11 de julho de 2020

Cesto da Gávea

Cartas de trunfo

Num jogo de cartas, ter uma carta de trunfo dá superioridade ao seu detentor, embora a vantagem seja relativa, porque o valor das cartas não é o mesmo e nos trunfos a hierarquia mantem-se. Mas um trunfo é uma arma importante, porque se sobrepõe a todas as que não o sejam, ainda que seja melhor ter um ás do que um rei de trunfo, ou uma dama que um valete. Nos jogos da política, a posse de cartas valiosas disponíveis para construir a vitória final, assume uma importância decisiva, o que em matérias fulcrais é objeto de dissimulação, não vá a cartada falhar. O efeito surpresa, num jogo de cartas simples como a sueca, ou num mais elaborado como o bridge, pode fazer a diferença, ainda mais quando associado a uma habilidosa capacidade de fazer “bluff”. Os ingleses são mestres nesta especialidade e a prova está na própria terminologia da linguística shakespeariana. Um trunfo, em inglês, é uma “trump card”, o que não deixa de ser interessante nas correlações linguístico-políticas. 
Correlacionando os comportamentos dos dois principais líderes anglo-saxónicos atualmente no Poder --e salvaguardadas as diferenças de qualidade discursiva entre Mr.Trump e Mr.Johnson – deduz-se facilmente que ambos são mestres no uso de trunfos, nomeadamente Mr.Trump, o “Sr.Trunfo” em tradução literal. Ora, no que respeita Mr. Trump e a sua ação face à mortífera progressão da pandemia nos EUA, as coisas não estão a correr nada bem, nomeadamente no meio dos eleitores afro-americanos, um eufemismo que inventaram para fazer esquecer a palavra “nigger”. Numa sondagem de dois organismos, a African American Research Collaborative e o NAACP, datada de há 1 mês, 80% dos afro-americanos davam classificação negativa a Trump, no que toca à forma desproporcionada como a Covid-19 os afetava. Apenas 11% pensavam votar nele, o que só poderá ter piorado, dada a desgraça que tem varrido os States e o modo ainda mais desgraçado como o Presidente Trump reage. Fiel ao seu nome, Trump tirou da cartola o primeiro trunfo: uma injeção brutal de 2,3 biliões de dólares para ajudas de emergência, aprovadas pelo Congresso ao abrigo do PPP-Paycheck Protection Program, destinadas a pagar salários e salvar empregos. Até aqui, tudo bem, salvo que rapidamente se descobriu que uma boa dezena das empresas que mais receberam, tinham ligações, diretas ou indiretas, com “pelo menos 7 legisladores republicanos, 1 democrata e 3 grupos congressionais, 2 dos quais estão ligados a democratas”(Cf. Newsweek, edição digital/6.jul.2020). Descrevendo ao pormenor as empresas e os elevados valores recebidos, bem como os nomes dos congressistas e senadores envolvidos, o articulista Ramsey Touchberry divulga apoios financeiros entre 350.000 e 1 milhão de USD para 20 empregados de uma empresa de navegação, ou de 1 milhão a 2 milhões para 220 funcionários duma companhia gestora de conhecidos restaurantes. Acenando ao mundo afro-hispânico, saem para cada um dos respetivos “caucuses” do Congresso entre 350.000 e 1 milhão USD para 18 funcionários (Black Caucus) e 45 empregados (Hispanic Institute). 
Tendo o panorama das sondagens para as presidenciais dos Estados Unidos vindo a oscilar consoante o desenvolvimento da pandemia, mostrando uma tendência para penalizar a recandidatura de Donald Trump, qualquer movimento que lese o campo democrata e o candidato Joe Biden deve ser dissecado atentamente. Um estudo de há dias, reunindo as tendências de voto em 39 Estados americanos, dá vantagem a Biden em 25 deles. A média nacional concede 49% a Biden e 40% a Trump, com 11% de indecisos. Parece um indicador desfavorável ao atual residente na Casa Branca, mas todos sabemos que ainda faltam 4 meses para a eleição e tudo pode acontecer, especialmente no voto étnico. É aqui que a declaração de candidatura do famoso rapper Kanye West, tweeterizada na celebração do 4 de Julho, veio agitar as águas e, aparentemente, baralhar os trunfos. Para já, incendiou as redes sociais, ou não fosse West casado com a modelo e socialite Kim Kardashian, rica duns 900 milhões de dólares. 
Pouca coisa para o rapper, com uma fortuna avaliada em 1,3 mil milhões de dólares, em grande parte devido à marca de sneakers Yeezy (sapatilhas de ténis, para o vulgo). Com o apoio imediato de Elon Musk, o dono da Tesla e da SpaceX, empresas diletas da Administração Trump, a entrada de Kanye West na corrida presidencial levanta suspeitas, até porque é acompanhada de elogios dúbios ao amigo Presidente Trump. 
A mim, que desconfio visceralmente de gente com pouca seriedade, lembra-me uma “lebre” posta a correr para atrair o “black vote”, minando a candidatura de Joe Biden. Será mais uma “trump card” no show-off  e o prémio poderá ser levar o rapper à vice-presidência, após desistência a favor de Trump. Já vimos pior.  

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Categorias: Opinião

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