19 de julho de 2020

Audácia e ambição

1 - O mês de Julho já vai a meio e a esperança que havia quanto à retoma da actividade turística nos Açores está a esfumar-se. Os hotéis continuam vazios e alguns estão encerrados. Duas companhias aéreas acabaram por cancelar os voos que tinham previsto iniciar este mês. O alojamento local está sem reservas capazes para se sustentar e a restauração sem turistas e sem locais que pudessem, pelo menos, equilibrar a exploração, isto para além de cerca de cinco mil viaturas de aluguer estarem a aguardar clientes.
2 -  Falamos de um sector que teve um crescimento fulminante desde a liberalização do espaço aéreo dos Açores em 2014, ano em que os proveitos turísticos rondavam os 40 milhões de euros, com um milhão e duzentas mil dormidas. Cinco anos depois as dormidas atingiram os três milhões e os proveitos chegaram aos 100 milhões de euros. 
3 - É obvio que a população flutuante também representou uma mais-valia para a agricultura e pescas, assim como serviu para criar um conjunto de pequenas e médias empresas ligadas aos serviços conexos com o turismo, sem esquecer o filão que representou para a recuperação urbana e para o mercado imobiliário.
4 - O impacto da crise que está instalada só não atingiu ainda foros de dramatismo no sector laboral porque os apoios oficiais têm servido de tampão ao desemprego em massa, contido que está pelas regras constantes daqueles apoios. Falta saber até quando assim será.
5 - Este cenário é realista e serve para se pensar se o modelo económico até agora seguido é o que serve a Região. Atrevemo-nos a dizer que não é.
6 - O Governo Regional durante a pandemia e no início do desconfinamento anunciou que iria apresentar um Plano de Recuperação,  Plano  que ainda não se conhece, mas que importa saber se vamos apostar tudo para manter o Turismo tal como a pandemia o encontrou, ou se vamos aprender com o desastre que ela provocou. 
7 - Falamos de um sector muitíssimo vulnerável, sujeito a modas e ao poder do marketing, razão pela qual são precisas cautelas que não existiram durante o crescimento, e inventar alternativas para o desenvolvimento económico.
8 - O Governo adiou, e bem, a aprovação do Plano de Ordenamento Turístico da Região Autónoma dos Açores, uma vez que ele deve ser pensado e moldado à luz do que nos ensina e indica a crise que o sector enfrenta. 
9 -  A Geotermia foi apresentada esta semana como “ a mina de ouro” dos Açores em termos de inovação e pioneirismo no combate às alterações climáticas, por se tratar de uma energia limpa, pioneirismo que vai prosseguir com um programa de investimento que audacioso para os próximos anos. 
10 - Apraz-nos registar a evolução que a Geotermia tem tido ao longo de 45 anos quer em São Miguel como na Terceira, só possível, porque perante os ataques infames feitos ao projecto e aos seus responsáveis directos, houve persistência e resiliência do poder político que conseguiu provar que, apesar da contestação, aquele era o caminho certo para o futuro.
11 -  A Geotermia tem subprodutos como a água quente e o vapor que se poderá aplicar com proveito noutros projectos. É o que se faz nos países que têm esse recurso e não são precisos longos estudos para os aplicar. 
12 - A mudança pós-pandemia que tanto se falou e ainda fala, passa por colocar no terreno o saber científico e tecnológico que a Região tem, aproveitando-se os recursos endógenos que possuímos  e reinventando a reindustrialização defendida pela União Europeia, à qual nos temos referido,  mas sem grande resposta, porque vivemos de expedientes e de facilitismos, importando o que se consome sem aproveitar o que temos, e produzir o que precisamos. 
13 - Não podemos depender do sector terciário que é importante, mas que é cíclico e não duradouro.
14 - Precisamos de audácia e de ambição, tal como aquela que tiveram há mais de cem anos atrás, os grandes empresários e industriais destas ilhas.
 

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Categorias: Editorial

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