Para ter bons níveis de escolarização Região tem de fazer um profundo esforço financeiro

Estudo prova que quanto maiores são as qualificações académicas, mais garantia de emprego existe nos Açores

“Actualmente, num mundo em constante mutação, as qualificações são cruciais para o progresso económico, para a empregabilidade e, mesmo, para o exercício de uma participação plena na vida social”. A citação pertence a José António Cabral Vieira e Sandro Serpa Colaboração, com a colaboração de Raquel Ferreira Maciel e Carlota Góis, no trabalho sobre “População Activa nos Açores – Qualificações e Emprego. Contexto Europeu e Nacional”, no âmbito do estudo desenvolvido a pedido de Gualter Furtado, Presidente do Conselho Económico e Social dos Açores sob a “Caracterização da Dinâmica Demográfica Recente dos Açores e das Qualificações da População. Cenários de Evolução até 2030 e Estratégias para o Desenvolvimento Económico, Social e Recuperação Populacional das Ilhas Açorianas”.
Os investigadores dizem nas conclusões do trabalho que “embora a população activa da Região Autónoma dos Açores tenha aumentado desde o início do século XXI, persiste um esforço substancial a desenvolver no sentido de garantir uma convergência com as estruturas existentes em Portugal e na União Europeia”. E dão nota de que “para que tal se verifique, há que reduzir, no futuro e de forma muito significativa, a percentagem de activos com um nível escolaridade completa igual ou inferior ao 3º ciclo do ensino básico e aumentar a dos activos que possuem qualificações académicas ao nível do ensino secundário e pós-secundário não superior (e, sobretudo, dos ativos que possuem qualificações ao nível do ensino superior)”.
As qualificações académicas nas empresas privadas são, de uma forma geral, baixas na maioria das atividades económicas, apesar duma evolução positiva ao longo dos últimos anos.
Uma maior escolaridade, segundo José Cabral Vieira e Sandro Serpa, “além de aumentar a produtividade do trabalho e facilitar a inovação e a mudança tecnológica, traduz-se, ainda, numa maior utilização dos recursos humanos, através do aumento da taxa de actividade e da redução da probabilidade de desemprego”, sublinhando que a relação entre a procura e a oferta de educação,  e a entrada no mercado de trabalho, e com a estrutura produtiva e empresarial da região, “carece de algum aprofundamento do sentido de se delinearem políticas, não só eficazes mas também eficientes, com vista a aumentar as qualificações da população ativa”.
No ponto sobre “caracterização das qualificações no mercado de trabalho nos Açores, numa base trimestral e anual”, os investigadores dizem que verificaram “uma tendência para o aumento do peso relativo e do valor absoluto da população activa com qualificações correspondentes ao ensino secundário e ao ensino superior entre os anos de 2000 e 2019, quer de homens, quer de mulheres. No entanto, ao nível universitário, chegaram à conclusão de que “as mulheres assumem uma clara preponderância em relação aos homens, verificando-se uma perturbação desta tendência a partir dos anos de 2016-2017, inclusive”.
Mais, adiantam, “o peso relativo dos empregados com qualificações correspondentes ao ensino superior diminuiu nos anos de 2018-2019, invertendo a tendência até então verificada”, mas também salientam que “a taxa de actividade nos Açores aumenta com o nível de escolaridade completo, sendo este efeito, no entanto, mais acentuado no caso das mulheres do que no dos homens. Contudo, a diferença desvanece-se à medida que se sobe nos níveis de escolaridade, sendo pouco significativa para aqueles que possuem qualificações ao nível do ensino superior, no qual a taxa de actividade masculina e feminina excede, por regra, os 80%”.
Os investigadores concluem também no estudo para os Açores a confirmação da tendência de que “quanto maior a escolaridade, menor o risco de desemprego, funcionando, até certo ponto, a elevada instrução como uma almofada relativamente protetora, principalmente em situações de crise económica”.
Verificaram ainda que “existe um crescimento da escolaridade média dos trabalhadores em todas as actividades económicas entre o ano de 2000 e o ano de 2017, mantendo-se, no geral, a distância relativa na escolaridade”.

