2 de agosto de 2020

O fundador do Correio dos Açores e as ligações aéreas para as ilhas (1919-1937)

Pretendeu-se no presente trabalho refletir sobre a importância dos Açores nas relações transatlânticas no período entre as duas guerras mundiais, e mais particularmente sobre o seu papel na emergência da aviação civil no pós-Grande Guerra, complementando essa reflexão com o papel desempenhado por José Bruno Carreiro, sobretudo através do seu jornal Correio dos Açores, na defesa da autonomia administrativa para os Açores e do estabelecimento de ligações aéreas com estas ilhas, na convicção de tais ligações se traduzirem na aceleração do desenvolvimento do Arquipélago. 
No encadeamento de acontecimentos das décadas de 1920 e 1930, parece resultar, da matéria recolhida, o destaque da importância das experiências levadas a cabo pela aviação britânica, norte-americana, italiana, francesa e alemã nas nossas ilhas, bem como a conjugação dos interesses anglo-americanos para o estabelecimento de ligações aéreas transatlânticas com escala nos Açores. Ainda que, no fim da década de 1930, parecesse assente que era a aviação naval norte americana a ganhar o controlo do Atlântico, com o protagonismo dos Açores incluído, afigura-se adequado realçar os esforços dos próprios portugueses para concretizar as ligações aéreas paraas nossas ilhas, destacando-se, nesse empenho,  o voo do Fokker T-IIIW “Infante de Sagres” em 1926, a construção de um campo de aviação na Terceira em 1930 e os ensaios da frota de hidroaviões Junkers da Armada Portuguesa nos portos dos Açores em 1935.
É verdade que o isolamento diplomático do nosso país fez com que fosse recusada a possibilidade de ser a Inglaterra a construir, em 1918, uma primeira pista de aviação na Terceira, o mesmo sucedendo quando os franceses se propunham avançar com o Campo das Lajes em 1936. Essa aparente autosuficiência contrastava, no entanto, com a atávica dependência da economia portuguesa para investimentos com dimensão internacional. Assim, foi a circunstância de os cabos submarinos transatlânticos terem um ponto de amarração na Horta a facultar a entrada do Arquipélago na atualidade das comunicações. Tal salto na modernidade facilitou a navegação aérea no Atlântico Norte ao possibilitar o planeamento dos voos com previsões meteorológicas credíveis, após a criação de um observatório nos Açores, ligado aos centros meteorológicos mundiais como se fosse uma “sentinela”. 
Saído da crise mundial a que, não por acaso, se convencionou durante anos chamar Grande Guerra, o mundo distendeu-se num ímpeto de desenvolvimento, no qual o papel da aviação incipiente foi verdadeiramente notável. A base naval que os Estados Unidos haviam instalado em Ponta Delgada foi utilizada também para apoio logístico da primeira travessia aérea do Atlântico Norte, constituindo os dois factos – instalação da base naval e realização da travessia – marcos decisivos para que os Açores surgissem perante o mundo como um ponto de escala – que já era da navegação marítima e das comunicações por cabo submarino – incontornável entre os dois continentes, europeu e americano. A expressão de Walter Lippman tinha particular reflexo quando pensada nos Açores: “Comunidade Atlântica”.
A exploração do espaço aéreo começou então por ser, nas décadas de 20 e 30 do século XX, a transição das ligações marítimas para as aéreas, pelo que a indústria aeronáutica encontrou na travessia do Atlântico o maior dos seus desafios.
