28 de abril de 2020

Temas ao Acaso

Despeitos

Para mim é ponto assente que, se não tivesse acontecido o 25 de Abril de 1974, eu não poderia estar há quarenta anos (mais coisa menos coisa), aqui, neste Jornal, a escrever livremente sobre os mais variados temas, nomeadamente sobre a independência dos Açôres.
Penso que os militares que fizeram aquele golpe, decerto que não pensaram em fazê-lo para favorecer qualquer ideologia política, mas sim, para instaurar em Portugal um regime democrático e livre para todos os portugueses, independentemente das suas tendências ideológicas.
Como todos sabemos, a chamada esquerda radical portuguesa, quanto a mim ilegitimamente, tem dado a entender que eles é que estariam por detrás de tal golpe. 
Que houvesse algum contacto entre os esquerdistas radicais e alguns militares, certamente que houve, a julgar pelos acontecimentos que se seguiram ao 10 de Março de 1975 quando o PCP e “anexos” se apoderaram do governo, escaqueirando a economia portuguesa do Minho ao Algarve. 
Como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, em Novembro daquele ano, surgiu o chamado Grupo dos Nove que pôs termo à desgraça que tinha caído sobre os portugueses, instaurando, a partir daí, a democracia no país.
Vem este “prefácio” a propósito da atitude, para mim, anti-democrática, do senhor Presidente da Assembleia da República em ter feito “finca-pé” na realização de uma espécie de plenário para comemorar o 25 de Abril naquele hemiciclo, pese embora o facto de ter havido petições, uma para que não se realizasse, e outra – com número bastante inferior de assinaturas – para que a sessão se realizasse.
É que, não se trata de não querer comemorar a data. A data, podia ser comemorada de outra forma, atendendo ao estado de emergência que todo o Portugal vive neste momento. Alocuções televisivas, poderiam ter sido feitas pelos responsáveis máximos do país, incluindo, naturalmente o actual Presidente da Assembleia da República que, ao que me informaram, é oriundo da extrema-esquerda portuguesa.
É meu convencimento que, o verdadeiro espírito de Abril não teria ficado diminuído se não houvesse a sessão presencial na A.R. Até porque já houve anos em que as comemorações foram feitas fora daquele hemiciclo, como foi referido um dia destes, num dos canais televisivos. 
Insistir naquela reunião, como fez a segunda figura do Estado é, na minha opinião, desrespeitar a esmagadora maioria do povo português que se encontra confinado às suas residências. 
Alegar que, a não realização daquela espécie de plenário – com convidados e tudo – era um atentado à democracia, é chamar de burro o povo português. Todos sabemos que a democracia não depende de uma evocação ou comemoração. Depende, sim, das nossas atitudes de relacionamento com os outros. 
Eu, que estou prisioneiro na minha própria residência, ameaçado pelas autoridades sanitárias se tiver a ousadia de fazer uma caminhada que me foi prescrita pelo meu médico, sinto-me ultrajado com a atitude arrogante de quem deveria ser o mais democrata dos democratas pelo simples facto de presidir à casa da democracia em Portugal.
Para mim, na sessão solene, de pouco valeu a tentativa de “branqueamento” das razões invocadas para que ela se realizasse. 
Assim como de pouco valeu a justificação de que aquilo não era “festejar o 25 de Abril”, mas sim, comemorar o 25 de Abril.
Julgo que não foi para se ter atitudes destas que motivou o chamado Movimento dos Capitães a executar a operação FIM – REGIME cuja ordem de operações foi assinada por Fernando José Salgueiro Maia (CAP -Cavalaria) e Rui Costa Ferreira (MAJ – Cavalaria).
Em minha opinião, muito bem estiveram os antigos Presidentes da República Doutores. Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva em “faltarem à chamada”.
Também muito bem esteve o meu Presidente do Governo Regional quando afirmou não ser relevante o local da comemoração daquela data.
Assim como, muito bem esteve o meu querido amigo Filipe Cordeiro – Representante nesta cidade da Associação 25 de Abril – democrata convicto e praticante que, apesar de apoiar a sessão solene na A.R., disse não haver condições em Ponta Delgada para a realização nesta cidade de tais comemorações, apesar das mesmas se realizarem nas Portas da Cidade, portanto, ao ar livre.
Mesmo assim, o Filipe entendeu que as comemorações este ano seriam feitas pelas redes sociais, nomeadamente pelo Facebook. Isto, para evitar aglomerações em tempo de pandemia e de cercos sanitários nos vários concelhos de S. Miguel.
São duas visões diferentes de agir em democracia a saber:- a do Presidente da Assembleia da República, a democracia do quero posso e mando, da arrogância e menosprezo pela legislação por ele próprio aprovada; enquanto a do meu amigo Filipe Cordeiro, é a da verdadeira democracia respeitadora das leis instituídas. 
Sem mais comentários!

P.S. Texto escrito pela antiga grafia.

26 de Abril de 2020

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