Açores precisam de aproximar-se
dos níveis europeus

No estudo, José Cabral Vieira e Sandro Serpa, fazem a comparação da situação dos Açores com a Madeira, Portugal e a União Europeia e dizem que no período analisado (2000-2019), “sobressai uma inversão na comparação entre a qualificação da população ativa dos Açores e a da Madeira, tendo a qualificação na população activa da Madeira ultrapassado a dos Açores, quer para homens, quer para mulheres. Quando comparado com o país ou, mesmo, com a Madeira, o peso dos trabalhadores com menores qualificações escolares é mais elevado no mercado de trabalho dos Açores, sendo que na nossa região, mas também na Madeira e em Portugal, “o ensino superior tem uma maior representação na população activa feminina do que na masculina. A diferença entre os Açores e Portugal, relativamente ao nível de diplomados do ensino superior, amplia-se no período analisado, quer para homens, quer para Mulheres.
De uma forma geral, dizem os investigadores da Fundação Gaspar Fructuoso, o peso desta qualificação na população activa aumentou entre os anos de 2006 e 2019, sendo, no entanto, claramente mais elevada na União Europeia do que nos Açores.
Concluem também que se verifica “uma divergência em relação à Madeira, Portugal e União Europeia, a nível de qualificação de ensino superior, por parte da população ativa”.
Os investigadores identificaram várias opções passíveis de serem concretizadas para a convergência para o País e para a Europa que, segundo referem, “sendo exequível, implicará, sempre, um esforço muito considerável pela necessidade de um profundo investimento também financeiro” em cenários que foram definidos no estudo, “de modo a conseguir-se uma transformação”. Tudo para  “aumentar substancialmente o valor relativo dos indivíduos com um nível de escolaridade mais elevado (tendencialmente o ensino superior)”. Em qualquer dos cenários que os investigadores tiveram por base, e caso sejam materializados pelo poder político, há de acordo com José Cabral Vieira e Sérgio Serpa, “requer a inversão de duas tendências verificadas nos últimos anos nos Açores (aumento do número de ativos com escolaridade até ao 3.º ciclo do ensino básico e redução do número de activos com qualificações ao nível do ensino superior).

Opções para continuar a estudar

Dentre as opções para a melhoria das qualificações da população activa de forma a fomentar vantagens competitivas sustentáveis dos Açores, os investigadores  popõem  várias medidas para melhorar as qualificações daqueles que trabalham, as quais passam, entre outras, por uma atribuição alargada de bolsas de estudo ou empréstimos para a frequência de cursos superiores de interesse para o desenvolvimento dos Açores (possivelmente, mediante o compromisso de os beneficiários dessas bolsas trabalharem na região durante um certo número de anos). Pode também passar pela promoção, junto das instituições de ensino públicas e privadas, do ensino à distância (ou parcialmente à distância), com vista a propiciar a frequência do ensino secundário ou superior a setores específicos da população, assim como a participação em cursos de pós-graduação e de reciclagem e atualização profissional. Ou ainda fomento de condições para que a população ativa tenha possibilidade e motivação para incrementar as suas qualificações.
Caso os Açores considerem ser fundamnetal “implementar políticas de melhoria das qualificações da população ativa açoriana, os investigadores dão três notas importantes a ter em conta. “A primeira consiste no reconhecimento de discrepâncias entre as diversas ilhas que constituem o arquipélago dos Açores, como, por exemplo, a sua demografia, estrutura socioeconómica e nível de qualificações da respetiva população. O segundo aspeto a ser considerado consiste na inversão da tendência recente encontrada de redução do peso relativo dos empregados com qualificações correspondentes ao ensino superior, invertendo a tendência até então verificada nos Açores”.
A rematar a investigação, José Cabral Vieira e Sandro Serpa, alertam que “deverá ser tido em conta o contexto de póspandemia COVID-19, o qual, por um lado, nas suas incertezas, alterou hábitos de consumo e de trabalho produtivo, com o acréscimo da centralidade do papel do digital nas várias dimensões da vida socioeconómica, e que, por outro lado, tudo indica que trará profundos efeitos de recessão económica e consequente aumento do desemprego, relembrando que a população activa mais escolarizada está relativamente mais protegida deste fenómeno (para além do tipo e qualidade do emprego) que a população activa menos escolarizada”.                        
                N. C.

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Autor: CA

Categorias: Regional

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