15 de setembro de 2020

Prognósticos eleitorais

 As eleições presidenciais só vão ter lugar em Janeiro do próximo ano, mas não faltam por aí comentários e prognósticos, todos muito sérios e alardeando autoridade.
Um ponto é bastante consensual: Marcelo vai ganhar as eleições e manter o desempenho do cargo de Presidente da República, tão habituados estamos ao seu estilo que até parece que achamos todos que assim deve continuar.
Mas então se o prognóstico é tão fácil, se a sua presidência é tão consensual, porque será que tantos e tantas se empenham em desafiar Marcelo, candidatando-se contra ele, obviamente para o mandar para casa e substituí-lo no Palácio de Belém?
Cada um dos candidatos já anunciados, e os que porventura ainda vierem a aparecer, tem as suas razões e vai tratar de as difundir e aliciar para elas o apoio do maior númeropossível de votantes. É só pois aguardar um pouco e já vamos ficar todos esclarecidos.
Entretanto uma coisa é certa: a campanha vai ser curta, mas será decerto bastante intensa. Não terá os habituais comícios e outros actos multitudinários, em obediência às regras estabelecidas para o combate à pandemia. Dizem que vai decorrer muito nas redes sociais, o que não é tranquilizador quanto à qualidade e elevação do debate político.
 Embora os receios instalados não sejam propícios à participação, nem tampouco o clima invernoso previsível, talvez a existência de tantos candidatos anti-Marcelo acabe por funcionar como factor de entusiasmo para os indefectíveis apoiantes do Presidente dos Afectos, fortalecendo a sua posição para o seu segundo e último mandato, que a Constituição sabiamente não permite mais.
Alguns dos concorrentes às próximas eleições presidenciais vão fazê-lo em missão partidária, sem grandes ilusões, apenas para marcar presença e aproveitar os tempos de antena para divulgar posições já bem conhecidas. Outros têm pretensões de valorização pessoal ou simplesmente não querem ser esquecidos.
Mas há também quem se apresente invocando um projecto político alternativo. Esses é que são de temer e Marcelo e as suas hostes terão de lhe dar combate a sério, o que não deixarão de fazer.
Está visto que foi uma manifesta imprudência pôr a correr que o sonho de Marcelo seria superar os 70% de sufrágios a favor, arrecadados por Mário Soares nas eleições para o seu segundo mandato. Duvido que tenha sido o próprio a alimentar tal ideia, mais facilmente atribuível a algum colaborador entusiasta ou jornalista desenfreado. As condições são diferentes e tal resultado é irrepetível!
A linha agora seguida parece ser a de baixar expectativas, indicando como meta qualquer coisa melhor do que Cavaco…  Apesar de tudo talvez seja pedir muito, esquecendo além disso que todas as comparações são odiosas.
Em suma, o que interessa é ganhar e para isso basta metade mais um do total dos votos validamente expressos. Isto significa que as abstenções não contam, nem os votos nulos ou brancos, convindo portanto que os eleitores tomem posição por algum dos candidatos, qualquer que seja, se é que desejam mesmo intervir com peso em escolha tão fundamental.
E se tiver de haver uma segunda volta? Não é previsível que tal aconteça, embora me queira parecer que os candidatos com pretensões bem o desejariam… Entre nós, o Presidente recandidato tem ganho logo à primeira, e já vamos a caminho de meio século de vigência do regime democrático, o que permite fixar alguns precedentes. Mas mesmo que tão improvável cenário se verificasse, não seria desonra nenhuma: - o General de Gaulle também teve de ir a uma segunda volta na sua reeleição e isso não lhe diminuiu a autoridade nem o seu aliás glorioso prestígio.
Quem neste momento está mal na fotografia é o PS e o seu líder António Costa. Éevidente que têm ambos beneficiado do estilo e da substância do mandato presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas temem, naturalmente, que o segundo mandato seja diferente, como tem acontecido, e que isso fragilize ainda mais a posição vulnerável em que se encontram, responsáveis por um governo minoritário, obrigado a constantes piruetas parlamentares, num ambiente de crise sanitária complexa, que corre sérios riscos de transformar-se em derrocada económica, social e consequentemente política. Não tem faltado quem diga que o pior está para vir.
O apoio a Marcelo parece forçado, imposto mesmo, como se António Costa e o PS não tivessem alternativa. O aparecimento de uma candidatura na área socialista vem perturbar os desejos do costismo de não haver ondas, enquanto se leva por diante a afirmação de poder pessoal e de grupo de apoiantes, na mira de uma duração sem termo e com metas sempre em crescendo. Vai ser divertido observar as sinuosas atitudes que irão tomar para assegurarem a neutralização da candidata socialista, enquanto tentam levar votos a Marcelo, contanto que não sejam muitos…

(Por convicção pessoal, o Autor
não respeita o assim chamado
Acordo Ortográfico.)

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Categorias: Opinião

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