16 de abril de 2020

A digitalização e a virtualização na transformação da sociedade

As modificações operadas na sociedade pelo continuado emprego de tecnologias e equipamentos digitais são usualmente incluídas na designação transformação digital. Mas esta expressão refere-se especialmente aos resultados que se poderão obter com a generalização do emprego das tecnologias e dos equipamentos digitais nos mais diversos aspetos da vida das pessoas, das suas atividades profissionais, de lazer, de entretenimento e nas interações sociais. Nas instituições e empresas os efeitos da adoção massiva da tecnologia digital também se farão sentir no modelo de organização, de oferta dos serviços e produtos e de relacionamento com os seus clientes. A tecnologia digital continuará a moldar a atuação dos órgãos de governo, a execução de políticas e a ação dos serviços de administração. O que se pretende conseguir será, em última instância, a melhoria de vidas das pessoas através da maior eficácia e eficiência das instituições, empresas e órgãos de governo, por intermédio da aplicação intensiva da tecnologia digital. 
Uma vez operacionais os equipamentos construídos com a tecnologia digital (os computadores), adequados ao processamento de informação, era necessário que esta lhes fosse fornecida num suporte compatível. Para a realização da tarefa de digitalização foram desenvolvidos dispositivos específicos, como os digitalizadores ou scanners, para conversão de informação textual ou gráfica (imagens) que se encontrava em suporte de papel. Foram também desenvolvidas técnicas de “reconhecimento ótico de caracteres” que possibilitaram a edição do texto digitalizado por software específico. Para outros tipos de informação, como áudio e vídeo, surgiram igualmente dispositivos de conversão e técnicas de processamento adaptadas à natureza desta informação multimédia. 
Apesar dos custos e morosidade dos processos de digitalização, o suporte eletrónico ou magnético da informação oferece vantagens quanto à sua conservação, tratamento (ou análise), atualização e divulgação, quando difundida através da Internet e da Web. Os meios físicos de armazenamento da informação digital estão também sujeitos a avarias que poderão comprometer a preservação da informação, se esta não estiver acautelada pela existência das chamadas cópias de segurança (os backups). A facilidade de obtenção de inúmeras cópias ou réplicas idênticas, sem nenhuma perda de qualidade, é uma das caraterísticas da informação digital. Por outro lado, esta caraterística tem implicações negativas no direito de autoria e de propriedade, dificultando o seu exercício e propiciando abusos e fraudes.
O papel continuará a ser usado como material de suporte da informação digitalizada com o recurso a dispositivos impressores (ou impressoras), periféricos de computador, e a técnicas de impressão avançadas, melhorando a qualidade gráfica do original.
Se todos os livros, revistas e outros documentos impressos ou manuscritos forem digitalizados teremos construído uma versão digital da biblioteca, uma réplica digital do seu conteúdo em suporte de papel. Se a esta coleção de informação digital, guardada na memória de um computador, for associado o software que implemente os procedimentos de procura nos respetivos catálogos e disponibilize para consulta as obras pretendidas através das redes de comunicação, obteremos uma biblioteca virtual. Quer isto dizer que a consulta do seu conteúdo deixa de estar limitada a quem possa aceder fisicamente às instalações da biblioteca, que adquire uma nova existência para além da localização geográfica. Esta biblioteca virtual poderá ganhar autonomia relativamente à original, embora esteja dependente do sistema computacional que a suporta e das tecnologias de informação e comunicação que facultam o acesso global dos seus utentes. Prosseguindo com a virtualização, depois de desligar ou desvincular a versão digital da versão em papel, quebraríamos a dependência da biblioteca digital do computador que armazena os conteúdos e executa o software gestão, criando as condições de fácil migração para outro sistema computacional, conectado ao mesmo ou a outro ponto de acesso à rede.
A virtualização dos repositórios de informação e das aplicações informáticas que os gerem exige um conjunto de funcionalidade de virtualização a vários níveis: hardware, sistemas operativos, conexão às redes de comunicações, com custos financeiros e de recursos materiais e técnicos não comportados por muitas instituições e empresas. Quando for necessário migrar um sistema de informação para outra máquina por ter ocorrido uma falha de hardware ou por exigência de expansão, a virtualização contribuirá para a agilização do processo de mudança e rápida reposição da operacionalidade.
Quase todos os sistemas informáticos encontram-se disponíveis nas redes internas das entidades proprietárias mediante a utilização de um browser web e em muitos deles será possível, aos seus utilizadores habituais, o acesso através da Internet a partir de qualquer local externo às instalações daquelas entidades. Por razões de proteção da informação que processam, alguns sistemas têm acesso permitido apenas a partir das redes internas em que estão integrados. Para garantir a segurança dos referidos sistemas nos acessos através da rede pública, que não oferece mecanismos de segurança nas comunicações, estabelecemos uma ligação por rede privada virtual (virtual private network, VPN). Com esta virtualização de rede, a partir das nossas residências acedemos aos sistemas informáticos das entidades com as quais colaboramos como se os nossos equipamentos estivessem localmente conectados às respetivas redes internas.
As atividades profissionais e sociais, nas quais as tecnologias da comunicação tradicionalmente não constituíam o suporte central para a sua realização, podem beneficiar da tecnologia digital e, em especial, da virtualização. Neste grupo encontra-se as atividades que decorrem em salas ou gabinetes de trabalho (escritórios), de reuniões ou de aulas, de empresas, instituições diversas e estabelecimentos de ensino. A designação escritório digital significava a total ausência do papel como suporte documental das informações relevantes da atividade de, por exemplo, uma empresa, apesar de as pessoas partilharem um mesmo espaço físico de trabalho, onde estariam disponíveis os equipamentos informáticos.
Com o recurso à virtualização, não serão apenas as pessoas que partilham o mesmo espaço físico que poderão trabalhar em conjunto, mas também outras dispersas por vários locais desde que disponham dos adequados sistemas e equipamentos informáticos e de comunicação. O teletrabalho pressupõe a existência de um espaço físico onde outros dos trabalhadores realizarão as suas atividades, mas um escritório poderá ser somente um espaço virtual com os seus sistemas informáticos implementados através dos serviços de uma “cloud”. 
Nas mesmas circunstâncias, as reuniões e as aulas poderão decorrer em espaços virtuais sem a existência dos correspondentes espaços físicos. A criação destes espaços virtuais é uma tarefa exigente não apenas do ponto de vista tecnológico, mas essencialmente na recriação dos diversos tipos de interação dos participantes que a proximidade física facilitava.
A virtualização potencia a mobilidade das pessoas, proporcionando-lhes iguais funcionalidades e ambientes para executarem as tarefas profissionais e de interação social quer estejam nos locais habituais de trabalho, nas suas residências ou, quando em viagem, em locais onde existam conexões às redes de transmissão de dados, desde que se encontrem munidos de um smartphone, tablet ou laptop.

Jerónimo Nunes

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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