Opinião de Carlos Pavão, açoriano, professor universitário na Georgia State University, na School of Public Health

Há semelhanças entre o novo coronavírus e o VIH Sida que, sendo vírus e doenças diferentes, causam ambos o medo, estigma e preconceito

Carlos Pavão nasceu na ilha de São Miguel mas pouco depois da “Revolução dos Cravos” acabou por partir rumo aos Estados Unidos da América com os pais, mais concretamente para a cidade de Fall River, quando tinha apenas sete anos de idade, acabando assim por se inserir numa comunidade repleta de açorianos e que o fez sentir que nunca tinha de facto deixado a ilha onde nasceu.
Em 1993 formara-se em Antropologia e História, mas com o passar do tempo, ao se aperceber das dificuldades e barreiras que a comunidade na qual se inseria tem ainda hoje que enfrentar, foi crescendo o gosto pela saúde pública, área na qual se especializou mais recentemente.
Com a chegada do novo coronavírus, conforme explica nesta entrevista, as dificuldades sentidas pelas pequenas comunidades compostas por emigrantes são mais notórias, uma vez que parece não existir a preocupação de garantir que toda a população consiga entender as especificidades da doença e a sua seriedade.
No caso dos açorianos em concreto, conforme explica, parece existir a tendência para que todos sejam tratados como americanos nativos daquele continente, graças às semelhanças que existem ao nível étnico, o que na prática se traduz em graves falhas de comunicação e num pobre entendimento da população sobre estas matérias.
Em acréscimo, Carlos Pavão enfatiza ainda as semelhanças que existem entre o novo coronavírus e o VIH Sida, pois embora sejam vírus diferentes que provocam doenças diferentes, ambos causam medo, estigma e preconceito na população.
Para diminuir o nível de desinformação, defende que é necessário colocar a cultura de cada comunidade em primeiro lugar, de forma a poder entender quer a forma de pensar, quer a saúde da própria pessoa, e defende também que é necessário falar sobre estes assuntos de uma forma clara.

Correio dos Açores – Nasceu na ilha de São Miguel, no concelho da Povoação, como é que foi crescer em São Miguel e que memórias tem desses tempos?
Carlos Pavão: Nasci na Povoação, a minha mãe é natural da Vila do Nordeste e o meu pai é natural de São Roque. As minhas memórias de criança são associadas à cidade de Ponta Delgada. Lembro-me do Senhor Santo Cristo, lembro-me de ir para a escola, lembro-me das freiras que me batiam nas mãos, lembro-me dos meus amigos e tenho memórias agradáveis, era uma época muito boa.
Lembro-me de a escola ser muito diferente do que é aqui, de ser mais atrasada, mas tenho também memórias das visitas de estudo, lembro-me das Furnas, do Nordeste onde vivia a minha avó perto de um farol.

Quando é que a sua família decide emigrar para os Estados Unidos?
A emigração deu-se em 1977, tinha eu sete anos. Vivendo em Ponta Delgada, uma coisa de que me lembro bem foi em 1974 e 75, a revolução em Lisboa. Lembro-me da tropa, que era um instrumento do Governo de Salazar naquele tempo, e lembro-me de naquela noite estarmos todos atentos à rádio para percebermos o que se estava a passar em Lisboa.
Nós emigrámos um pouco depois disso, porque tínhamos uma tia nos Estados Unidos e ela acabou por nos fazer uma carta de chamada para irmos para lá, o que aconteceu em Novembro de 1977.

