Empresa Asinus Atlanticus

Leite de burra liofilizado da Terceira é consumido por crianças americanas com doenças respiratórias e auto-imunes

Como se iniciou neste negócio?
Marcos do Couto (Sócio da Asinus Atlanticus) - Quem se lembrou originalmente deste negócio foi a minha mulher e a minha irmã. Tínhamos um burro em casa, da Graciosa, como algumas famílias com alguma tradição do campo podem ter, com uma carroça para os miúdos darem um passeio. Certo dia a minha mulher viu na televisão uma reportagem sobre o leite de burra e achou interessante termos um negócio daqueles, muito embora nenhum de nós (nem eu, nem ela nem a minha irmã), tivéssemos qualquer tipo de ligação à actividade agro-pecuária ou à criação de animais. A minha mulher é médica, eu sou professor de educação física e era treinador profissional de basquetebol. A verdade é que, como eu era treinador de basquete, de 15 em 15 dias ia ao continente para disputar os jogos. Um dia, estava eu no continente para um desses jogos, e telefona-me a minha mulher a dizer que já tinha comprado uma burra, nas Cinco Ribeira. Depois comprámos outra, quatro, cinco, foi crescendo e chega-se a uma altura em que já não dá para voltar atrás porque o capital já investido era muito grande. E tinha que ir para a frente e dar certo. A partir daí fizemos todas as diligências, desde aprender como é que se ordenha uma burra, o que é necessário para isso, até perceber uma outra coisa muito difícil, e isso foi o mais difícil de todo este processo, que é como se entra no mercado internacional de comercialização de um ingrediente destes.

E como acontece? Com persistência?
Muita persistência, sempre. Entrar no mercado internacional do leite de burra para a cosmética, é feito essencialmente de duas formas: primeiro a presença em algumas feiras internacionais. Mas para ser sincero, apesar de termos estado em duas ou três, nem foi aí que conseguimos a penetração no mercado. Foi sim através de pessoas dentro do mercado, e fazendo uma coisa que ainda é a forma que considero mais viável de entrar no mercado internacional, que é porta-a-porta. Ir a França, saber quais são as empresas que trabalham com este ingrediente, bater-lhes à porta, mostrar-lhes o ingrediente, mostrar-lhes as qualidades, explica porque é que o nosso leite é considerado o melhor do mundo, porque é tão diferenciador, porque poderiam confiar em nós, que instituições tínhamos como parceiras. E isso foi um trabalho que levou muito tempo, porque os Açores não são minimamente conhecidos no mercado internacional. A única coisa que conhecem dos Açores é o anti-ciclone e nada mais. E foi esse o processo na indústria cosmética. No caso do consumo alimentar, o processo foi um pouco diferente.

Produzem para cosmética e consumo humano, qual a que mais absorve a vossa produção?
Quando começámos foi exclusivamente para a indústria cosmética. E foi esse o grande mercado da empresa ao longo dos primeiros quatro anos, com muita dificuldade inicial de não conseguirmos vender tudo, com muitas dificuldades técnicas. Desde há um ano e meio para cá, entrámos no mercado de consumo humano. O leite de burra tem uma característica única, que o diferencia de todos os demais leites no mercado, que é o facto de 99% do seu perfil proteico ser semelhante ao leite materno. E isso faz com que seja o leite mais hipoalergénico que existe no mercado. É algo que não é muito conhecido no nosso país, mas é amplamente conhecido nos países do Centro e Norte da Europa, Itália, França, Espanha. O nosso maior mercado no consumo humano é o dos Estados Unidos da América. Posso dizer que 50% da nossa produção vai para os Estados Unidos e 50% vai para a indústria cosmética na Europa e exportamos essencialmente para esses dois mercados.

Como chega ao mercado o leite para consumo humano?
Deixe-me enquadrar um pouco. Os benefícios do leite de burra não são nada de novo. Se olharmos para a história, e na cosmética, toda a gente se lembra que o segredo da beleza de Cleópatra, era banhar-se diariamente no leite de 300 burras que eram ordenhadas especificamente para esse fim. Se olharmos para o consumo humano, julgo que as pessoas com 60 ou 70 anos nos Açores, se lembrarão que quando havia tosse convulsa se tratava com leite de burra, pelo menos na ilha Terceira. Não se sabia bem porquê, mas sabiam que resultava. Não é mais do que isso. Nos Estados Unidos, descobriram os benefícios do leite de burra para as doenças respiratórias e para algumas doenças auto-imunes que afectam um certo tipo de crianças, com determinadas características. E o leite de burra é vendido nos Estados Unidos, especificamente para essas crianças, na área da saúde.

Comercializar esse produto nos Açores ou em Portugal, não é uma possibilidade?
Não me parece que exista capacidade financeira para isso. Existirão provavelmente famílias que terão capacidade para comprar o leite, mas diria que são uma minoria muito reduzida.

Quantas burras têm actualmente e equivale a quanto em termos de produção?
Divididos entre duas quintas temos sensivelmente 60 animais e com um produção anual que, este ano, rondará os 5 mil litros.

Com a pandemia os animais não deixaram de produzir. Como funcionaram durante estes meses?
Nunca parámos. Não podemos parar, os animais produzem leite todos os dias e têm que comer e ser ordenhados. O que nos aconteceu foi que sentimos alguma paragem no mercado da cosmética. Mas que estava a ser compensado porque temos dois mercados em duas partes muito díspares do mundo, seja na Europa e na Ásia e nos Estados Unidos. O que nos aconteceu foi que quando a Europa estava a entrar em confinamento, em grandes dificuldades, e as fábricas a fechar, os Estados Unidos estavam ainda a crescer. Bastante. Isso permitiu que toda a produção fosse absorvida pelo mercado dos Estados Unidos. Nesta fase, em que os Estados Unidos estão em crise e que havia, e há, grandes dificuldades, vimos que o mercado da cosmética europeia recomeçou a trabalhar. Como grande parte da produção destas unidades com quem trabalhamos, se faz com a exportação para o Oriente, que já tinha tido a sua crise pandémica em Janeiro, Fevereiro e está agora com o mercado a funcionar, as unidades já estão a exportar para lá. Por outro lado, o mercado Norte Americano como encara o produto como sendo da área da saúde, com amplos benefícios no caso da Covid-19, também se tem mantido estável.         

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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