Foi ao entardecer de um destes dias de confinamento residencial que o vi, gigante dos mares carregado de andares de contentores, pairando ao largo do ilhéu de São Roque. Permaneceu fundeado durante a noite e ainda o avistei pela manhã, pesado monstro marinho feito pela mão do Homem, elemento essencial do transporte de mercadorias em época de globalização. Ao observá-lo, ocorreu-me qual seria o tipo de combustível que estaria consumindo e recordei alguns dados que a IMO-International Maritime Organization colocou na regulamentação em vigor desde 1 de janeiro deste ano, relativamente às perigosas emissões de dióxido de enxofre, que devem ser drasticamente reduzidas. Para se ter ideia, passa-se de um teor de 3,50%, atualmente autorizados fora das áreas sob controlo de emissões (que são poucas, como o Báltico e o Mar do Norte) para 0,50% m/m, as unidades em que se exprimem. Esta redução implica a substituição dos baratos e poluentes óleos pesados por óleo “leve”, um destilado de qualidade superior (mais caro) ou a aplicação de mangas purificadoras (os “scrubbers”) tão procuradas que os fabricantes não têm mãos a medir. É uma verdadeira revolução, resultante de uma errada intervenção humana na engrenagem natural da vida planetária. Numa destas colunas, em 25 de Maio do ano passado, alertei: segundo a IMO, cada mega porta-contentor emitia anualmente tanto enxofre como 50 milhões de carros.
Outro efeito negativo para a vida humana, resulta do descontrolado uso da água, recurso escasso face às alterações climáticas e aumento da população. Citando um dossiê da revista Deco/Proteste, no continente português foram perdidos em 2018, principalmente por fugas nas condutas, quase 172 milhões de metros cúbicos de água tratada, representando um desperdício de 85,5 milhões de euros. A água é um bem natural inestimável, tendo sido negligenciada por demasiado tempo quanto à qualidade e demasiadamente explorada, quanto à quantidade. A Agência Europeia do Ambiente publicou nesse 2018, um extenso relatório sobre o estado das águas de superfície, compreendendo lagos, ribeiras e estuários, que mostrou que, em média, o estado de poluição química destas massas de água era de 46%, com grandes desigualdades entre países. A Alemanha apresentava 100% e é quem pior resultado obteve, seguida da Suécia, Bélgica e Finlândia, todas piores que a média. Portugal, com 1%, foi dos melhores, a par com a Dinamarca. Estes dados são importantes, porquanto estas águas superficiais são fonte de abastecimento para as populações e para a agricultura. De um modo geral, o relatório europeu provou que 60% dos lagos, lagoas, curso de água e águas costeiras, não estavam em boa ou muito boa situação ecológica.
O agravamento da situação ambiental a nível mundial, tem também muito a ver com o desperdício de alimentos, especialmente nos países mais desenvolvidos. Sabe-se que 1/3 dos alimentos mundiais produzidos acabam no lixo, quando bastariam para matar a fome dos 820 milhões de pessoas que deles precisam para sobreviver. São 1.300 milhões de toneladas de produtos comestíveis desperdiçados, número que triplicou nos últimos 50 anos e poderá somar mais 1.000 milhões em 2030. No mundo rico, o desperdício alimentar é duplo do que tem lugar nos países pobres, onde as perdas são devidas principalmente à falta de infraestruturas adequadas. Mas o desperdício é igualmente devido ao excesso de consumo, provocando obesidade nociva, estimando-se que entre 1,9 a 2 mil milhões de adultos do globo tenham excesso de peso. Esta situação põe pressão desnecessária na produção, no transporte e armazenagem e na transformação agroalimentar, com as correspondentes consequências na saúde e no ambiente. O INRA, Instituto Nacional de Investigação Agronómica francês, uma casa que conheci bem enquanto investigador em agrobiologia, estimou que 14% dos alimentos produzidos são consumidos em excesso, pelo que a sua redução, associada a uma melhor repartição, bastariam para erradicar o flagelo vergonhoso da fome, reduzindo efeitos negativos sobre o ambiente e a saúde da população do planeta.
Se o excesso de produção alimentar e o desperdício são perigosos, os fenómenos de resistência aos antibióticos por parte de bactérias e outros agentes infeciosos não são menores. A Organização Mundial de Saúde considerou em 2019 que, entre as 10 ameaças mais importantes, a Humanidade contava nos lugares cimeiros a poluição do ar, os cuidados de saúde e a antibioresistência. Se é certo que os antibióticos vêm salvando dezenas de milhões de vidas há quase 90 anos, também se sabe que o seu uso indevido provoca o aparecimento de organismos multirresistentes. Daí que a investigação científica procure novos agentes antibacterianos, como os bacteriófagos, vírus destruidores de bactérias. Desta vez, intervém-se na regulação natural por necessidade, mas não convém abusar, como o Covid-19 demonstra. Fica o aviso da Mater Natura, à espera de prioritário “Aleluia!” açoriano.