4 de julho de 2020

Santa Clara: os grandes jogadores do meu tempo de jogador III

Mariano Joaquim de Sousa Raposo - Mariano no mundo do futebol

Outro dos grandes craques do meu tempo de jogador de futebol no Santa Clara, quiçá o melhor, foi o MARIANO.
O Mariano, a nível físico, tendia para o franzino, mas aguentava bem o choque e era muito resistente, mantinha o mesmo ritmo de jogo, do principio ao fim dos 90 minutos, com facilidade.
Apanhei-o na minha primeira época nos juniores,  poucos jogos, dado que na época seguinte ele já era titular indiscutível da equipa de juniores do Benfica.
No Santa Clara, nos juniores, ele jogava mais como segundo avançado ou interior, atrás do António Jorge; depois, no Benfica, fixou-se no meio campo que me parece ser a posição onde o seu enorme talento futebolístico mais se destaca.
Do meu ponto de vista ,o  a vertente genial dele é a sua capacidade técnica; jogador muito fino tecnicamente, dominava todos os aspectos técnicos do jogo: finta, recepção passe a curta ou longa distancia; fintava sempre em progressão para a baliza contraria, mudava de velocidade rapidamente e tinha mudanças de direcção espectaculares; muito rápido sobre a bola, quando ele arrancasse com a bola dominada ninguém a tirava
Outra característica que merece saliência especial era a sua visão de jogo; sendo médio, jogava em todo o campo, pensava rápido e executava rápido, tomando sempre a melhor opção porque tinha uma visão do jogo excepcional.
Marquei muitos golos pelo Santa Clara, como extremo esquerdo, graças à sua visão de jogo e capacidade de passe; metia a bola a trinta, quarenta, cinquenta metros com precisão milimétrica o que era uma benção para os avançados. Lembro-me de muitos golos que ele me deu a marcar, mas há um no Jácome Correia contra o  Micaelense Futebol Clube, jogo em que me lesionei com alguma gravidade e no qual jogou com avançado pelo Micaelense o Pauleta (Pai), que não esqueço: o Mariano recolheu a bola sobre a nossa zona defensiva (hoje chamada a primeira fase de construção) gira sobre si próprio e mete a bola, praticamente sem olhar, a quarenta, cinquenta metros, de modo a ela cair no pouco espaço livre existente no campo entre o ultimo defesa do Micaelense e o seu guarda-redes Sidónio; Eu só tive que correr um pouco e deixando a bola bater no chão (na altura o Jácome Correia não era relvado) apenas uma vez apliquei um violento remate cruzado que bateu ainda na face interior do poste e entrou na baliza do Micaelense.
O repertório técnico do Mariano era tão vasto e tão rico que não repetia no jogo duas vezes a mesma jogada; os jogadores contrários, particularmente os da defesa, nunca sabiam se ele ia passar, fintar, rematar ou o que quer que seja; às vezes simulava o passe para o colega desmarcado na frente, a defesa abria toda e ele entrava rapidamente a vontade  na área pelo meio e depois desviava a bola com rara subtileza, para a golo.
Depois já, nos juniores do Benfica era o mestre indiscutível do meio-campo; todo o jogo da equipa passava por ele.
Não rematava muito à baliza de fora da área; preferia quase sempre, vindo detrás em velocidade, em simulações, com a bola colada ao pé, tirar o defesa e  fazer autênticos passes mortais 
a baliza.
Como se as suas grandes qualidades técnicas não bastassem, ainda aliava a elas uma capacidade tática fora de série; jogava no meio campo, mas ajudava a defesa , tinha óptimo sentido posicional, sempre na linha da bola, não abrindo espaço nas costas se perdia a bola( o que era raro) pois rapidamente recuperava o tempo e a posição dada a sua rápida reação à perda da bola.
Em suma, era um jogador completo; não teve ainda assim a sorte que o seu talento merecia pois uma persistente lesão contraída ao serviço do Benfica impediu que se fixasse na equipa principal, tendo ingressado mais tarde no Marítimo da Madeira onda apanhou um treinador de seu nome Francisco Andrade, que eu conhecia pois ele treinava a Académica quando eu já estava em Coimbra, e que lhe “cortou as pernas.
Há a destacar ainda o seu comportamento ao nível do fair play: era um exemplo, o modelo a seguir ; não dava porrada, levava muita e não retribuía, não discutia com o árbitro, não tinha entradas maldosas sobre os adversários, era absolutamente irrepreensível do ponto de vista humano e disciplinar.
O futebol se tivesse muitos Marianos seria ainda mais amado pelas massas do que já é hoje em dia.
Muito, quase tudo, fica por dizer acerca  da qualidade deste jogador açoreano de eleição que jogou na primeira divisão nacional, que jogou no Santa Clara, que jogou no Benfica e que se aparece hoje não tinha preço. 
Agradeço-lhe os golos que marquei ao serviço do Santa Clara, originados na sua invulgar técnica de passe; foi o melhor com quem joguei e felizmente joguei com muitos e bons.
 

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Categorias: Opinião

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