Amaya Sumpsi- Realizadora e Antropóloga está a fazer tese de mestrado e um filme

Os barcos que navegavam nos Açores eram uma décima ilha do arquipélago

Comecemos pelas apresentações…   
 Sou realizadora de cinema e mais tarde comecei a formar-me em antropologia, mais especificamente em antropologia visual, que no fundo é utilização do cinema para estudarmos as comunidades que nos propomos analisar e estudar. É uma espécie de disciplina no meio, entre o cinema e a antropologia. Eu morei nos Açores entre 2001 e 2005, em São Miguel e desde essa altura tenho uma ligação muito forte com as ilhas. O meu primeiro projecto foi um filme que eu fiz na comunidade do Porto Formoso, “Meu pescador, meu velho”. Foi um filme que até teve bastante circulação e que inicialmente foi feito de forma bastante caseira, com uma câmara apenas. Eu e o meu companheiro não tivemos qualquer apoio e fizemos por nossa conta, mas acabou por correr muito bem e foi estreado no Porto formoso. 

Esse filme levou algum tempo a ser concluído, porquê?
Comecei a filmar e fiquei bloqueada. Foi ai que decidi estudar antropologia. Esse filme transformou-se depois numa tese de mestrado e a esta tese ganhou um prémio de investigação em estudos do mar no Museu Marítimo de Ílhavo e o filme ganhou também vários prémios. Esse foi o meu primeiro grande filme que ficou bastante conhecido nos Açores e confesso que pensei que o próximo filme não iria ser nos Açores. Aliás queria mudar um bocado o tema, só que eu não consigo. Há sempre uma ligação qualquer aos Açores.

Porque é que achas que há essa ligação?
Criei laços de amizade muito fortes nos Açores e tanto é assim que até tenho uma casa aí e considero que parte da minha família está nos Açores. Considero que tenho aí os meus irmãos e avos adoptivos. Acaba por passar muito pela ligação humana ao local. 

Como é que alguém que nasceu em Madrid criou esta ligação tão forte com o mar?
Daí talvez essa minha obsessão pelo mar porque todo o trabalho que eu faço de antropologia e documentários até agora e mesmo que eu não queira, acaba por ir dar sempre aí, ao mar. Talvez tenha a ver com isso, com o facto de não ter tido contacto com o mar durante toda a minha infância.

Tu que vens de fora, o que é que pensas que o mar significa para os açorianos? 
Essa é talvez a minha grande pergunta na tese de doutoramento em que estou a trabalhar e que tem a ver com o filme que estou a preparar e a terminar agora. Há um provérbio que eu ouvi “o mar aproxima as terras que separa” e eu ouvi isto nos Açores. Será que o mar aproxima ou será que afasta? Como é que os açorianos percebem o mar nesta perspectiva da comunicação e do isolamento. É o que tenho estado a perguntar na minha tese e a tentar perceber. Normalmente a leitura que há nos Açores, a dos historiadores, dos sociólogos, a própria ‘Açorianidade’ de Vitorino Nemésio, está sempre ligada ao isolamento nos Açores. Há sempre uma ênfase no isolamento e na insularidade. Será que por nos termos focado sempre no isolamento nunca prestamos suficiente atenção à circulação intensa que de facto existia nos Açores entre ilhas, com os iates e as lanchas no Pico, com o “Arnel”, com o “Cedros”? Será que nunca se prestou suficiente atenção nesta circulação para enfatizar sempre o isolamento? Até que ponto esse isolamento era de facto assim? No Pacífico e no estudo antropológico das ilhas, eles têm um conceito que eu achei muito interessante que é o “Aquapelago”. Quando eles falam nisso, consideram uma unidade em que a terra e o mar têm o mesmo valor como espaço habitado. Para eles o mar não é um espaço vazio entre ilhas, é uma continuação da terra.

E nos Açores não?
Exacto. Porque é outro tipo de mar. É o Atlântico Alto, um mar duro. Veja bem, no primeiro trabalho foquei-me na Pesca. Agora estou a trabalhar o mar como espaço de comunicação. A abordagem é outra. Será que o mar é mesmo um vazio? É um espaço que não conta nos Açores? 
O mar é visto pelos açorianos mais como um obstáculo? Como uma barreira?
Mais como uma barreira do que uma estrada. Também tenho essa percepcção. 
 
