Correio dos Açores - Como descobre este grande talento para a pintura?
Paulo Neves - Em primeiro lugar gostaria de agradecer o convite. O talento, ou melhor o jeito para o desenho e pintura sempre o tive mas só com muita prática e experiência é que se consegue aperfeiçoar; seja na pintura como outra área qualquer.
Que artistas o ajudaram a crescer?
Quando queria fazer algo procurava livros e manuais e partia para as experiências e como referi anteriormente só através de muita prática consegui evoluir. Num caso ern particular participei num workshop na AJAlT dado pelo professor Fernando Freitas da Academia de Artes Realistas de Toronto, que me ajudou a aperfeiçoar na vertente dos retratos a carvão e grafite. Quanto a artistas em concreto, na realidade nunca segui ninguém em particular mas tenho uma especial admiração por Salvador Dali. Agora com as redes sociais sigo o trabalho de artistas de todo o mundo que engloba diversas vertentes; que vão desde as caricaturas, ao retrato, grafiti e por aí fora. Todos os géneros de desenho e pintura.
É considerado um pintor de feição naturalista e impressionista…?
Sinceramente nunca parei para pensar e atribuir-me um estereótipo em relação ao género de pintor que sou ou ao trabalho que produzo. Considero-me essencialmente um artista que através da prática consegui adquirir conhecimentos para fazer qualquer trabalho que me proponha fazer, sejam retratos a carvão e grafite, caricaturas no mesmo medo ou até digitais, pinturas em telas OU murais, etc, etc.... Mas sempre em constante aprendizagem e evolução_ à pintura propriamente dita, normalmente depende do que o cliente me pede, tanto pode ser algo de mais abstracto como pode ser algo de mais real ou natural. Quando posso e tenho tempo para pintar e criar algo para mim posso considerar que essas características se aplicam, sim... Acrescentando também o surrealismo como uma delas.
Como encara a pintura?
Como um fim em si mesmo, sem a mínima dúvida. Provavelmente mais de 90 a 95 % do que faço é para clientes e o resto é quando tiro um pouco de tempo para criar algo para mim, normalmente de serão mas sempre com o objectivo final de vender o trabalho ou de usa-lo como publicidade nas redes sociais.
Trabalha com diversos materiais. Qual a vertente da pintura que dá mais satisfação?
Todas me satisfazem mas o que eu gosto mais é de misturar tintas e fazer murais, quanto maiores, mais complicados e difíceis melhor. Primeiro porque gosto mais de trabalhar fora de casa, cansa ficar sempre no mesmo sítio sentado a desenhar ou pintar. Dá para uma pessoa se mexer mais. Segundo porque dá uma maior exposição e visibilidade ao meu trabalho e terceiro porque gosto de desafios daí o facto de mencionar quanto mais difíceis melhor. Por último dá-me a oportunidade que, na maior das vezes não tenho com retratos a carvão por exemplo, que é de misturar cores e dar asas à criatividade.
Já participou em exposições?
Já participei em algumas mas nada de relevante. Algumas colectivas com pinturas em tela e três individuais, duas de caricaturas e uma com pinturas em acrílico.
Uma das curiosidades é saber se ser açoriano ajuda a criatividade de um artista?
Calculo que sim, os Açores tem bonitas paisagens, sejam elas o mar, o céu ou o interior das ilhas. E todas elas podem servir de inspiração ou até mesmo para tirar umas fotos e usá-las como referência para uma pintura ou apenas paile de uma pintura. Mas seja dos Açores ou de qualquer outro sítio penso que o meio onde viva ou tenha crescido tenha influência em qualquer artista.
Os seus trabalhos reflectem os Açores ou é possível o desvincular completamente das suas origens?
Alguns dos trabalhos que fiz reflectem os Açores, nomeadamente paisagens com temas das ilhas, como touradas, chafarizes, etc. Mas a maioria são outros tipos de trabalhos, com outros temas que não tem absolutamente nada a ver com os Açores em si. Mas seja artista plástico ou outra profissão o meio oinde a pessoa cresceu está lá sempre entranhado, faz parte da pessoa.
Onde busca inspiração?
A minha inspiração vem essencialmente de tudo aquilo que observo e de nada em específico, de nenhum tema em particular_ Quando quero fazer algo ou me pedem algo imediatamente formo a imagem na minha mente do que quero, posso não a ter completamente pronta de imediato mas a base do que pretendo está logo formulada. Quando a retratos ou caricaturas de alguém famoso, por exemplo, normalmente os escolhidos são figuras da música, cinema ou desporto.
Qual o trabalho que mais o marcou?
Não tenho nenhum em particular que me tenha marcado mais do que os outros, mas posso referir dois que foram mais morosos e variados em termos do que era necessário como a cenografia para a opereta ‘’Dia de São Vapor’ realizada para a abertura do Auditório do Ramo Grande ou os primeiros carros que fiz para um desfile alegórico; desfile da abertura e Bodo de Leite da Festas das Lajes em 2005.
Como aparece a área dos desfiles soberbos de festas?
Aparece precisamente com o convite da comissão das Festas das Lajes de 2005_ Infelizmente e se não estou em erro, apenas tive oportunidade de realizar carros para quatro desfiles e fazer os esboços para outro.
Que trabalhos tem em mãos?
Infelizmente uma pergunta não se desassocia da outra. Tive os poucos trabalhos que tinha agendados adiados devido a pandemia e apenas tenho um retrato a carvão para fazer. Estou a tentar ao máximo fazer publicidade do meu trabalho nas redes sociais a ver se consigo algumas encomendas e tentar vender alguns dos trabalhos que tenho feito ao longo dos anos. Infelizmente as coisas que por si próprias já não eram fáceis agora estão completamente impossíveis. As pessoas primeiro tem que pagar as suas contas e só depois, seja para fins decorativos ou para ofertas é que adquirem arte. E com esta situação em que muitas delas tiveram um corte parcial ou até total no seu rendimento e até as que ainda têm e podem investir não o fazem obviamente com a incerteza do prolongamento de toda esta situação que vivemos, o poder de compra simplesmente desapareceu. Infelizmente e apesar de não ser considerada um profissão de risco, ser artista neste momento, e não só neste país é umas das profissões em que se corre mais o risco de passar fome. Se este surto não acabar rapidamente as coisas ainda vão piorar mais. Espero obviamente, estar errado e que as pessoas possam voltar à normalidade o mais rapidamente possível.