3 de junho de 2020

As obras do porto de Ponta Delgada

Na passada semana começaram as obras de requalificação do porto de Ponta Delgada, muitos anos após o primeiro anúncio feito pelo governo socialista dos Açores para execução daquela obra. Tarde é o que nunca chega…!
Apesar de sempre me ter manifestado contra tal “remendo” em execução naquela doca, preferindo a construção de um novo cais para granéis líquidos e sólidos, a construir para os lados de Santa Clara, e após consulta ao projecto do que ali se vai realizar, devo dizer, com toda a sinceridade que o que está ali projectado irá resolver, em primeira instância, o problema da carga contentorizada referente ao tráfego entre Ponta Delgada e o exterior.
A requalificação desde o cais -12 até à prevista rampa RO-RO, assim como a dragagem para alcançar fundos de -10 e -12, e ainda, a actualização da iluminação, o melhoramento do piso e a aquisição de novos e mais potentes empilhadores são melhoramentos que, em minha opinião, demonstram o absoluto abandono a que o porto desta cidade foi votado durante muitos e muitos anos.
É bem verdade que, o aumento da largura do molhe em 20 metros para norte, na zona do antigo armazém aduaneiro, irá melhorar o parqueamento de contentores que terá uma capacidade para cerca de 750 contentores de 40 pés, facto que dará mais rapidez às cargas e descargas, podendo diminuir o tempo de escala dos navios no porto, visto que poderão operar simultaneamente. Os armadores agradecem. 
Por outro lado, se a conduta de gás ficar na mesma zona onde está hoje, o dito aumento trará mais segurança aquando da carga ou descarga porque, a totalidade do equipamento de segurança exigido por lei até aqui não tem sido utilizado, não só por falta de espaço para a sua instalação, como pela falta do dito equipamento por parte dos bombeiros que assistem às cargas e descargas de matérias perigosas. A “coisa” tem andado com a benevolência da Capitania do Porto de Ponta Delgada que, de mal o menos, tem permitido as operações só com a presença de uns quantos extintores aquando das cargas e descargas, mas também, com muita fé na protecção divina do Senhor Santo Cristo dos Milagres. 
Pelo que julgo saber, os próprios navios butaneiros estão providos de equipamento especial de combate ao fogo. 
Na apresentação do início da obra, pareceu-me ouvir o senhor Presidente do Governo Regional dizer que já se tinha gasto, no nosso porto, cerca de 100 milhões de euros nos últimos 6 anos.
Para mim, afirmar tal coisa é pura demagogia (o nosso povo diria atirar areia para os olhos) porque, para quem está atento ao que se passa no nosso porto, sabe que nesses 100 milhões de euros estão incluídos os mais de 40 milhões pagos pela Nato para reparar os estragos verificados na sua zona do porto, causados pelo mau tempo de há alguns anos.
Por outro lado, dos 46 milhões de euros previstos para as obras que agora começaram, 32 milhões virão da União Europeia, pelo que, o Governo Regional só cobrirá a diferença, ou seja, mais ou menos 14 milhões. Portanto, nada de embandeirar em arco!
Como disse no início deste trabalho, continuo a ser favorável à construção do cais de granéis em Santa Clara, apesar de saber que são cada vez menos as escalas dos graneleiros, atendendo a que, quando vêm, trazem grandes quantidades de cereais, de clínquer, ou mesmo de combustíveis, por via da cada vez maior capacidade de armazenamento que temos nesta ilha.
Mas, para mim, futuro do porto de Ponta Delgada deveria passar por ser um porto de referência no meio do Atlântico para auxílio e reparação de navios, que cruzam os nossos mares aos milhares, quando estes não necessitassem de doca-seca. Chamemos-lhe uma “estação de serviço” entre os continentes americano e europeu. Para tal, o porto tem de ter espaço e o cais de granéis em Santa Clara dar-lhe –ia esse espaço.
Como estive ligado ao abastecimento da navegação durante muitos anos, contactei muitas vezes a antiga oficina de reparações marítimas que a Casa Bensaúde teve (primeiro “encrustada” ao forte de S. Brás, e depois, na antiga Rua da Vila Nova de Baixo) para reparar avarias nalguns navios, mesmo que tivessem de mandar vir peças de fora.
Foram muitos os elogios tecidos às equipas daquela oficina de reparações que solucionaram as avarias. É justamente por este motivo que penso ser possível o reatar desta actividade industrial atendendo à localização desta ilha no meio do Atlântico Norte.
Dirão os críticos que estarei a sonhar. Talvez! Mas… sonhar não paga imposto. 
Por enquanto, claro! 

P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
30MAIO2020
 

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Categorias: Opinião

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