11 de julho de 2020

Os grandes futebolistas do Santa Clara do meu tempo de jogador de futebol-IV

Floriano Machado - a máquina voadora

O Floriano jogou varias épocas comigo no Santa Clara como extremo-direito.
As principais características dele eram as seguintes:
Era um jogador de média estatura, a tender para o franzino, ágil, sabendo evitar o choque e fugir rapidamente aos adversários, com sentido apurado de desmarcação.
As duas características, que do meu ponto de vista, eram nele predominantes enquanto jogador, eram a velocidade e a inteligência; era o extremo puro; quando a bola era metida no espaço ele, em velocidade, ultrapassava a defesa contraria e procurava a linha final e fazendo cruzamentos milimétricos para os colegas avançados, sempre para o melhor sitio.
Devido a essa sua característica, marquei vários golos, porque quando a jogada era feita pelo corredor direito, eu arrancava para a área e ele metia-me a bola de tal modo que com um só toque metia-a na baliza contrária.
Ora, no futebol isso só é possível quando o jogador tem boa inteligência de jogo e boa capacidade técnica de execução; ele levantava sempre a cabeça um segundo antes de cruzar e onde metia o olho metia a bola; preferia servir o Fernando Costa Pedro e a mim próprio, em vez de rematar; não era nada egoísta, gostava, até, julgo eu, mais de assistir para golo do que ser ele próprio a marcar.
Para além disso, era também um exímio jogador de hóquei em patins, um dos melhores hoquistas açoreanos de sempre.
Destacaria ainda outros jogadores de nível elevado como Luis dos Reis, Rui Carvalho, Melinho, Fonseca (pai), Manuel Antonio, Os guarda-redes Marinho  Xalim, Paulo Jorge, Sidónio, Rui Neves, José Antonio, António Jorge, Jaime, Pedrinho Carvalho, Pedrinho,  (que veio do Ideal da Ribeira Grande para o Santa Clara), Luisinho , Benjamim, Cabralinho, Pacheco, o inigualável Ernesto Malaco, o brasileiro José Pedro Farias , João Carlos (irmão do Martelo que jogou na Primeira Divisão, e que foi treinador- jogador do clube), Artur Garalha,e o grande defesa-central Luís Manuel da Silva Teves, que jogou depois no Lusitânia e na Académica de Coimbra.
O Luís Teves era meu colega no Liceu Antero de Quental e fui eu que primeiro referi o seu nome aos senhor Lima, que era o dirigente responsável pelo futebol júnior do clube.
Dos que mais tempo jogaram comigo penso que não omiti o nome de nenhum e acho que isso seria mesmo impossível, tantas foram as alegrias que eles me deram e tão unidos e solidários eram estes jogadores entre si; jogadores que jogavam rodos à Santa Clara, que deixavam a pele em campo e sem exibirem qualquer sinal de vedetismo . todos rapazes simples e com uma alma do tamanho do mundo.
Muitos destes jogadores, senão mesmo todos eles, se estivessem hoje na sua juventude seriam jogadores profissionais e a alguns deles não foi prestada a devida homenagem.
Vêm hoje para aí jogadores de fora, alguns caros, que não têm metade do valor futebolístico que os meus colegas tinham; alguns dos meus colegas estariam bem numa primeira divisão e com um pouco de sorte à mistura chegariam mesmo à selecção nacional.
Quero ainda salientar que há  jogadores do clube com quem já não tive o prazer de jogar pois sairam , alguns deles, na epoca anterior ao meu ingresso no clube, que eu vi jogar e que eram excepcionais
Refiro.me ao Martelo, ao Coelho, ao Madeirinha, ao Augusto Moniz ao Craveiro, ao José Costa Pedro , ao Paulino, ao Checa, Manuel Antonio, Parra, Armenio, Boceta, Pico-Rosa, Capinha, Narciso e o jogador excepcional que foi o Artur: vi-o jogar pelo Santa Clara contra o Benfica e foi simplesmente o melhor em campo; era um jogador completo, jogando com o mesmo à vontade a defesa central como a avançado de centro. Fenomenal.
O José Costa Pedro era também um avançado completo e inteligentíssimo; simplesmente Brilhante.
Nesta breve resenha histórica que incide maioritariamente sobre jogadores, gostaria todavia de registar aqui, os presidentes do clube que apanhei: Careiro e Silva, Humberto  Moniz e sobretudo Dionisio Leite, um homem que tem o clube no sangue.