Vamos falar um pouco desse novo trabalho. Como surgiu a ideia para este novo filme?
Antes de mais, este trabalho é uma tese de Doutoramento que tem uma componente académica que será escrita. Depois haverá um filme. Aliás tudo começou pelo filme. Em 2016 fiz uma viagem no “Santorini”, de São Miguel ao Pico, que demorou 16 horas. Nessa viagem comecei a reparar que os Açorianos traziam o piquenique, traziam sacos de cama, etc. Fiquei apaixonada por esse ambiente todo e a mal cheguei ao Pico liguei a minha produtora e disse-lhe que já tinha o meu próximo filme. Vou filmar a bordo do “Santorini”. A minha ideia inicial era fazer sobre o barco a percorrer as ilhas e o que lá se passava. Com as pessoas a cantar, a conversar e a conhecerem-se. Só que, quando eu comecei a falar deste projecto, os Açorianos começaram a dizer-me, não sabes como é que era antigamente quando não havia aviões e a verdade é que há muitas pessoas, de 60 ou 70 anos, que viveram numa época em que não existiam aviões e os jovens açorianos não têm noção do que isso significa. Sair de barco e demorar 8 dias para chegar a Lisboa. E foi aí que eu pensei que isto era uma parte da memória colectiva tão importante e à qual não se presta muita atenção. Quando se fala do mar ou se fala da biologia ou das pescas e da baleação. Mas não se fala nisto, da comunicação e do que significava o mar. Aí começaram a falar-me do “Carvalho Araújo”, do “Lima”, do “Santo Amaro”, do “Espírito Santo”, do “Terra Alta” e do “Navio Ponta Delgada”. Estes barcos faziam as 9 ilhas e eram viagens por vezes perigosas. 

Estes barcos eram essenciais para as comunidades…
Uma coisa engraçada é que as tripulações dos barcos eram conhecidas nas 9 ilhas. Uma senhora do Corvo falava-me do despenseiro Ferreira, que era do Ponta Delgada e estas tripulações eram muito importantes porque eram o elo destas ilhas para o mundo. Faziam favores e levavam medicamentos para a tia que estava em São Miguel ou documentos. Ou seja há toda uma dinâmica, todo um mundo que é quase como uma roda dentada. Há toda uma vivência ao redor destas viagens. Portanto o filme começou sendo só uma coisa sobe o presente. Continua a existir a cena de eu fazer uma viagem no “Santorini”, isto aparece no filme, mas faço uma viagem temporal ao passado à procura destas memórias.

O filme teve algum apoio institucional?
Nós conseguimos inicialmente um apoio da Direcção Regional da Cultura que foi a primeira a apoiar-nos. A Atlanticoline foi sempre muito aberta connosco e permitiu-nos andar nos barcos e ajudou-nos nesse sentido. A RTP Açores apoiou-nos com os arquivos que foram muito importantes e agora, há um ano, ganhamos um grande apoio do Instituo de Cinema Português para a finalização. Neste momento estamos a finalizar. O documentário vai ter aproximadamente 80 minutos e acho que está a ficar muito bonito. Tenho muita vontade de o mostrar. Comecei em 2016, estamos em 2020. São 4 anos de trabalho. Foi a primeira vez que ganhamos um grande apoio financeiro e por isso vamos conseguir fazer um filme em melhores condições. 

Já existe data para a estreia?
Tive a sorte de encontrar pessoas maravilhosas nas 9 ilhas. Agora estamos na fase de voltar a falar com essas pessoas com quem conversámos para me assinarem a autorização. Agora é o trabalho final mas espero poder estrear em Janeiro de 2021, no princípio do próximo ano.  

Pode contar-nos algumas das histórias do filme?
Há muitas. Tenho mais de 70 horas de filmagens. Por exemplo, encontrei uma pessoa nas Flores, um homem que deve ter mais ou menos 50 anos que se chama João Arnel e chama-se assim porque nasceu a bordo do “Arnel”. Isto é muito comum porque, nas Flores, quando eram partos complicados tinham de ir para fora e tinham de esperar 15 dias pelo barco. Aliás, o seu cartão de cidadão diz João Arnel e o lugar de nascimento são as coordenadas de gps aproximadas do sítio onde nasceu entre o Faial e as Flores. Quem fez o parto foi o próprio comandante que cortou o cordão umbilical. É uma história incrível e há muitas assim. Depois existem também histórias dos estudantes que iam estudar para Lisboa e Coimbra e em Setembro iam todos nos vapores. Eram viagens em que se começavam e acabavam namoros e em que a iniciação sexual se dava a bordo destes navios. Ou seja, estão completamente ligadas às memórias das pessoas. Há momentos muito importantes da vida destas pessoas que aconteceram a bordo destes navios

