Não mais
Do que de repente
A alegria
Os beijos
Os abraços
Da véspera
Transformaram-se
Em pesadelos
Medos
Dúvidas
Do dia seguinte
E
Todos ficaram
Encalhados em si mesmos
Todos sabiam da efemeridade
Das coisas
Mas sempre a ignoraram
Todos conheciam da temporalidade
Da vida
Mas nunca acreditaram
Montados nas suas ilusões
Prolongavam-na no vazio da realidade
Uma manhã
Um vírus invisível vadio
Tirou-nos o sossego e o sono
Vindo de distante
Traçou implacavelmente
Roteiros
Invadiu países
Condicionou a vida
De milhões de seres humanos
Tirando-a
A outros tantos milhares
Circunscritos a pequenos espaços
E aos jogos de quebra cabeças
Dominados pelo pânico
Estão milhões de cidadãos
Do mundo inteiro
Desarmados a assistir
À marcha inexorável
Do inimigo
Que destrói
Destroce
Desmonta
Países e economias
E
Na ribalta
Surgem
Governantes
Com gestos e atitudes
E palavras
Improprias e inquietantes
Que agridem a humanidade
Para os quais
Esgotou-se
Toda a adjetivação possível
Surgem
Nesta calamidade
Com roupagens ditatoriais
De
Trumpismos e bolsonarismos
Conscientes
Expõem
Populações indefesas
Ao genocídio
Onde estão
Os verdadeiros líderes do Mundo?
O que aconteceu
Ao nobre projeto Europeu
Erguido no sonho
Da união e da solidariedade
Pilares de um Tratado imprescindível
Que não se pode desmoronar…
Como se pode compreender
Que os povos do Norte
Insultem os parceiros do Sul
Confundindo gestão com pandemia?
Afinal
O vírus atacou também perigosamente
As mentes de alguns governantes…
E
nós ilhéus
Sempre apaixonados
Por este pedaço de terra
Porque sentimo-la
Nascida das entranhas
Das rochas atlânticas
Porque somos raízes plantadas na terra
Onde nos situamos?
Primeiro a Ilha tremeu
Corremos para as ruas
Assaltados pela incerteza
Atónitos
Os nossos olhares assustados
Cruzaram-se
Pondo á prova
As nossas fragilidades
Agora
Balançamos
No equilíbrio ilusório
Entre a vida e a morte
E
Repetimos para nós mesmos
De manhã à noite
Como oração de fé
Vamos vencer
Vamos viver
Vamos vencer
E
porque acreditamos
VENCEREMOS
6 de abril 2020