Destaco ainda o treinador João Manuel Flores Alexandre, um treinador à Joaquim Meirim, um motivador nato com o seu bigode a sua verve incomparável (para grandes artistas grandes palcos), repetia sempre.
Destaco também o senhor Urânio Calisto, homem integro e mestre de futebol e que foi também meu treinador.
Infelizmente não joguei sobre o comando do técnico Saul, que venceu pelo clube a Taça dos Campeôes açoreanos, e que foi um treinador pioneiro pela sua inteligência tática.
Homem de uma simpatia extraordinária fez cada jogador um amigo.
Destaco o brilhante locutor Sidónio Bettencourt, Santa-clarense dos quatro costados, que fazia dos relatos do futebol do clube, especialmente no inicio da participação do clube nos campeonatos nacionais de futebol, uma epopeia inigualável.
Tive a honra de conhecer o senhor seu pai, o capitão Betencourt.
Homem de afetos, nutria pelo Santa Clara um amor sagrado: sempre que me encontrava vinha logo abraçar-me, mas naquele abraço ia agarrado todo o amor do seu coração para todos aqueles que, como eu, faziam do clube um ideal de vida, um caso de amor que ele espalhava generosamente pelos jogadores e não só, pois eu sentia que ele via nos jogadores do Santa Clara a corporização do seu fervor clubista.Um grande homem, sem dúvida, de quem tenho enorme saudade.
Não posso deixar de destacar o nosso massagista Bento Ahana no principio da minha carreira e o grande massagista e amigo Carlos Barbosa, Carlinhos Barbosa como carinhosamente lhe chamávamos.
Apanhei tambem o médico do clube drº Benjamim Viveiros, tio do drº Ricardo Viveiros Cabral e filho do senhor Serafim Viveiros, um homem que sofria por amor como poucos pelo seu Santa Clara, (como o senhor Daniel, da Agência Martins), o senhor Renato, o senhor Artur Pedro Cabral (pai do hoquista Pedro Cabral), e o senhor Costa, que sempre me tratou com elegância e afeto.
Destaco ainda os rouperios, senhor Antonio, senhor Henrique e o senhor Manuel Bolieiro
Carlos Barbosa, massagista diplomado, estava adiantado cinquenta anos, pelo menos, em relação à medicina desportiva da época; o drº Antonio Raposo (Hagan para os amantes do desporto) chegou muito mais tarde ao Santa Clara.
O dr. António Raposo inaugura uma nova época no futebol em S. Miguel, no campo da medicina desportiva.
O Carlinhos Barbosa fazia autênticos milagres, recuperando colegas meus de lesões de todo o tipo e com reduzidíssimos meios técnicos ao seu dipôr; tem umas mão mágicas, que operavam verdadeiros milagres, aquilo a que na medicina se designa por olho clínico.
Olho de águia, rápido a detetar a natureza da lesão do jogador, devo-lhe muito nesse campo assim como todos os meus colegas.
Aquele tempo era um tempo que nada tem a ver com o tempo atual no futebol.
Criava-se, através, do futebol, no Santa Clara, um espírito de amizade impressionante; havia proximidade total, solidariedade total, pureza de ideais, enfim, um tempo que já não   tem nada a ver com os interesses que simplesmente habitam a vida dos clubes em todas as latitudes.
Os leitores não imaginam o tipo de atmosfera que se vivia no balneário do Santa Clara do meu tempo; o Matiano, o Francisquinho, o Costa Pedro, o Floriano, eram irmãos não eram simplesmente colegas; o clube era o prolongamento no balneário do espírito da nossa família; não jogo eu hoje, jogas tu, não fico chateado, há-de chegar a minha vez; não marco eu marcas tu, tudo bem, o que interessa é marcar.
E depois a emoção, a alegria, a celebração da vida, as lágrimas partilhadas  nos maus momentos, tudo rios de afectos partilhados que corriam nas nossas veios e se albergavam  inteiramente no nosso coração.
Vou terminar esta pequena grande viagem ao meu passado no futebol do Santa Clara pedindo desculpa a algum colega , dirigente ou funcionário do clube do meu tempo que eu tenha involuntariamente omitido.
A todos eles devo um preito de gratidão pela imensa honra que me deram ao terem tornado possível a concretização do meu sonho de adolescente que foi jogar com aquela gloriosa camisola vermelha do meu clube vestida de águia ao peito .
A TODOS BEM HAJAM!
 

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Categorias: Opinião

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