9 de agosto de 2020

Crónica da Madeira

GABRIELA OLIVEIRA: A professora que pôs milhares de madeirenses a falar as línguas estrangeiras

“I jump of the bridge
and build my wings as fall down”

Às vezes, quando se procura traçar o perfil de uma pessoa não é tão fácil quanto se parece. Sobretudo quando essa pessoa transporta em si a versatilidade da vida, o talento e uma força inesgotável de energia e iniciativas. Falo de Gabriela Oliveira, a madeirense, que morre aos 81 anos, vítima de uma queda. A professora que pôs milhares de madeirenses a falar corretamente as línguas estrangeiras. Visionária, uma mulher avançada no tempo. Ela fundou, em 1977, a Academia de Línguas da Madeira – uma academia que presta à Região um serviço notável, na preparação de milhares de crianças, jovens, adultos no ensino das línguas. Graças à sua persistência, determinação e grande carga de amor Gabriela Oliveira mantém sob a sua eficiente direção a Academia, cuja qualidade de ensino é referenciada como excelente.
Vivendo intensamente para a instituição, tendo sempre como lema o enriquecimento humano e a qualidade de ensino, rodeia-se de um rol de professores qualificados, entre eles alguns estrangeiros. Ela consegue imprimir à escola um carácter muito próprio. Quer como professora, quer como diretora. Ela corre sempre atrás de técnicas inovadoras no ensino das línguas estrangeiras. Introduziu o ensino do português para estrangeiros. Viajou pelos diferentes países para participar em colóquios, seminários e conferências. Traz para a Madeira novos conhecimentos. Procura estimular os alunos a terminarem os cursos. A sua caminhada, pela elevação académica, é imparável.
Amada pelos alunos, reconhecem-lhe a nobreza da alma que se dava inteiramente aos outros.
Porque a sua competência e poder de iniciativa incomoda alguns dos seus colegas – aqueles a quem tinha dado a mão, montaram-lhe um sarilho, nesse estava subjacente a inveja. Um episódio que a magoa, mas não a derrota. Com a sua personalidade de grande senhora que era, ignora-os até porque ela sabe que a verdade triunfará sobre a mentira. Assim aconteceu. Os falsários reduziram-se ao silêncio.

Conheci a Gabriela quando ela tinha dez anos, mais nova do que eu quatro anos. Com os seus irmãos formámos um grupo de nadadores da praia da Barreirinha. Era um grupo divertido. O velho Faria, nadador e vigilante da praia, rabugento com os demais, achava-nos graça. Tratava-nos gentilmente. Foi ali que alicercei  a minha amizade com a Gabriela, que durou até agora.
Mais tarde, com os pais e irmãos, emigrou para a África do Sul. Ali permaneceram todos, à exceção da Gabriela que, aos 16 anos, se apaixona loucamente pelo José Manuel, um jovem de 19 anos. Casaram-se e durante 60 anos viveram uma maravilhosa história de amor. Tiveram dois filhos, Luís Guilherme e Paulo.
Com a sua visão esclarecida e espírito de dedicação total à causa que abraçou, ela chega à conclusão que é fundamental levar a Academia a todos; aquelas freguesias onde mais se fazia sentir a falta do ensino das línguas estrangeiras: Machico e Santa Cruz. Ali abre duas filiais. Em parceria chega ao Estreito de Câmara de Lobos, Ponta do Sol e Calheta. Realiza cursos intensivos de verão. Estabelece protocolos coma a Universidade de Cambridge, Instituto de Perúgia, Goeth Institut e ainda com institutos franceses e espanhóis.
A sua direção é incontestável, à qual imprimiu um cunho da sua personalidade multifacetada.
Generosa. Bati-lhe muitas vezes à porta, solicitando-lhe bolsas para alunos pobres. Com aquele sorriso que lhe iluminava o rosto e fazia brilhar os olhos, respondia-me sempre positivamente. O importante para ela, a única recompensa que ela pedia é que eles estudassem e não desistissem.
Jamais se recusou em colaborar em todas as iniciativas que ajudassem os outros.
Sempre elegante. Tinha um refinado gosto pela forma de vestir, de se apresentar aos outros. Os almoços na sua casa primavam por uma cozinha criativa e o requinte de bem receber os seus convidados. Tudo era tratado ao pormenor.
Não foi a Madeira que lhe deu prestígio. Foi ela que, com o seu dinamismo, visão esclarecida e trabalho, prestigiou a Madeira. Ela, ao empurrar a Academia para patamares internacionais, fez recair a atenção sobre a Madeira.
Os professores choram a sua morte e falam da sua diretora com muito carinho e grande admiração. Um dos seus colaboradores, referindo-se à diretora, a sua energia inesgotável e lucidez, disse:
“A sua memória irá sempre permanecer nos quadros que pintou, nas pessoas a quem ajudou nos momentos difíceis, nos que acolheu quando dela precisavam, nos que a tratavam mal e a quem optou sempre em perdoar. Também continuará a ecoar pelos corredores, gabinetes e salas de aula, a frase que tanto gostava de citar: I jump of the bridgeand build my wings as fall down”.
Milhares de alunos prestam-lhe homenagem em sinal de gratidão.
Para recordá-la em todos os momentos a sua Academia deveria ostentar o seu nome: Academia de Línguas da Madeira Gabriela Oliveira.
Platão disse: “Os mortos vivem sempre na memória dos vivos”.

 

 

 

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Categorias: Opinião

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