28 de julho de 2020

Sua excelência o senhor director

Qualquer que seja o funcionário, desde uma presidência à mais humilde das categorias de qualquer organismo, independentemente de o cargo ser de carreira, convidado, ou em resultado de acto eleitoral, esse funcionário, é um servidor do povo.
O funcionário tem de ter presente que, são os eleitores e o povo em geral que, com os seus descontos e impostos, lhe garantem o ordenado ao final de cada mês, acrescido de todas as outras benesses que possa usufruir ao abrigo do contrato de trabalho ou de legislação específica.
Assim, eu entendo que, desde a Presidência da República, até ao assalariado mais humilde de qualquer Junta de Freguesia, quem exerce o cargo tem de fazê-lo com respeito pelo povo que serve.
Sei perfeitamente que, quando alguém exerce a sua função com relevo e competência, poderá pensar que é o melhor na sua área e, por via disso, pavonear-se pelos sucessos obtidos.
Mas uma coisa é ser-se “pavão”, outra bem diferente, é dizer que é ele quem manda e ponto final.
Como o leitor já deve ter percebido, estou a referir-me ao Director Regional de Saúde que, apesar de ter feito um bom trabalho durante o período mais agudo da pandemia, isso não lhe confere quaisquer poderes ditatoriais, como parece ter acontecido um dia destes, a ser verdade o que veio a público no “Correio Económico” da passada sexta-feira.
O senhor Director Regional da Saúde não se deve esquecer que é um funcionário público da área da saúde, colocado na Secretaria Regional da Saúde. Por outras palavras, o senhor Director é, hierarquicamente falando, um subalterno da Secretária Regional da Saúde, a quem deve lhaneza e respeito no trato.
O “desaguisado” havido entre a Autoridade Regional de Saúde e o Grupo Desportivo Comercial, organizador do Rally Açores, que parece ter levado o senhor Enfermeiro Tiago Lopes na qualidade de Director Regional de Saúde dizer – a Autoridade de Saúde sou eu (qual Luís XIV de França ao afirmar o Estado sou eu) – seria, em minha opinião, motivo para ser posto no “olho da rua” se tivéssemos um governo à altura; apesar de, como acima escrevi, ele ter feito um relevante trabalho no período crítico da pandemia.
Se o Grupo Desportivo Comercial disse, publicamente, que já tinha autorização da Secretaria Regional da Saúde para a realização do evento, desde que cumprisse as orientações exigidas pela Autoridade Regional de Saúde, o que deveria ter sido feito, de imediato, era a análise dos documentos enviados pelo GDC para que fosse possível cumprir com os prazos definidos pelas instâncias internacionais. Nunca por nunca, puxar dos “galões” ou estrelas que o cargo lhe confere.
É que o Azores Rally não é um evento qualquer. Economicamente é um evento que traz a S. Miguel, bem como aos Açores em geral, largas centenas de milhares de euros em receitas, senão mesmo, alguns milhões.
Vir para a televisão argumentar que os documentos estavam em análise e que se estava a contactar isto e aquilo são, em minha opinião, desculpas sem nexo e demonstração de uma certa “tirania” de pensamento.
Afora os bons desempenhos feitos de início, o Director Regional de Saúde tem feito alguns disparates com exigências ridículas tais como:- quem estiver num restaurante não pode estar de máscara porque tem de comer, mas, se de permeio tiver de ir aos lavabos, já tem que “afivelar” a máscara. Na praia, quem estiver dentro de água, ou mesmo em terra, tem de se distanciar metro e meio, todavia, quando utilizar chapéu-de-sol, a distância altera para 3 metros; se, entretanto, quiser fazer xixi, tem de levar máscara para os sanitários, normalmente vazios. Poderão alegar que são medidas a nível nacional. Aqui pergunto:- Mas afinal quem manda?
Isto para já não falar na obrigatoriedade de uso constante de máscara em estabelecimentos comerciais, mesmo nos casos onde haja protecção com acrílico para separação do público e empregado.
Quando se dão orientações, ou se legisla, há que se pensar nos prós e nos contras dessas mesmas orientações, principalmente em matéria de saúde. Porém, não se deve exagerar.
A menos que se queira, por objectivos inconfessados, perpetuar a cultura do medo. Se essas orientações não tivessem consequências sociais e económicas, não seria muito grave. Infelizmente, as consequências estão a ser muito graves. Que o diga mos sectores do turismo e restauração. Já há gente sem trabalho e a passar fome.
Pelo menos aqui em S. Miguel.
                P. S. Texto escrito pela antiga grafia.
                26 de Julho de 2020

 

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Categorias: Opinião

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