No desenvolvimento dessas décadas de 1920 e 1930 – a situação geográfica dos Açores foi determinante para a aviação emergente: a aviação naval precisou de estudar as condições destas ilhas, da meteorologia à oceanografia, das condições de navegação e sobrevoo às facilidades utilizáveis para apoio e escala. A passagem do Zeppelin sobre a Terceira em 1924; o  voo do Fokker “Infante de Sagres” da nossa Marinha de Guerra em 1926, pilotado por Moreira de Campos e Neves Ferreira; a exibição do Savoia-Marchetti da Armada Italiana, comandado por De Pinedo em 1927; o desastre do Amiot 123 polaco na Graciosa em 1929; a construção da pista da Achada, na Terceira, em 1930; a escala do Do-X na Horta em 1932; a passagem espetacular da esquadrilha de Balbo pela Horta e Ponta Delgada em 1933; os estudos de Charles Lindbergh nos Açores também em 1933; as missões de Louis Castex em 1935-36; os ensaios alemães de voos catapultados, e os primeiros voos comerciais transatlânticos efetuados pelos Clippers da PanAmerican através do porto da Horta desde 1937: -  o mundo a transformar-se, a relativizar as distâncias entre continentes, e os Açores a fazer parte desse novo mundo.
A fundação do Correio dos Açores em 1920, por José Bruno Carreiro e Francisco Luís Tavares, ocorreu no contexto de renovação da imprensa portuguesa e o seu papel no apoio ao desenvolvimento dos Açores, entendendo o seu potencial turístico como uma motivação essencial para o crescimento da aviação civil, foi complementado pela credibilidade do seu papel de interlocutor, que trouxe para as páginas do jornal o tema da insularidade, nele envolvendo a imprensa madeirense e continental, e o conceito da açorianidade, criado por Vitorino Nemésio e desenvolvido por Luís Ribeiro, num clima de cumplicidade entre ilhas e arquipélagos que estava por explorar até então.
Em 1918, na visão de José Medeiros Ferreira, estavam reunidas as condições estratégicas, políticas e internacionais para o aparecimento de personalidades que, nos Açores, tivessem consciência e protagonizassem um papel de definição de objetivos endógenos ao Arquipélago. José Bruno Carreiro será uma dessas personalidades.
Para além das fontes impressas, o espólio e arquivo Tavares Carreiro, tornado público em fins de 2016, enriquece a informação sobre aviação entre as duas guerras mundiais, designadamente através da correspondência de José Bruno com José Agostinho, com Francisco Aragão, com os SAP- Serviços Aéreos Portugueses e os fabricantes Junkers, e ainda com a agência de informação americana UP -United PressInternational.
A aviação veio contribuir para aproximar os dois continentes, Europa e América. Nas palavras de José Medeiros Ferreira, a Marinha descobriu a importância dos Açores, a Aviação iria desenvolvê-la. O Atlântico, como um lago interior, em vez de uma fronteira, segundo Walter Lippman.
Os Açores tinham constituído, nas décadas de 1920 e 1930, pontos de escala para as travessias aéreas pioneiras no Atlântico. Em 1939, iniciar-se-ia a primeira ligação regular da América com o sul da Europa, via Açores. Seríamos, durante a II Guerra Mundial, nas palavras de António J. Telo, um pilar na grande ponte aérea entre quatro continentes, uma escala impensável pouco antes e que só os EUA têm meios para organizar. 
Tornar-se-iam, estas Ilhas, o porta-aviões fixo do Atlântico, tal como previra José Agostinho no artigo “Os Açores na futura guerra”, publicado em 17 de maio de 1928 no jornal República, de Angra do Heroísmo, e reproduzido dez dias depois, no Correio dos Açores de 27 de maio, com o título “Os Açores devem ser uma esquadra estacionada em pleno Atlântico”. 
“Porta-aviões” ou “esquadra”, a projetar mobilidade e poder aéreo entre as suas duas margens: de um ponto de vista técnico, os Açores tornam-se um centro vital nas comunicações aéreas. Pode-se mesmo dizer que, a partir de 1942, e até 1949/50, são o mais importante ponto isolado do mundo nesta perspetiva. Palavras de António J. Telo.
Como explica Luís Andrade, o que veio a estar na base do convite feito a Portugal para ser membro da Aliança Atlântica, em abril de 1949, foi a importância geoestratégica dos Açores.
Ou, na perspetiva exposta por Carlos Amaral: o arquipélago açoriano e, nele, as facilidades concedidas aos Estados Unidos, imprimem ao nosso país uma projeção atlântica e internacional que ultrapassa em muito aquela que a sua dimensão geográfica estritamente continental faria prever.

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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