Quando se começa a interessar pela questão da Saúde Pública?
Eu fui criado em Massachusetts e, quer antigamente quer agora, na cidade em que cresci a cidade de Fall River, a maior parte da comunidade é açoriana. Por isso, quando a minha mãe ou o meu pai iam ao médico não tinham problemas em falar com o doutor, quando iam ao banco a mesma coisa porque todos falavam português, inclusive no supermercado, e tínhamos sempre comida portuguesa para comer em casa. É como se nunca saíssemos dos Açores.
O problema foi quando prossegui estudos para a universidade. Voltei e o meu pai estava doente, e foi a primeira vez que eu notei que os médicos e a saúde pública não tratavam um homem português como tal, tratavam-no como se fosse um americano.
Por um lado, o meu pai era mais português do que americano, mas os serviços de saúde não estavam conscientes disso. Uma pessoa que chega de outro país a Portugal, que venha da China, por exemplo, e que não encontre alguém que saiba falar com ela não vai encontrar também alguém que entenda a saúde e a cultura dele.
(…) Depois comecei a trabalhar no Portuguese Youth Cultural Organization (PYCO) onde a maior parte das pessoas que lá ia pe dir apoio, fosse para a área da saúde ou para questões sociais, era mais de idade e não tinha ninguém em casa que pudesse ajudá-los. Enquanto nos Açores, por exemplo, podemos ir a um banco ou a um supermercado e se falarmos português podemos ajudar uma pessoa porque entendemos a cultura portuguesa.

Sente que há discriminação em relação às comunidades que emigraram?
Os cabo-verdianos, por exemplo, vão para um médico e são logo tratados como pretos, mas eles não são pretos, são cabo-verdianos. É discriminação olhar para aquela pessoa pela cor dela e colocá-la de lado.
Os açorianos são logo vistos como brancos e podemos até ser incluídos no resto da população branca mas não temos os mesmos conhecimentos que os brancos que estão nos Estados Unidos há mais de 50 anos. É preciso ter em atenção a língua e a cultura da população.
Com os brasileiros acontece a mesma coisa, vêm para aqui e são vistos como latinos ou hispânicos, mas eles não são latinos ou hispânicos. Por um lado são, por outro não são. Temos que entender a cultura porque olhamos para a população mas não a vemos, (…) quando entendermos a cultura podemos também entender a saúde da população, seja ela brasileira ou cabo-verdiana.
(…) Os meus pais, por exemplo, entendem inglês, mas não o entendem bem. Para falar com eles sobre coisas técnicas de saúde eles não vão entender nada. Se vão ao médico o doutor deles é português, mas há população nos Estados Unidos que não tem possibilidade de ir a um supermercado dentro da sua comunidade onde se fale português.
Entender um açoriano como um madeirense ou um continental não é a mesma coisa. Existem subtis diferenças culturais e linguísticas ou semânticas.
(…) Há uns anos tive que ser operado ao coração e no hospital disse que queria falar com alguém que fosse português e não espanhol, mas quando acordei da operação estava lá uma mulher a falar com a minha mãe em espanhol. Isto não é certo. A minha mãe estava contente por um lado, mas isto não é a maneira de trabalhar ou prestar serviços médicos às pessoas.
Entretanto está actualmente a escrever um livro sobre estas questões. Fale-nos mais sobre isso.
Estou agora a escrever um livro que será lançado no ano que vem, e que pretende revisar a literatura de saúde pública escrita sobre a comunidade portuguesa nos Estados Unidos, uma vez que a saúde é uma área que não tem um grande foco.
O que fazemos aqui nos Estados Unidos é estudar a língua, a cultura e a história, queremos saber como é que os portugueses vão para a escola mas relacionada com a saúde não há muita informação.
O coronavírus é uma das áreas em que estou mais interessado porque estou a ver que há muitos açorianos que têm medo e que não entendem o que está a acontecer. A minha mãe, por exemplo, está em casa e através da televisão consegue entender o que acontece em Portugal ou no Brasil, mas em relação ao que se passa nos Estados Unidos já não entende porque se ela não fala bem inglês não pode entender bem o que está a acontecer com o novo coronavírus.

