Segunda Feira, 30 de março de 2020
O Primeiro Ministro entende ser mais apropriado admitir sempre o pior cenário para o desfecho de uma crise para que os sobreviventes de um modo ou de outro se animem ao tomarem conhecimento da menos gravosa realidade subsequente. Baseia-se não sei em que conhecimento ou válida experiência…Esta manhã, com toda a população acordada, porque sem hipótese de noitadas de sonho ou de trabalho noturno, o Primeiro Ministro disse, não me recordo à margem de que visita governamental, que o pior estaria para chegar.
Na verdade, é incontornável o distanciamento ou isolamento social como medida profilática, pelo menos desde a pneumónica. Porém, a comunicação oficial diária, que é necessária, por parte do governo e dos responsáveis pelo sistema de saúde nacional sobre o estado de coisas derivado da pandemia tem de se sustentar com factos verdadeiros, narrá-los com clareza e não ir além deles. Se os responsáveis pela comunicação oficial tivessem seguido o referido guia não teríamos assistido à absurda explicação sobre a diferença de sentido entre os vocábulos “cenário” e “previsão”para justificar o número de mortes esperadas, como se ele, o saldo, não se baseasse numa previsão da qual o cenário resultava.
Teríamos também sido poupados à proclamação do “pico da curva da pandemia” para três momentos diferentes: um próximo da data do anúncio efetuado no início de março, outro mais distante para um dos meses seguintes e outro ainda mais longínquo agora apontado. Também não se teria assistido ao desentendimento entre a Câmara do Porto e o departamento da saúde do Governo sobre o necessário cerco sanitário daquela cidade e à explicação dada e novamente absurda. Afinal, a medida sanitária preconizada tinha por base um erro – duplicação – praticado na contagem dos infetados.
Na semana anterior, nos Estados Unidos, o seu Presidente quis cercar sanitariamente New York. O Presidente da Câmara daquela enorme cidade a isso se opôs com grossa ironia. Contudo, nesta segunda feira, o presidente da Câmara surgiu a formular um lancinante apoio a todo o País para que os outros Estados ajudassem a cidade de New York com equipas médicas e equipamentos apropriados prometendo que, no futuro, também os socorreria quando de ajuda necessitassem.
Identifico com clareza um denominador comum nas situações descritas nos parágrafos precedentes: o conflito de interesses entre a atividade política que exige para ser sustentável a permanência da confiança dos eleitores, por vezes a qualquer preço, e a realidade percecionada ou vivida que raramente coincide com a prometida ou antecipada. Gerem-se expetativas para controlar emoções e as suas consequências.
Terça Feira, 31 de março de 2020
O Representante da República para os Açores ou o seu gabinete - é irrelevante - parece que não sponte sua, quando tudo sobre a matéria estava resolvido ou decidido, anuncia a sua antes desconhecida vontade para condicionar os voos entre o Continente e os Açores. Justifica: não fora antes instado pelo Governo Regional.
A resposta do Presidente do Governo Regional dos Açores foi emotiva e dura, mas fundamentada. A culpa nem sequer é do Gabinete do RR nem da necessidade que tem de apresentar uma prova de vida é, simplesmente, da Constituição da República atual à qual também podem ser imputadas responsabilidades por muitas outras situações.
Quarta Feira, 1 de abril de 2020
O Primeiro Ministro retoma o tíbio e defensivo discurso do início da semana. “Vamos fazer todo o esforço (…)”, mas “uma boia não nos salva do tsunami” (…).Vamos sair mais pobres, mais frágeis do ponto de vista económico”.
Não, Senhor Primeiro Ministro! Portugal vai lutar pela primazia da vida sobre os negócios, pela verdade do relacionamento e igualdade social, pela cooperação e coesão europeia, e vai vencer. Um líder sem fé na vitória, desarma a sua temerária gente! E este povo já foi capaz de realizar“ mais do que prometia a força humana”.
Quinta Feira, 2 de abril de 2020
O Governo Regional reforça as medidas de contenção e monta um sistema cintas sanitárias em todos os concelhos da ilha de S. Miguel. Era inevitável. Parece bem pensada, adequada a uma ilha cuja sobrevivência depende da agricultura, da pecuária, da pesca, da distribuição de matérias subsidiárias, e estas atividades, ainda, de braços humanos. A racionalidade encontra-se na seletividade e não generalidade.