25 de agosto de 2020

Megalomanias - porto das Lajes das Flores

 

Saiu há poucos dias a publicação de uma fotografia do projecto da reconstrução do porto das Lages das Flores destruído pelo furacão Lorenzo.
Daquilo que me foi dado observar, a reconstrução não se limita a repôr o que foi destruído. Vejo que também prevê a construção de um pontão de 140 metros de comprimento por 20 de largura, ampliando desta forma a capacidade de acostagem de navios para o triplo da anteriormente verificada.
O cais principal, também com 140 metros de comprimento, mas com 50 metros de largura, terá uma profundidade de - 9, enquanto o pontão terá apenas -7.
Cabe aqui perguntar sem meias palavras e sem qualquer sentimento bairrista:- será assim tão necessário um aumento desmesurado daquele porto?
Desconheço quais são os planos que este governo regional tem para a ilha das Flores, mas, ao avaliar pelo que está projectado, julgo que deve ser qualquer coisa de fabuloso, para não dizer fantasioso.
É que, gastar 180 milhões de euros num porto que servirá apenas uma população de 4.000 pessoas (os últimos censos apresentavam 3.791 residentes) só acontece em países “podres de ricos”, o que, obviamente, não é o que acontece nesta Região.
Adentro portas, todos nós sabemos que não é a primeira vez que um governo socialista demonstra megalomania na construção de edifícios públicos. Os exemplos vão desde escolas a cadeias, passando pelos hospitais, cais de cruzeiros, etc.
Se considerarmos o custo total da obra – sem levar em linha de conta os trabalhos a mais que sempre acontecem, estando até previstos na lei - e dividirmos os 180 milhões pela quantidade de florentinos acima referida, chega-se à escandalosa cifra de cerca de 45.000 euros por cada residente.
É ponto assente que os florentinos têm direito a ver o seu porto reconstruído; mas, uma coisa é reconstruir aquele porto o mais breve possível para a normalização da vida da população daquela ilha, outra, bem diferente, é fazer o que ali está projectado.
Mesmo que a população das Flores cresça para o dobro, ou mesmo para o triplo, nos próximos 10 anos, mesmo assim, o investimento por habitante seria da ordem dos 15.000 euros. 
Em boa verdade, uma Região que anda sempre de mão estendida, ora à República ora à Europa, não pode estar a gastar valores “faraónicos” como aquele que agora veio a público.
Em matéria de transportes marítimos, em minha opinião, os sucessivos governos socialistas, através da “sua” Atlânticoline, acentuaram as diferenças entre os três grupos que compõem estas ilhas.
Se olharmos para a realidade dos factos, deparamo-nos que no chamado Grupo Central, os transportes marítimos funcionam perfeitamente e diariamente entre aquelas cinco ilhas indiferentes aos custos que isso acarreta e que é pago pelos habitantes das 9 ilhas.
Se assim não fosse, cairia o Carmo e a Trindade e os órgãos de comunicação social não falariam de outra coisa enquanto não fosse restabelecida a normalidade (deles, entenda-se). 
Por outro lado os habitantes, tanto do Grupo Ocidental, como do Grupo Oriental, apesar de também custearemos transportes dos outros (Grupo Central) não beneficiam das mesmas facilidades.
É caso para dizer que, para os governos socialistas, em matéria de transporte marítimo de passageiros, quem conta é o Grupo Central com cerca de 90.000 habitantes, secundarizando, ou mesmo ignorando, os restantes 155.000 das outras quatro ilhas.
Voltando à reconstrução do porto das Lages das Flores sou da opinião que o projecto deveria ser revisto limitando-se a reconstruir o que o Lorenzo deitou abaixo e deixarem-se de megalomanias.
Se, o antigo porto da Lages da Flores servia bem a população, só pecando pela fraca frequência de navios àquela ilha, não vejo grande motivo para que se aumente a capacidade de acostagem como está previsto no novo projecto.
Que se utilize o dinheiro na melhoria da frota que serve aquela ilha e, por tabela, a ilha do Corvo.
Deixem-se de megalomanias!
 

P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
23AGO2020
 

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Categorias: Opinião

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