Que problemas destaca actualmente nesse sentido?
Por um lado, o que estou a ver é que as pessoas com mais idade estão a morrer porque a nossa comunidade não está a entender a importância da saúde e até da saúde mental, do abuso do álcool, da violência doméstica ou da Sida. São muitas coisas que é preciso falar e estudar dentro da nossa comunidade.
(…) Para além disso, há falta de dados. Nós não sabemos quantos portugueses estão a morrer de problemas de coração, de diabetes ou de problemas do foro da saúde mental porque somos todos vistos como brancos.Para as comunidades imigrantes portuguesas, se não temos dados de saúde, como sabemos se existem disparidades de saúde?
Temos media para ouvir as notícias e para entender o que está a acontecer, mas assume-se que todos estão a entender o que está a ser dito, o que não acontece. E a isso chama-se de literacia para a saúde.
Quando há alguma informação que é dita em português tem de haver uma maneira de dizer as coisas de modo a que mais pessoas entendam a informação. Mesmo que haja uma informação escrita em português, isso não significa que as pessoas entendam o que está escrito nessa mesma informação, o mesmo com uma entrevista no rádio.
Por isso não se trata apenas de fazer o livro ou de escrever sobre comunidades que falam português nos Estados Unidos, o que tem que acontecer é haver estas conversas para a comunidade entender que há este problema, porque se não falarmos não saberemos que há este problema.

Que dificuldades existem com Donald Trump no poder?
Por um lado, Trump ganhou a presidência quando era um homem de negócios e a nossa economia estava bem. Há muitos portugueses que deram o seu voto aos republicanos, conheço várias pessoas que o fizeram porque gostam da maneira como ele fala e por ser um homem de negócios. O problema é que Donald Trump não é um líder.
(…) Há portugueses na Florida, no Texas e noutros estados como em Geórgia, e quem está a sofrer é a população porque não entendem a ciência do vírus e da doença e querem só abrir a economia.
As pessoas que estão a sofrer e que vão continuar a sofrer são aquelas que não têm a capacidade para entender que esta doença é muito grave e muito séria. Há muitas pessoas que não estão a utilizar máscara e as pessoas entendem que têm o direito de fazerem o que quiserem fazer.

Uma vez que estudou crises de saúde pública como a dos anos 80, marcada pelo surgimento do VIH SIDA, que comparações faz com o surgimento do novo coronavírus?
Falei com uma colega recentemente sobre isso, perguntei-lhe se ela se lembrava de quando a Sida começou a ser falada nos anos 80, quando muitas pessoas tinham medo de fazer o teste para saber se tinham Sida e quando muitas pessoas tinham medo de tomar um remédio.
Ela disse que sim, e eu penso que agora com o novo coronavírus estamos a assistir à mesma coisa que aconteceu com as pessoas que tinham Sida. As pessoas têm medo de fazer um exame e há pessoas que já dizem que mesmo que haja uma vacina não a irão tomar.
Em comum com a Sida e o Coronavírus está o medo, o estigma e a discriminação. E temos outro problema, é que queremos fazer em seis meses ou num ano aquilo que em relação à Sida se demorou 30 anos a conseguir.
A doença é diferente, o vírus é diferente mas a atitude é a mesma. (…) Nos anos 80 as pessoas pensavam que a Sida não era grave, que poderiam ter relações sexuais desprotegidas e que poderiam não apanhar a doença.
Faltava e falta educação, entender a doença. Entender como o vírus trabalha e muitas pessoas ainda não entendem o que acontece com o novo coronavírus. A grande parte das pessoas que têm vindo a ser contagiadas com o novo coronavírus são mais novas, mas estamos a ver que quem tem coronavírus agora fica doente para o resto da sua vida, com problemas de pulmões ou outros. Com a Sida a mesma coisa.

Considera que também a comunidade LGBT é discriminada em relação ao acesso à informação no que diz respeito à saúde pública?
Mesmo para os brasileiros, os programas que tínhamos relacionados com a Sida eram todos em espanhol, não havia informação para os brasileiros, sendo que muitos dos que chegavam eram gays ou lésbicas.
Agora os portugueses começam a falar mais sobre estas questões ligadas à comunidade LGBT, mas antigamente era algo que se colocava para o lado devido ao estigma.
Ser LGBT é uma coisa que é real. (…) Tenho ainda família nos Açores e, por um lado, tenho medo que eles leiam que sou gay. Mas se estou a falar de estigmas relacionados com o novo coronavírus não posso ter receio de admitir este facto.
Isto é algo de que não falamos na nossa família e que acontece em muitas outras famílias. Há sempre uma vergonha e ainda se pensa que a orientação sexual pode ser uma doença.

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