9 de junho de 2020

Reparos de um peão do 6 de Junho de 1975

Todos os anos, e já lá vão 45, quando alguém aborda a histórica data de 6 de Junho de 1975, a versão dos factos é descrita conforme a interpretação que cada um teve daquele acontecimento.
Até já tenho lido, e ouvido, descrições de percurso daquela manifestação com um trajecto quase igual ao da manifestação do dia 17 de Novembro daquele ano, que foi completamente diferente.
É curioso notar como, ao longo do tempo, se vai alterando a verdade dos factos. 
Nunca, nem nenhum dos entrevistados até à data, referiu quem realmente iniciou aquela manifestação, a qual estava proibida e com a tropa em prevenção, de modo especial o quartel da Bateria de Costa, situado em Belém, hoje desactivado. 
Que não se julgue que, quem assim pensa, desconhecia quem foi que não teve receio do que lhe poderia acontecer e se juntou ao burro montado pelo Victor Almeida, militante do PPD/A, o qual, durante a manhã daquele dia, tinha “patrulhado” o centro da cidade de Ponta Delgada com um cartaz entre as orelhas do asinino que questionava:- “QUEM ME ACODE NESTA AFLIÇÃO?”.
Há que dar o seu a seu dono. Foi, por um lado, a FLA-Frente de Libertação dos Açôres, mas de modo especial, a FRIA - Frente Revolucionária para a Independência dos Açôres, esta liderada pelo meu querido parente já falecido, Aguinaldo de Almeida Carneiro, que, conjuntamente com os jovens do MSE-Movimento Separatista Estudantil, numa atitude desafiadora aos poderes instituídos, iniciaram a marcha contestatária de 6 de Junho de 1975. Se não fossem eles, nada teria acontecido.
Podem alegar o que quiserem. Podem dizer que estiveram à “frente” da organização da manifestação neste ou naquele partido; podem alegar que estiveram em contacto com este ou aquele político estrangeiro; podem dizer ter dado conhecimento aos seus correligionários políticos; podem alegar que intervieram perante este ou aquele militar; porém, como se acomodaram nas salas dos seus partidos perante a proibição da manifestação, o mérito, quanto a mim, vai para quem demonstrou coragem para iniciar a celebérrima manifestação, que partiu do Campo de S. Francisco, junto ao então Café Bradford, cerca das 14H00 do dia 6 de Junho de 1975.
Disso que ninguém tenha dúvidas! Eu estava lá!
Como, na altura, “reinava” o PCP no rectângulo português, os partidos de esquerda, liderados pelo PCP, com a colaboração do MES (actual BE) e ainda do residual PCTP/MRPP, poucos dias depois, organizaram uma manifestação de desagravo, apelidando de fascistas todos quantos tinham participado no 6 de Junho de 1975, berrando, a plenos pulmões:- um dois três, fascistas para o xadrez.
Por seu turno, PPD/A, querendo estar bem com Deus e com o diabo, também resolveu manifestar-se para desagravar o seu portuguesismo aceitando, mais tarde, uma autonomia administrativa, quando poderia ter ido muito mais além, quiçá, estado federado. 
Como todos sabemos, a autonomia então aceite, tem vindo a ser continuadamente reduzida. O que temos hoje, em termos de autonomia, pouco mais é daquela que tem uma vulgar Câmara Municipal.
Este ano, que eu saiba, a pandemia não deixou que se realizasse a comemoração do 6 de Junho. E ainda bem, até porque a esmagadora maioria dos que ainda se conservam fiéis ao independentismo, pertencem todos ao chamado grupo de risco. Em boa verdade, somos cada vez menos.
Presentemente, a população jovem está-se nas tintas para o nacionalismo independentista. Se tem tudo o que precisa de borla (ou quase), para quê chatear-se, ou arriscar a sua liberdade?
Porém, o que deve ficar para a história é que, se não tivesse havido o 6 de Junho de 1975 – o alfa de tudo – o que seriam os Açôres hoje? Os três distritos como no tempo do Estado Novo?
Lembrem-se do que disseram, há muito pouco tempo, os governantes portugueses:- a manutenção dos vôos da TAP para os Açôres foi para manter a continuidade territorial e demonstra a firmeza do governo português.
Para confirmar a tal continuidade territorial, hoje, o Nordeste, considerado o concelho mártir dos Açôres, recebe a visita do Presidente da República, que foi conivente na posição de força demonstrada pelo Governo Central, na questão da TAP voar para as Lages e Ponta Delgada durante a pandemia.
Será que Sua Excelência sofreu do chamado “peso de consciência”?
Noutros tempos, o Presidente da República teria sido recebido de óculos escuros e gravatas pretas. 
Se assim tivesse acontecido teria plena justificação. Óculos para esconder lágrimas e gravata preta em homenagem aos mortos.
Porém, ninguém reagiu!
Como diz o adágio:- assim querem, assim têm!

P.S. texto escrito pela antiga grafia.

           7 de Junho de 2020
 

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Categorias: Opinião

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