11 de julho de 2020

Tecnologia, homem e mundo

Os Tempos Modernos e a democracia liberal

 A historiadora Maria de Fátima Bonifácio identificou recentemente como “O calcanhar da democracia” (Observador, 07/06/2020) o facto de este regime “não [poder] fornecer uma razão ou um sentido para a vida de cada um”. Entretanto, segundo Vaclav Havel (mencionado pela autora), “a nossa sujeição aos ‘valores’ de uma civilização puramente técnica faz de nós seres alienados, carentes de qualquer coisa que não sabemos nomear”. Essa carência poderá levar muitos a desgostarem-se da democracia.
Partilho várias ideias apresentadas ou sugeridas nesse texto. Mas não de imediato uma derivação (que Bonifácio também não afirma) do atual enfraquecimento da democracia em parte na base de uma civilização puramente técnica.
Esta cautela parece-me sugerida pelo desfecho afinal trágico, e até historicamente erróneo, da que talvez seja a mais célebre ilustração dessa civilização: o filme Tempos Modernos (1936) de Charles Chaplin. Conta a história de um operário que se reduz a peça da grande máquina que é não só a fábrica onde trabalha, mas mesmo toda a sociedade capitalista. Da qual ele apenas se salva mediante o amor, restando todavia o casal à margem de quaisquer condições não só de conforto mas mesmo de alguma garantia de sobrevivência. Ora foi precisamente nessa sociedade tecnológica, capitalista e liberal, e mediante ações políticas como algumas de que esse personagem teria inadvertidamente participado, que nessa época se estava conseguindo limitar a referida redução alienante (com o horário máximo de trabalho, o salário mínimo, etc.).
O percurso teórico de Karl Jaspers dá melhor conta dessa relação entre tecnologia, alienação e democracia. Cinco anos antes do filme de Chaplin, este filósofo e psiquiatra tinha chamado “o Aparato” àquela organização do trabalho, e de toda a sociedade, em ordem à produção em massa. A qual alienaria as pessoas, quer por estas se constituírem como meras peças de uma grande máquina, quer por restarem desligadas de produtos em série sem caraterísticas singulares.
Esse processo alimentar-se-ia a si próprio: a tecnologia permite a vida a mais pessoas, este aumento requer maior produção económica, a qual requer mais tecnologia e organização, que permitem um novo aumento demográfico… Jaspers chamou a este poder descontrolado da tecnologia, e o seu controlo sobre o homem, um “demonismo”. 
Já depois da II Guerra Mundial, porém, o filósofo alemão passou a salientar que a tecnologia não estabelece os fins para que é usada. Ela será neutra em relação a esses últimos. De forma que serão sempre as pessoas e as sociedades que invocam ou que soltam o demónio tecnológico.
Nesta coluna teremos ocasião de reconhecer que essa neutralidade não é completa. Mas, pela parte que se verifique, devemos considerar a tese de Jaspers de que só a preservação de direitos individuais e de um espaço de discussão pública livre, próprios à democracia liberal, poderão controlar o aparato tecnológico.
Será assim o enfraquecimento da democracia que poderá abrir a porta a uma civilização técnica que faça de nós seres alienados, e não o processosimétrico. Pelo que quem se preocupa com essa civilização deverá zelar pelas instituições democráticas.

Miguel Soares de Albergaria
 

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima