2 de agosto de 2020

Crónica da Madeira

Portugal país pobre um país de contrastes

 

Quando tinha 7 anos, ouvia repetidas vezes dizerem que Portugal era um país pequeno e pobre e, por conseguinte, os portugueses eram naturalmente pobres. Desde então passaram-se 78 anos e estou na reta final da minha caminhada, com 85 anos e, tragicamente, continuo a ouvir dizer que Portugal é um país pobre e que a maioria do seu povo sente na boca o amargo da pobreza. 
À medida que os anos foram passando e eu adquiria mais conhecimentos e experiência da vida, comecei a questionar-me sobre as razões desta nossa pobreza, uma vez que as nossas fábricas de têxteis eram as melhores, os nossos artesãos criativos e os nossos agricultores eficientes, os nossos artistas com qualidade, etc., etc… Porque razão não aproveitamos todo o nosso universo humano organizando programas para exportação? Ajudando as empresas a se organizarem, adequando a produção às realidades dos outros países, invadindo-os, no bom sentido da palavra, com os nossos produtos eequilibrando a nossa balança comercial? Quando iniciei as minhas viagens, via produtos importados de alguns países menos de Portugal. Os portugueses, operários de excelência, emigraram e, com os calos das duas mãos e muito talento, ajudaram a construir muitas esquinas do mundo. Ajudaram a aumentar a economia dos países onde se fixaram. Despovoámos o país desta preciosa mão de obra e ficámos mais pobres.
A verdadeira razão desta espécie de “praga” de pobreza que nos acompanha há tantos anos reside fundamentalmente num país mal governado. Um país que não se estruturou convenientemente e não realizou programas sociais suficientemente abrangentes para dar desafogo de vida a uma população que continua, de certa forma, a alimentar-se de ignorância. Uma população submissa e estupidamente resignada.
Quando se compara Portugal a outros países pequenos como a Islândia, a Suíça, a Irlanda e até Malta verificamos que estes países com economias equilibradas, organizaram-se com programas sociais que beneficiaram as suas populações.
Portugal, país pequeno, com 10 milhões de habitantes e pobre, tornou-se também num país de corruptos, banca ao futebol, e passeia descaradamente pelas empresas públicas. Tudo feito com pompa e circunstância.
Não sendo a minha casa propriamente um Centro Social, batem-me à porta, todos os dias, pessoas com problemas dramáticos: falta de dinheiro para pagar a renda da casa, a luz, a água, para comprar alimentos e medicamentos. Casais com filhos, despedidos dos seus trabalhos e que de repente não conseguem encontrar soluções de sobrevivência. Gente idosa, com pensões miseráveis a quem os filhos recorrem para coabitarem, pois foram esvaziados das casas onde viviam. Gente deprimida, agora internada no “Trapiche” – Casa de Saúde João de Deus. Está claro que, como ser humanos não vivem em paz com esta situação degradante do seu semelhante. Situações idênticas a estas repetem-se, aos milhares, de norte a sul do país. E o que fazer?! O “Banco Alimentar”, a “Cáritas”, tantas outras associações católicas fazem das tripas coração para distribuírem produtos e refeições a um número cada vez mais considerável de utentes. Não só aos pobres; há uma classe média envergonhada que também recorre a estas instituições. Os portugueses são generosos, mas começam a escassear os mecenas.

Disparates:
Quando falo destas situações aflitivas, com algumas pessoas com meios, procurando tocar-lhes no coração, elas respondem-me: “tudo na vida tem solução.” É a resposta mais disparatada e faz-me lembrar uma expressão que algumas senhoras caritativas usavam no passado, em relação aos pobres: “Deus dá o frio conforme a roupa…”

Contrastes: 
Vejamos: um pobre mendigo que pedia uma esmola num parque de estacionamento foi preso, por esmolar. O Sr. Ricardo Adocicado, depois de trafulhar a banca, com os seus acólitos, pondo-a magicamente de “canelas para o ar”, passeia livremente. Não só trafulhou a banca como o país que sempre lhe rendeu homenagens à sua “inteligência brilhante”, de banqueiro altamente eficiente. O melhor da Europa. O resultado está à vista: lesou milhares de emigrantes que trabalharam uma vida inteira, para depositarem no banco “Espírito do Diabo” todas as suas economias. Compraram produtos inexistentes, na sua boa fé de cidadãos honestos. Agora muitos estão na miséria e os canalhas, à volta, desfrutam de uma boa vida, como se nada se tivesse acontecido…
O mesmo aconteceu com o BANIF, que desgraçou milhares de emigrantes. Segundo parece, o assunto está arrumado. Fez-se silêncio…
As famílias estão com fome. Não têm de comer. As pensões são miseráveis. Somos um país pobre.
O Sr. Vieirinha, presidente do Benfica, para salvar a sua própria pele, meteu-se num avião particular e foi ao Brasil buscar o Sr. Jesus para arrancar das trevas a equipa dos encarnados. Jesus, o Salvador, condecorado pela sua bravura, vai ganhar milhões. Honra lhe seja feita… se não arrancar da escuridão a equipa, será um dilúvio.
A Cristininha que de vez em quando rompe, gentilmente, os tímpanos dos espectadores, vai, felizmente, voltar a Casa Mãe, pois corria o perigo das paredes caírem. Ela salvá-la-á. A verdade é que arrasa audiências e isso justifica tudo. Bendita ignorância, porque do povo será o reino dos céus…
Dos milhões da TAP é melhor nem sequer falar. Nunca foi uma companhia saudável, financeiramente, porque nunca foi bem administrada, nem no tempo das arrogantes vedetas brasileiras. O que a TAP necessita é de administradores capazes, como os que têm a “Lufthansa” ou a “KLM”. Uma administração que conheça a fundo os problemas da aviação comercial. Dar-vos-ei um pequeno exemplo: à minha colaboradora que desejava viajar em Agosto, de Lisboa para o Funchal, a TAP pediu-lhe por um bilhete de ida e volta 550 euros. Um exagero! Ela adquiriu um bilhete na EasyJet LIS/FNC/LIS por 140 euros, com direito a mala de porão. Qual a razão porque umas companhias de aviação ganham dinheiro e outras não?! Sem comentários.
Levantou-se um grande temporal de corrupção na EDP. Ninguém é culpado. Foram os ventos do vendaval os causadores de tanta corrupção…
Felizmente que a Europa abriu os bolsos, depois de tantas incertezas e polémicas. Depois de tantas reuniões. A minha esperança é que Portugal se organize e aproveite convenientemente estes fundos, tornando o país menos pobre e as suas populações mais dignificadas. Que os programas de saúde, de assistência social, da ciência e tecnologia, da educação possam dar melhores condições de vida. Que impere a justiça social e que os idosos não morram nos lares, armazenados e esquecidos.
O governo vai ser posto à prova, se é ou não capaz. Tem de ser um governo imparcial, despido do partido e o olhar o país e os portugueses como um todo, de sul a norte; do interior às regiões autónomas.
Que estes fundos sirvam para salvar Portugal.

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Categorias: Opinião

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