7 de julho de 2020

Percursos

O Luís nasceu em 1980. Filho único de um casal da então chamada classe média – pela classificação laboral antiga, a mãe professora primária e o pai escriturário – o Luís teve uma infância normal e chegou ao 12º ano sem problemas de maior. Foi um aluno normal, sem perder qualquer ano.
Após o secundário ingressou numa universidade para cursar direito pois sentia-se com inclinação para a jurisprudência.
Aconselhado pelos pais, o Luís inscreveu-se num partido político, por sinal naquele que, naquela altura, dominava as preferências dos seus concidadãos, e começou a “fazer carreira” e foi eleito para vários órgãos juvenis, chegando mesmo a presidir à “juvé” dos seus correligionários. 
Estudante de direito e líder duma juvé, o rapaz, para contentamento pleno dos seus progenitores, estava com um futuro promissor pela sua frente; até porque tinha uma coluna vertebral bastante adaptável às circunstâncias do momento, apresentando sempre justificações plausíveis para as constantes mudanças.
Terminado o curso, o jovem jurista não abriu escritório próprio, tendo-se juntado a outros colegas para desempenho da sua profissão. Até que chegou o momento tão desejado. O Luís foi convidado a integrar uma lista e foi eleito deputado pelo seu partido. 
Chegado aqui, e tendo muita facilidade de argumentação, acrescida da tal coluna vertebral ajustável, não foi muito difícil chegar a destacar-se dos demais deputados. 
No parlamento, para ele, o preto poderia ficar branco, azul ou de qualquer outra cor. A verdade de hoje poderia ser a mentira de amanhã desde que não bulisse com os seus interesses pessoais. Todavia, sempre que ele falava, não era para defesa do seu estatuto, era sim, para bem do povo e dos seus eleitores.
Com um curriculum destes, o próximo passo seria fazer parte de um elenco governamental. E foi precisamente isso que aconteceu. 
Uma vez no governo, começou a ter contactos directos com as empresas e institutos públicos, de modo especial com aquelas e aqueles que vivem constantemente dependentes dos financiamentos governamentais. Pese embora não percebesse “peva” de administração havia que assegurar o futuro. Começou então a “preparar o terreno” para, quando tivesse de sair do governo, ter a garantia de um rendimento seguro.
E assim aconteceu. O nosso Luís saiu do governo e ingressou, quase de imediato, numa empresa pública altamente deficitária, mas que tinha, nos seus quadros gente muito bem paga, com o dinheiro dos impostos do cidadão comum que se “esfola”, anos a fio, para ter um nível de vida aceitável.
Agora é vê-lo saltitar de empresa em empresa, de instituto em instituto ou de direcção em direcção disto ou daquilo.
Claro que quem fala do Luís, fala do António, do Carlos ou do Serafim, porque este texto é uma ficção.
Dir-me-á o leitor que nem todos são assim. Claro que nem todos são assim. Há aquelas excepções que, quase se podem contar pelos dedos de uma mão!
Nesta nossa região, o percurso que acima descrevi, não é muito diferente do que está a acontecer. Poucos, muito poucos mesmo, são os políticos que falam verdade aos eleitores e agem com rectidão e aprumo.
Porque o cidadão comum pensa desta maneira, e atendendo a que não consegue ver luz ao fundo do túnel, no sentido de alterar este estado de coisas, a única resposta que tem para dar é a abstenção. Isto, porque tem mêdo que o seu voto em branco seja adulterado.


P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
5 de Julho de 2020

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Categorias: Opinião

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