Isto são algumas histórias alegres, mas também há o outro lado, o dos momentos tristes?
Sim, também há muitas. O “Arnel que encalhou e onde morreram 27 pessoas. Houve viagens, por exemplo Graciosa/Terceira de 20 e tal horas e de todos os passageiros pensarem que iam morrer. Houve histórias de comandantes como o Armando Soares que foi um comandante do Ponta Delgada, que também falo no filme, e que parecia um Humphrey Bogart das ilhas. Era um homem que parecia saído dos filmes de Hollywood e é uma personagem que todas as ilhas conheciam e lembram-se deste comandante. Eu de repente descobri um mundo que não estava à espera. Estes barcos acabam por ser a décima ilha, porque é nestes barcos que muitas pessoas, mesmo da própria ilha, por exemplo das Flores, as de Santa Cruz nunca viam as das Lajes. Não existiam estradas e portanto o único momento onde se encontravam era nos barcos. Ou pessoas do Faial e do Pico. Acabava por ser um lugar de comunidade transitória. Mas era uma décima ilha. Tenho horas e horas de entrevistas e nunca acaba. As histórias são intermináveis. 

Estes barcos também eram muitas vezes a salvação destas pessoas?
Salvaram muitas, muitas vidas. Por exemplo a “Espalamaca” que ia sempre às 3 da manhã buscar doentes de urgência ao Pico ou a São Jorge, fossem quais fossem as condições do mar. Estamos a falar de marinheiros que são mesmo ‘lobos do mar’ e são todos do Pico. É engraçado que eles diziam que as tripulações destes vapores, destes barcos, os que eram de camas, de bar, a tripulação de tratar os passageiros eram de São Miguel, mas os tripulantes da Ponte eram do Pico, não há hipótese. Os homens do mar são do Pico. 
Muita gente não tem noção dessas ligações tão dificeis, mas que, por outro lado, com momentos de felicidade?
Grande parte do que me move para fazer isto é para lembrar as pessoas que num passado muito recente, e como dizia um entrevistado meu em Santa Maria, o meu mundo foi outro. Era outro mundo e estamos a falar de há 40 anos atrás. É engraçado que o Tomás Vieira do Pico dizia que nós agora vivemos mais isolados humanamente porque está cada um a viver no seu ‘Castelo’, cada um na sua casa. Agora temos as televisões, a internet e naquela altura estávamos no café, ou a conversar nos bancos da aldeia e da praça. Ele acha que agora vivemos mais isolados do que antigamente mesmo apesar de naquele tempo o isolamento ser mesmo a sério, ser mesmo físico. Sim um pouco do que me move é lembrar os jovens que há 40 anos atrás o mundo era outro. Hoje em dia se o barco falha uma semana e não chegam os produtos do supermercado, fica toda a gente aflita. Antigamente os barcos nas Flores e no Corvo ficavam 3 meses sem lá ir e ninguém se incomodava porque cada um tinha as suas terras e os seus cultivos. Nós vivemos muito mais dependentes agora.

Talvez também existisse outro sentido de comunidade?
Sim. Não havia tanta dependência do exterior. O isolamento era físico mas talvez não tanto psicológico. Enquanto agora o isolamento físico, apesar de não inteiramente, está ultrapassado com os aviões mas a verdade é que falta este sentido de comunidade e este sentido de autossuficiência. Muitos entrevistados falam sobre isto. No avião vamos no vazio, vamos no ar e de repente aterramos noutra ilha. É rápido, não sentimos ligação nenhuma e é outro paradigma completamente diferente por isso, um dos títulos que ainda pensei para o filme foi “o meu mundo foi outro”. Neste momento o título do filme é “Entre Ilhas” porque é esse espaço entre as ilhas que eu procuro e estou a tentar tocar. Tenho muito interesse em partilhar e já propus também, como tenho tanto de material de arquivo, de entrevistas, fazer alguma exposição nos museus das ilhas porque cada ilha depois é uma realidade própria em relação às comunicações. Gostava de organizar algumas exposições porque acho que vale a pena.   
                                                  
                                                   Luís Lobão  

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima