18 de setembro de 2020

O país não precisa de polémicas estéreis

O clube do qual sou adepto perdeu na Grécia. Depois de muitos milhões gastos em jogadores e do resgate – que considerei oportuno – de Jorge Jesus ao Flamengo, para relançar o maior clube nacional interna e externamente, o não acesso à liga que dá muitos milhões, é um golpe difícil de contrariar nesta altura de profunda crise, que com a proibição de adeptos nos estádios, e em muitos casos com falta de liquidez, terá de levar todos os clubes a rever as suas políticas de contratação de jogadores, as suas despesas correntes e os valores das folhas salariais. Apesar desta entrada direta na segunda liga europeia, depois da derrota de ontem, Vieira tem muito mais com que se preocupar. E não tem a ver com o futebol. 
A semana que passou foi pródiga no debate que envolveu política e futebol. O primeiro-ministro aceitou integrar a Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira, que se baterá por permanecer como a figura mais alta da agremiação benfiquista. Ao contrário de outros atos eleitorais, nos quais não teve oposição organizada, desta vez Vieira conhecerá uma oposição mais resiliente e, com isso, acrescida dificuldade em manter o poder perante os sócios do clube. Os restantes candidatos, para além de considerarem que o desporto – em particular o futebol – tem falhado na obtenção de ganhos, campeonatos e taças, medalhas e troféus, têm utilizado os vários processos judiciais nos quais o clube e o próprio Vieira, por via das suas funções, mas, igualmente, por via dos seus (e dos seus) negócios pessoais, para granjearem mais apoio clubístico. 
O caso de António Costa não é singelo. Também Fernando Medina, presidente da maior câmara do país, deputados do CDS e do PSD, e ainda o presidente comunista da autarquia do Seixal – na qual está instalado o centro de estágio benfiquista – fazem parte da referida comissão. Aos olhos da opinião pública – que talvez goste mais de futebol e menos de política – esta miscelânea não é positiva. Casos como o do saudoso Avelino Ferreira Torres, Valentim Loureiro, ou Berlusconi, entre outros, trazem à memória e à liça os perigos de se confundirem cargos políticos, eleitos diretamente pelo povo, e cargos desportivos, circunscritos aos seus associados que, muitas vezes, podem entrar em conflito com o propósito do bem comum para o qual os primeiros foram eleitos. No desporto, como noutras atividades, a separação deve ser a mais profunda possível. Preferencialmente, deve ser total. Haverá sempre matérias em choque que poderão levar, em meios mais informais, à confusão que nunca é boa conselheira.  
A tudo isto acresce a perceção pública. Ao contrário de Júdice, não sei se Costa o fez por oposição à candidatura de Ana Gomes ou, simplesmente, achou que daí não viria mal ao mundo. A separação de poderes e a maturidade que a nossa democracia já ostenta, não me leva a considerar que os procuradores ou os juízes que julgarão Vieira nos vários casos em que responde, se sentirão condicionados pela presença do primeiro-ministro na comissão que honra a sua candidatura. Tal como não acredito que Rui Moreira, que faz parte dos órgãos consultivos do clube nortenho, possa utilizar esse papel para condicionar os funcionários da sua autarquia a beneficiar o clube. Ou que o comunista seixalense que preside à câmara beneficie o Benfica em impostos ou áreas de outra natureza no que ao centro de estágio diz respeito. Borlas na fatura da água e saneamento, por exemplo. Ou isenção de taxas de recolha municipal.  E o facto de Luís Filipe Vieira ter comparecido em jantares de campanha da coligação democrática não deve ser lido como um apoio que, agora por parte do presidente da edilidade seixalense, é reembolsado.  Ainda mais quando o líder benfiquista é um dos maiores devedores das instituições públicas de crédito. Um capitalista, portanto. Que pode precisar de apoios para se manter no alto da montanha. Mas de que o país não precisa para acrescentar polémicas aos problemas com os quais já temos de lidar. 
 

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Categorias: Opinião

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