21 de agosto de 2020

Do tempo que passa e não volta

 A Bielorrússia é um país com uma população semelhante à portuguesa, cujo território fazia parte da extinta URSS. Entalado entre outros territórios maiores em dimensão territorial, económica e representação europeia, em particular a Ucrânia, a Polónia e, mais a leste, a Rússia, tem a norte do país, as nações do báltico – Estónia, Letónia e Lituânia – cujos povos representam números mais modestos. Em comum, todos eles têm um passado como repúblicas socialistas soviéticas. Após 1991, os caminhos que os vários territórios têm seguido têm tido pouco em comum. 
Para mitigar a implosão do conjunto de estados soviéticos, a Rússia criou a Comunidade de Estados Independentes (CEI), pela mão do seu primeiro presidente após o colapso, Boris Ieltsin, tentando manter na sua órbita os territórios que, entretanto, tinham avançado no sentido da independência de Moscovo e da autodeterminação nacional e territorial. Junta dez países, e integra acordos comuns, fundamentalmente ao nível da segurança e economia. No fundo, à imagem do que acontecia antes de 1991, acaba por ser, apesar da muito menor influência e representatividade dos povos, um bloqueio ao avanço da OTAN – em termos de segurança – e da União Europeia, no que às questões económicas e de integração diz respeito. Apesar da diminuição do seu poderio bélico, monetário e económico, a atração da Rússia manifesta-se, agora, nesta Comunidade de estados. 
Alguns dos antigos membros do espaço soviético, são há anos membros da comunidade europeia. Estónia, Letónia e Lituânia são-no desde 2004, o que nunca foi bem acolhido pela pátria de Lenine. No mesmo ano, mais cinco antigas repúblicas socialistas aderiram ao mesmo projeto que, com as suas insuficiências e erros, é o mais amplo espaço de liberdade, direitos sociais e garantias. Outros três países fizeram-no mais tarde, entre 2007 e 2013. A orientação liberal das democracias ocidentais foi sempre um ponto de discórdia com os países da extinta Cortina de Ferro, assente, pelo menos teoricamente, nos preceitos filosóficos e históricos do marxismo-leninismo. A Bielorrússia tem-se mantido à margem do processo de expansão europeu. 
O regime bielorrusso parece ser o que tipicamente de designa como um regime autoritário, sem liberdade política, mas com polícia política, cuja função é reprimir ou desclassificar oponentes ou quaisquer um que entenda desafiar quem detém o poder. O poder não é do povo, é de quem o exerce. Alexander Lukashenko governa o país há muitos anos, mas não é esse o facto decisivo. Não se conhecem outros partidos políticos legalmente constituídos para além daquele em que o presidente milita. Qualquer desafiador, um pouco à imagem do exemplo venezuelano, é acusado de um qualquer delito, como corrupção, pornografia ou, até, homossexualidade. A este propósito, o líder bielorrusso chegou a referir, em 2012, em resposta às críticas que um político alemão lhe fez, que seria «melhor ser ditador do que gay». Para variar, as instituições do país consideram algumas candidaturas “não conformes”. Faz lembrar Humberto Delgado.  O resultado está sempre antecipadamente correto. É como apostar sempre no cavalo que vai ganhar. Ou na equipa que ganha sempre. Não tem como enganar.
O cansaço das restrições e a gestão da pandemia, à imagem do que fez Bolsonaro, parecem ter dado coragem ao povo e aos trabalhadores para que se manifestassem na rua como nunca antes o tinham feito. O resultado eleitoral falseado terá feito o resto. Na obra Il Principe, alude Niccolò Machiavelli que «está na natureza dos homens sentirem-se obrigados tanto pelos favores que fazem como por aqueles que recebem». Os bielorrussos parecem já não dever qualquer favor a Lukashenko.

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Categorias: Opinião

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