11 de setembro de 2020

Sobre a liberdade individual

Muito se tem falado sobre o papel dos moderados quando os radicalismos voltam a ganhar força e os extremos se alimentam mutuamente. Aqueles que, não querendo outra república ou a adoção do céu na terra, acham que o combate às desigualdades e o importante elevador social estão intimamente ligados à liberdade, à democracia e à prudente e honesta gestão do bem público. Os que consideram que os ensinamentos das experiências passadas devem nortear a escolha mais acertada que fazemos das opções políticas com que somos confrontados no futuro. Aqueles que acreditam numa democracia liberal dinâmica, livre de sonhos esfumados e presa à realidade e aos factos que outros, mais à frente do que nós no desenvolvimento social, já passaram e satisfatoriamente conseguiram melhorar. 
A sociedade está partida entre uns e outros. Entre quem queira começar de novo, talvez mantendo, ainda assim, os palácios do passado, e aqueles que preferem corrigir o que está errado e andar para a frente, aproveitando uma revolução com mais de quarenta anos, uma constituição com os direitos e deveres fundamentais, e três intervenções externas sempre que o país se aproximou do abismo dos cofres vazios. O romantismo revolucionário já foi mais apelativo, e o voto crescente na direita radical, tal como já aconteceu em terras gaulesas ou espanholas, é automaticamente sonegado ao extremo oposto. Sendo, em grande medida, um voto de protesto tendo por destinatários os detentores momentâneos do poder, leva a que naturalmente esta transferência de votos aconteça. Não é possível apoiar quem detém o poder e ao mesmo tempo fazer oposição. 
Este quadro torna-se ainda mais claro em plena pandemia. Nos extremos encontramos todo o tipo de conspirações libertárias, do fim da liberdade, dos ataques desenfreados à participação cívica e política, da crença na força do homem perante o vírus, negacionistas da utilidade da máscara, do álcool gel e do distanciamento social por forma a conter-se o vírus até haver tratamento ou vacina. E se em muitos casos, a pandemia está precisamente a servir para diminuir a participação cívica, as liberdades individuais, a plena vivência económica, cultural e política, justiça seja feita aos governos democraticamente eleitos em eleições multipartidárias, por conseguirem, por vezes até opondo-se a algumas pulsões pouco democráticas, manter um largo quadro de liberdades, a começar pela de circulação, quando poderiam ter alguma propensão a não o fazer. Seria mais simples confinar de forma obrigatória bairros inteiros, colocar barreiras entre quem sai e quem entra, e testar compulsivamente todos. Mas esta democracia imperfeita não o permite. 
Vivemos tempos ocasionais, amplamente insuflados pelo momento pandémico com que temos de conviver. Faz-me lembrar outros tempos, cujos sinais de conflito, exacerbados pelo crescimento dos extremos, poderão levar a transformações sociais que marcarão a sociedade que conhecemos para muitos anos. The Great Debate, de Yuval Levin, publicado em 2014, pode-nos ajudar a compreender melhor o tempo pelo qual estamos a passar. Entre o liberalismo e reformismo de Edmund Burke e o radicalismo revolucionário de Thomas Paine, especialmente quando se refere aos ganhos da Revolução Francesa. A esta leitura, poderíamos acrescentar uma recente entrevista de Ai Weiwei ao Público. Ou ainda a referência à «explosão de ódio à liberdade no século XX» na obra de Friedrich Hayek, e qual foi a sua consequência para o espaço europeu e para o mundo.  Seria sempre mais fácil combater uma pandemia com menos liberdades individuais. Mas será melhor que o façamos da forma mais difícil. 

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Categorias: Opinião

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