nos oferece.
O sítio, de tão generoso pedia outro desenho, que o cliente não exigiu ou não deixou.
À Casa dos Vulcões, seguem-se uma quantidade de terrenos sem tratamento, sem muros, com construções abarracadas, ou degradadas, que dão a vez a outros muros de alvenaria, sem reboco ou sem pintura, espelhando a ideia que ainda se tem do que é a frente e são as costas, a quem cabem tratamentos tão  diferentes, que a via pedonal agora pôs a descoberto.
Depois deste desconchavo que os ajardinamentos complementares talvez venham a mascarar, e no final do bairro dos Pescadores, na rotunda limite e acesso ao Campo de Futebol do Operário, de um e do outro lado da via, surgem as duas peças de arquitectura, que aparentemente o deviam complementar, mas que pelo desenquadrado risco e ausência de dialogo, altercando entre si, e que antes de o sublinharem, o rasuram.
A simplicidade do desenho que trazia, transforma-se, deslumbra-se sem necessidade, procura originalidade que por isso a perde, bebe formalismos vindos de longe, complica, desenquadra-se, subverte-se; antes se apagasse, porque ao generoso local só acrescenta menos propósito.
A via termina pouco depois no Portinho de São Pedro, agora reabilitado, pondo ainda a descoberto o Pavilhão do Clube Naval, edifício de desenho pouco cuidado, quando um silo de automóveis, ou um armazém de embarcações, pode e deve sê-lo bem desenhado, como o foram o silo automóvel do Porto de Alberto Pessoa, ou o Clube Náutico no Funchal de Gonçalo Byrne.
Ficou esquecida a reabilitação do forno da cal, emparedado entre o Campo do Operário e o Clube Naval, porque se não o tivesse sido, valorizaria bem o percurso.
Estes quatro casos menores de arquitectura, não são casos de polícia, como Cottinelli Telmo ironicamente nos faz crer, mas não deixam de ser mais uns quantos a somar ao rol, mais um desperdício, uma perda de oportunidade de afirmarmos Arquitectura, de compormos convenientemente o território como o lugar merecia, para dar lugar à vulgaridade que o poder económico e o político acentuam num crescendo aparentemente imparável. 
De polícia, não, mas não deixa de ser mais um atentado, perpetrado por promotor reincidente, o caso do edifício que está a aparecer em São Roque, adjacente ao Portinho da Corretora, que triplicando a cércea do existente, inserido em conjunto linear e uniforme de um piso, e afirmando-se em preto, sem pejo, o destrói!
Em favor de quê? Será por esta perda de identidade que ambicionamos? Que futuro preconizamos neste desrespeito pelo passado e até pelo presente?
E cito Kengo Kuma, arquitecto:
“A identidade dos arquitectos, a arquitectura dos egos, deve desaparecer. Os egos devem ser derrotados em favor do próprio local.”  

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima